O Previsível Naufrágio do ‘Anarcocapitalismo’ de Milei

Em repetição trágica da história global, o laissez-faire versão argentina destrói a atividade produtiva levando empresas à falência, demissões em massa e ao aumento vertiginoso dos índices de pobreza

“Diversos centros, câmaras de comércio e empresas associadas apontaram as crescentes dificuldades para manter as fábricas em funcionamento e preservar empregos em amplos setores produtivos. A combinação de altas taxas de juros que aumentam o custo do financiamento, a valorização da moeda que barateia os produtos importados e um mercado interno enfraquecido pela baixa renda resulta em uma equação extremamente complexa para a indústria”, alertaram os líderes empresariais reunidos na FISFE (Federação Industrial de Santa Fé), reportou no último dia 24 o diário argentino Página|12.

A drástica redução salarial, o endividamento galopante das empresas e as demissões em massa de funcionários levam a economia argentina a uma crise sem precedentes nas últimas décadas. A atividade produtiva do país naufraga, impactando seriamente o emprego formal.

Dados da Câmara de Comércio argentina indicam que os gastos das famílias em janeiro caíram 0,8 por cento em relação ao ano anterior, em queda há três meses consecutivos. Enquanto há estagflação, um quadro econômico pior que a inflação em que os custos e preços disparam, em um cenário de estagnação econômica.

A província de Santa Fé, onde a indústria é um dos principais motores da economia, reflete uma realidade generalizada na Argentina hoje em que a queda na produção gera efeito multiplicador negativo que impacta diretamente outros setores, amplificando a gravidade da queda na atividade econômica. Cenário distante do que prometeu Milei na campanha eleitoral, assegurando que com a implementação de seu “anarcocapitalismo”, em poucos meses seu país estaria igual aos europeus.

Em dezembro de 2025, a atividade produtiva caiu 9,8 por cento em relação ao ano anterior, com 68 por cento dos setores industriais registrando queda nos níveis de produção. Além disso, entre dezembro de 2023 e outubro de 2025, 292 indústrias e mais de 7.700 empregos industriais foram perdidos na província, representando reduções de 4,9 e 5,6 por cento, respectivamente, de acordo com dados da FISFE.

Cerca de 22 mil empresas fecharam as portas desde que Javier Milei assumiu a presidência da Argentina, em dezembro de 2023. O que representa uma média de 30 falências por dia, com transporte e armazenagem, serviços imobiliários, construção civil e indústria sendo os setores mais afetados.

De acordo com o Centro de Estudos sobre o Direito ao Futuro (CEDAF) argentino, nestes dois anos o governo de Milei teve um acréscimo de um milhão de pobres na Argentina: o que significa 9 por cento a mais de pobres do que em 2023. A pobreza multidimensional cresceu 3 por cento durante o governo de Milei, em relação ao ano anterior à sua ascensão ao poder.

Mara Ruiz Malec, coordenadora do CEDAF e uma das autoras da análise econômica do órgão, observou no início deste mês que o censo de pessoas em situação de rua realizado pelo governo da cidade de Buenos Aires mostrou um aumento anual de quase 28 por cento em 2025.

“Vemos que a renda não está acompanhando a inflação; observamos que a pobreza não diminuiu”, afirmou Ruiz Malec, contrariando afirmações do governo nacional de que a pobreza está sendo reduzida na Argentina.

No final de 2015, indicadores econômicos independentes – mais críveis — pontuaram uma taxa de pobreza de 67 por cento no país sul-americano. Se no primeiro ano de Milei os índices de pobreza chegaram quase a 60 por cento, este é o índice mais próximo da realidade considerando a situação econômica atual, contrariando os números do governo, de 31,6 por cento de pobreza.

Estes dados ressaltam negativamente a administração de Milei, diante de governos nacionais anteriores: com De la Rúa, a pobreza na Argentina cresceu 50 por cento e com Maurício Macri, atingiu 40 por cento.

Algo comparável ao que ocorreu nos anos de Fernando de la Rúa (1999-2001) — mas com índices econômicos ainda mais severos, com desolador destaque para o crescimento da pobreza. O próprio economista Domingo Cavallo, ex-ministro de Economia (2001, 1881-1996) dos presidentes Carlos Memen (1989-1999) e de De la Rúa, e ex-presidente do Banco Central argentino (1982), descreve com alta preocupação a atual conjuntura econômica de seu país, comparando-a com o cenário do início da década de 1990.

Na semana passada, Cavallo disse não conseguir decifrar completamente a atual política monetária de Milei porque “as regras do jogo não estão definidas”, segundo ele. “Isso leva à estagflação, que é a estagnação com inflação. É a coisa mais difícil de resolver, ainda mais do que a hiperinflação”, afirmou Cavallo.

Contudo, Milei continua desregulando a economia enquanto tenta negar a crise das maneiras mais patéticas. O próprio presidente da Câmara de Comércio, Natalio Mario Grinman, entre os empresários “neolibertários” mais ferrenhamente defensores do modelo econômico de Milei, admitiu dias atrás que o setor não está indo bem.

Agora, os mesmos industriais que apoiaram raivosamente os princípios “libertários” de Milei na campanha eleitoral estão pedindo que o governo intervenha na economia, implementando uma política industrial que promova a integração inteligente nos mercados globais, defenda os setores industriais comercializáveis da concorrência desleal, crie condições equitativas e estabeleça condições para a reativação do mercado interno.

Este cenário desolador tem sido marca do governo Milei, apenas se agravando com o passar do tempo.

Em pouco mais de dois anos de governo, Milei fechou cozinhas populares, cortou assistência a pacientes com câncer e doenças crônicas, suspendeu ações da Diretoria de Atendimento Direto a Situações Especiais (Dadse), programa criado em 2016 que atendia quem não possuía cobertura de saúde com medicamentos oncológicos, para outras doenças crônicas incapacitantes e patologias agudas urgentes,  congelou o orçamento da educação pública, e eliminou fundos nacionais destinados a escolas estatais em todo o país.

Em meio a isso tudo, o anarcocapitalismo de Milei precariamente travestido de garante das liberdades individuais não esconde seu rosto autoritário, típico de governos elitistas caracterizados por forte apelo moralista tanto quanto demagógico, matéria-prima da intolerância: reprime fortemente manifestações populares pacíficas, desmonta o Estado desregulando a economia e privatizando os serviços públicos.

A história mundial repete-se no país sul-americano agora. Foi assim na Grande Depressão de 1929, na crise econômica iniciada nos Estados Unidos em 2008 e em diversas outras: tendo como causa a desregulação da economia em que o Estado, em algum momento, inevitavelmente terá que intervir para reparar os danos causados pelo laissez-faire — austeridade com Estado mínimo levada às últimas consequências por Milei agora.

Porém, tudo indica que Milei e os aiatolás do livre-mercado irrestrito morrerão fielmente abraçados à sua ideologia. Transferindo, desta maneira, a futuros governos a tarefa de regulação econômica com investimentos públicos e políticas de bem-estar social, o que historicamente fortalece economias nacionais — e as salva de crises geradas pelo devastador capitalismo elitista. 

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Author`s name Edu Montesanti