Fundamentalismo Islâmico e Produção de Narcóticos no Afeganistão Apoiados pelos EUA

O Afeganistão é o pior país para as mulheres entre 188 países do mundo, segundo a organização  Women, Peace and Security (Mulheres, Paz e Segurança), afiliada à Universidade de Georgetown nos EUA: esta não é uma reprodução de notícias pós-11 de setembro, quando o então presidente George W. Bush decidiu invadir o país asiático há mais de 24 anos, supostamente para “libertar as mulheres afegãs da opressão”.

Em 31 de dezembro passado, a organização acadêmica americana afirmou em seu relatório anual que, ao examinar a situação das mulheres com base em três indicadores principais – inclusão, justiça e segurança –, o estudo mostrou mais uma vez que mulheres e meninas afegãs, entre os grupos sociais mais vulneráveis do país asiático, ocupam a pior posição global em termos de segurança e acesso à justiça.

Há severas restrições ao direito das mulheres ao trabalho e à educação no Afeganistão, onde meninas e mulheres são frequentemente estupradas e brutalmente assassinadas pelo Taliban e outros indivíduos misóginos. Até mesmo o acesso à saúde tornou-se cada vez mais difícil para mulheres e meninas afegãs. “Um clima de medo impede muitas mulheres de sequer saírem de casa”, relatou a UN Women (ONU Mulheres) em agosto do ano passado.

Uma tragédia que se repete ano após ano no único país do mundo onde existe apartheid de gênero. Não é notícia internacional por muito tempo, após histeria mundial – que começou com a mídia americana ecoando a Casa Branca, então ditando à mídia internacional – quando a “Guerra ao Terror” era o ponto principal da “política” externa dos EUA.

“Valores como ‘democracia’, ‘direitos das mulheres’ e ‘direitos humanos’ foram simplesmente usados como fachada para fazer com que a invasão e a ocupação parecessem humanitárias”, afirma na entrevista a seguir a líder feminista afegã Friba*, sobre os 20 anos de ocupação americana em seu país, agora mais devastado que nunca.

De acordo com a representante da Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA,na sigla em inglês) nesta entrevista, os partidos jihadistas e o Taliban são financiados por EUA, Israel e Arábia Saudita, e treinados pelo ISI do Paquistão.

“Quando os Estados Unidos chegaram, fizeram exatamente o que haviam feito com al-Julani do ISIS na Síria: levaram ao poder os líderes sanguinários do fundamentalismo afegão, vestiram-nos com ternos e gravatas e permitiram que servissem aos interesses do Ocidente”, revela Friba.

A antiga produção de ópio no Afeganistão e o tráfico de heroína ainda são um grande negócio, administrado pelo Taliban com seu bem conhecido parceiro desde os anos 80: os Estados Unidos da América. Um relatório do  UN Office on Drugs and Crime (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) divulgado em novembro passado afirmou que o cultivo de ópio caiu drasticamente no Afeganistão desde que o Taliban retornou ao poder, em agosto de 2021.

Mas o tráfico regional aumenta à medida que a produção de drogas sintéticas, particularmente a metanfetamina, cresce, e as apreensões dentro e ao redor do Afeganistão foram 50 por cento maiores no final de 2024, em comparação com o ano anterior.

“Os Estados Unidos, além de cooperar com os principais traficantes internacionais de drogas, também apoiam e treinam grupos locais envolvidos na produção de narcóticos”, afirma Friba, detalhando como os EUA historicamente se aliam a traficantes de drogas afegãos.

Nada disso faz parte da agenda da Casa Branca. Nem sequer se escuta uma única palavra do presidente Donald Trump sobre toda esta situação. O mesmo chefe de Estado que justifica defesa dos direitos humanos e combate às drogas em outras partes do mundo, para espalhar ilegalmente e brutalmente bases militares americanas e impor à força os interesses dos EUA, derrubando governos locais, violando leis internacionais e até mesmo a Constituição dos EUA.

“Os Estados Unidos não podem se apresentar como defensores da luta contra o terrorismo. CIA, MI6, Mossad e suas agências de inteligência aliadas nunca deixaram de financiar, armar, treinar e promover esses grupos regionais”, expõe a representante da RAWA na entrevista a seguir.

* Friba é pseudônimo da representante da RAWA, organização por direitos humanos que atua na clandestinidade no Afeganistão. Nenhuma de suas membras revela-se, nem sequer expõe o rosto em manifestações públicas

 

Edu Montesanti: Descreva a crise humanitária no Afeganistão, comparando a situação atual com a dos tempos do Taliban no poder prévios à ocupação americana de 2001, prometendo levar democracia ao país, especialmente libertar as mulheres afegãs da opressão.

Friba: Por mais de quarenta anos, o povo do Afeganistão tem sofrido com a guerra, a pobreza, o desemprego, a falta de moradia e a migração forçada, e esse sofrimento insuportável continua com a mesma intensidade até hoje.

Os partidos jihadistas e o Taliban, apoiados financeiramente por EUA, Israel e Arábia Saudita, e treinados pelo ISI do Paquistão, transformaram o Afeganistão em ruínas e abriram caminho para a invasão militar dos EUA e da OTAN. O fundamentalismo islâmico, que serviu de base para a influência americana e ocidental no Afeganistão e foi fortalecido com dólares e armas pelas potências imperialistas, tem sido a origem de inúmeras tragédias.

As facções jihadistas e do Taliban saquearam os últimos recursos restantes do Afeganistão e transformaram a vida em um inferno para o povo. Mas quando os Estados Unidos chegaram, fizeram exatamente o que haviam feito com al-Julani do ISIS na Síria: levaram ao poder os líderes sanguinários do fundamentalismo afegão, vestiram-nos com ternos e gravatas e permitiram que servissem aos interesses do Ocidente.

Naturalmente, também permitiram que se envolvessem livremente em todas as formas de corrupção e crime. Em nome da “democracia”, dos “direitos das mulheres” e da “guerra contra as drogas”, os EUA ocuparam o Afeganistão. Em vez disso, fortaleceram aqueles que eram os piores violadores da democracia, os senhores da guerra mais misóginos e figuras-chave do narcotráfico, dando-lhes vastas quantidades de dinheiro e recursos.

Nos últimos vinte anos, os Estados Unidos fizeram tudo ao seu alcance para impedir a punição dos senhores da guerra; em vez disso, apoiaram-nos. Abdul Rasul Sayyaf, Atta Mohammad, Mohammad Younus Qanooni, Mohammad Fahim, Gulbuddin Hekmatiar, Abdul Rashid Dostum, Burhanuddin Rabbani, Ismail Khan, Karim Khalili, Mohammad Mohaqiq, Haji Qadir, Hazrat Ali e muitos outros estiveram entre os principais perpetradores de massacres e destruição.

Os EUA os protegeram e suprimiram a publicação de relatórios que documentavam seus crimes. Antes da ocupação americana, o povo do Afeganistão, especialmente as mulheres, era submetido às mais horríveis atrocidades pelos fundamentalistas.

Durante a ocupação, essa situação não só persistiu como também, devido aos bombardeios e crimes de guerra das forças americanas/OTAN, dezenas de milhares de pessoas inocentes foram massacradas. Rukhshana, Tabasoom, Farkhunda, Marwa, Zainora, Sheema Rezaee, Zulaikha, Mina Mangal e centenas de outras mulheres foram apedrejadas, baleadas ou torturadas até a morte sob a presença da ocupação americana.

Milhares de outras mulheres foram estupradas e abusadas, e as taxas de suicídio e autoimolação entre as mulheres atingiram níveis recorde. Devido à predominância da ideologia feudal e misógina, mesmo esses incidentes raramente chegaram à mídia.

Assim como a base das potências imperialistas sempre se apoiou em forças corruptas e traidoras, no Afeganistão também, criminosos jihadistas e talibans constituíram sua base. Valores como “democracia”, “direitos das mulheres” e “direitos humanos” foram simplesmente usados como disfarce para fazer com que a invasão e a ocupação parecessem humanitárias.

Como afirmamos em todas as nossas declarações, esperar liberdade e prosperidade de quaisquer forças de ocupação, incluindo os Estados Unidos, é ilusão e traição ao sangue de milhares de combatentes pela liberdade que deram suas vidas pela libertação deste país.

 

Como você avalia o retorno do Taliban ao poder após a saída dos EUA do Afeganistão em 30 de agosto de 2021? Relatado como um fato histórico bastante peculiar após a invasão americana, supostamente para combater o Taliban: realmente um ¨erro trágico¨ isso tudo nos dias de hoje?

Não consideramos o retorno do Taliban ao poder um “evento histórico singular” ou um “erro desastroso”. Pelo contrário, tanto antes quanto depois da reinstalação dessas forças medievais, afirmamos claramente diversas vezes que o Taliban, como força de reserva do imperialismo estadunidense, foi criado e nutrido por Estados Unidos, Reino Unido, Arábia Saudita e Paquistão.

Esse grupo luta para servir aos seus interesses e, sempre que necessário, será reconduzido ao poder pela remoção de seus protegidos tecnocratas. Em nossa declaração emitida em 15 de agosto de 2022, afirmamos claramente nossa posição: o imperialismo estadunidense alega ter sido surpreendido pela queda de Cabul e pela fuga de Ashraf Ghani, mas a realidade é que o plano para entregar o poder ao Taliban estava em andamento desde o momento em que os líderes talibans foram libertados de Guantánamo e Bagram. Desde a remoção de terroristas e criminosos de guerra da lista negra da ONU, passando pela abertura do escritório de Doha, o início das negociações multilaterais sob a supervisão de traidores como Khalilzad, a assinatura de um tratado vergonhoso com esses monstros, a libertação de 5 mil prisioneiros talibãs e, finalmente, a completa transferência de poder e de 85 bilhões de dólares em equipamentos militares fabricados pelos EUA, tudo ocorreu exatamente conforme o planejado.

Os EUA e a OTAN, durante seus 20 anos de ocupação, preservaram o Taliban como força de reserva e, sob o pretexto de jogo de gato e rato, fortaleceram-no secretamente.

Ao longo desses anos, o Taliban cometeu inúmeros atos de terror, atentados suicidas e explosões contra civis afegãos inocentes, não contra os ocupantes americanos ou da OTAN.

As mãos ensanguentadas do imperialismo estadunidense e seus aliados na criação e no apoio a grupos brutais como o Taliban, o Estado Islâmico, a Al-Qaeda e as facções jihadistas não são segredo para ninguém.

Os Estados Unidos não podem se apresentar como campeões na luta contra o terrorismo simplesmente eliminando um ou dois peões desobedientes ou desgastados. O assassinato de al-Zawahiri em Cabul foi mais uma manobra de propaganda visando as eleições presidenciais americanas do que uma tentativa genuína de desmantelar redes terroristas.

A CIA, o MI6, o Mossad e suas agências de inteligência aliadas nunca cessaram de financiar, armar, treinar e promover esses grupos regionais.

Por mais de quarenta anos, os governos do Paquistão, Irã, Turquia e Arábia Saudita desempenharam um papel central na perpetuação desse fenômeno cancerígeno. O fato de o Paquistão abrigar criminosos de guerra e traidores das facções jihadistas, juntamente com a existência de 30.000 madraças religiosas financiadas por fontes americanas e aliadas, são evidências claras do profundo apoio do ISI ao terrorismo.

Os EUA não abandonaram o Afeganistão, nem por um segundo, enquanto buscam manter seus interesses estratégicos e conter a China e a Rússia. Embora imponham sanções ao Talibã publicamente e aleguem não reconhecê-lo, continuam a injetar dólares no regime sob vários pretextos para evitar seu colapso.

Essas potências imperialistas agora pressionam pela criação de um suposto “governo inclusivo” para que alguns de seus espiões experientes possam ser infiltrados na administração do Talibã.

Além disso, os EUA estão fortalecendo ativamente o Estado Islâmico na região. Conforme noticiado pela mídia, o recrutamento do Estado Islâmico triplicou no último ano. A transferência de combatentes do Estado Islâmico da Síria para o Waziristão e, posteriormente, para o leste do Afeganistão demonstra que o grupo está sendo preparado para ser a próxima ferramenta de caos regional, visando pressionar a China e a Rússia. Mais uma vez, será o nosso povo que sofrerá as consequências desse terrorismo.

 

Em entrevistas concedidas a mim anos atrás, durante a ocupação americana, você expôs o envolvimento dos EUA na produção de ópio no Afeganistão e no tráfico de heroína. Por favor, detalhe um pouco mais esse negócio obscuro hoje.

Como já afirmamos, em todos os países onde os Estados Unidos intervieram, além de outras consequências, o cultivo, a produção e o tráfico de narcóticos atingiram níveis sem precedentes. Para isso, os Estados Unidos, além de cooperarem com os principais traficantes internacionais de drogas, também apoiam e treinam grupos locais envolvidos na produção de narcóticos.

Durante a Guerra do Vietnã, por exemplo, Frank Lucas, um grande traficante de drogas, trabalhou com as forças americanas para transportar grandes quantidades de narcóticos para os Estados Unidos nos caixões de soldados mortos. Para mais detalhes, veja o filme American Gangster. Da mesma forma no Afeganistão, os EUA pagaram ao Taliban para proteger os campos de ópio.

Comandantes americanos em regiões com extenso cultivo de drogas, como Helmand, usaram seus próprios veículos de comunicação para retratar essas áreas como inseguras. Eles forneceram aos líderes talibans somas significativas de dinheiro e armamento para impedir que as forças governamentais entrassem nesses distritos. Após a colheita, os narcóticos eram transportados para bases britânicas e, em seguida, traficados para os Estados Unidos e o Reino Unido em aeronaves militares.

Este contexto explica por que o Líder de Esquadrão Steve Smith, Oficial Sênior de Controle de Tráfego Aéreo no Campo Bastion em Helmand, afirmou que o aeródromo registrava uma média de 400 voos por dia, um número extraordinariamente alto para uma província remota, revelando o verdadeiro propósito por trás de um tráfego aéreo tão intenso.

Para garantir o controle do Talibã sobre as áreas de produção de drogas, os Estados Unidos também mantiveram relações estreitas com os principais traficantes afiliados ao Talibã, como Haji Bashir Noorzai.

Consequentemente, desde a intervenção dos EUA em 2001 até sua retirada, aproximadamente 200 mil hectares de terra permaneceram sob cultivo de ópio, e mais de três milhões de homens e mulheres afegãos tornaram-se viciados em narcóticos.

Você pode perguntar: que benefício os Estados Unidos obtêm com a produção de narcóticos? A resposta é bastante simples. Assim como a Grã-Bretanha, durante as Guerras do Ópio, buscou viciar a população chinesa para dominar seu comércio e território, os Estados Unidos também visam tornar os jovens dependentes dessas substâncias tóxicas, para que os países possam ser subjugados um após o outro com facilidade. Buscam também tornar sua própria população suscetível ao vício, garantindo que ninguém seja capaz de questionar seus crimes, assassinatos e exploração.

 

Tem-se discutido, principalmente entre estudos e análises de alguns acadêmicos nos EUA e na Europa, a necessidade da aprovação de novas leis internacionais para impedir que o Taliban cometa crimes: não parece isso apenas mais uma distração, já que a questão não é a falta de leis, mas sim a aplicação de muitas leis já existentes para punir o Taliban?

De fato, você está correto: nosso problema não está nas leis em si. Durante os vinte anos de ocupação do Afeganistão pela OTAN e pelos Estados Unidos, dezenas de leis foram elaboradas, supostamente para proteger as mulheres. No entanto, todas elas não passaram de pedaços de papel sem valor. O Taliban não respeita a lei nem lhe atribui nenhum valor.

Esses relatórios e pesquisas são conduzidos a mando dos patrocinadores estrangeiros do Taliban para minimizar os crimes, a brutalidade, a opressão e a selvageria desse grupo medieval contra o povo do Afeganistão, especialmente as mulheres, e para desviar a atenção da verdade.

Qualquer pessoa que elabore leis para esse regime assassino e misógino está, na verdade, traindo o povo do Afeganistão, e especialmente suas mulheres.

Não acreditamos de forma nenhuma que o Taliban possa ser reformado por meio de legislação. Ao contrário, exigimos a derrubada desse regime tirânico, misógino, anticivilização e desumano.

 

É interessante notar o silêncio mundial diante da atual tragédia no Afeganistão, especialmente por parte da mídia e da chamada “comunidade internacional”, após a frenética preocupação com o país depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, não é, Friba? Qual sua opinião sobre isso?

No mundo atual, a mídia corporativa e o que se denomina “comunidade internacional” são instrumentos a serviço do imperialismo, especialmente o dos Estados Unidos.

Testemunhamos como, quando os orçamentos do Departamento de Estado dos EUA e da USAID foram cortados sob o governo Trump, as operações de centenas de veículos de comunicação cessaram não apenas nos EUA, mas globalmente. Esses veículos, depois da própria máquina de guerra imperialista, desempenham o maior papel oculto no apoio a ondas de barbárie e guerras criminosas em todo o mundo.

A mídia americana e alinhada ao Ocidente só noticia criminosos de guerra quando isso serve aos interesses americanos. Quando necessário, eles podem retratar um terrorista sanguinário notório como al-Julani como um “democrata”, um “defensor dos direitos humanos”, uma “defensora dos direitos das mulheres” e um “apoiador dos direitos das minorias”.

O governo dos EUA ofereceu uma recompensa de US$ 10 milhões por Sirajuddin Haqqani (o ministro do Interior do Talibã) há apenas dois anos. No entanto, hoje, todos os meios de comunicação, incluindo The New York Times, The Washington Post e vários veículos afegãos financiados pelo Ocidente, estão promovendo Haqqani como um “político”, um”apoiador da educação de meninas” e “moderado”!

Esses mesmos meios de comunicação comprados e pagos chegaram a rotular Ashraf Ghani, o cérebro podre do mundo, como o “segundo pensador mais inteligente da Terra” da noite para o dia!

Após a reinstalação do Taliban, a primeira medida dos EUA foi financiar vários veículos de comunicação afegãos transmitindo de solo americano para o Afeganistão. Por exemplo, o canal de TV Amu foi lançado rapidamente com recursos substanciais e o recrutamento de diversas figuras da mídia treinadas pelos EUA.

Por meio de transmissões via satélite e redes sociais, esse veículo começou a manipular a opinião pública. Esses veículos agora glorificam os traidores do chamado regime da “República” e algumas figuras jihadistas foragitas que compartilham ideologia com o Talibã e são responsáveis ​​pela miséria do Afeganistão.

Notavelmente, eles elogiam Ahmad Massoud, que não possui nenhuma superioridade real sobre o Talibã, preparando-o como um potencial fantoche do Ocidente para o poder futuro.

Esses veículos de comunicação não apenas acobertam criminosos de guerra de segunda e terceira categoria, como também limpam a imagem de grandes criminosos de guerra como Netanyahu, Trump, Macron e outros.

Apesar dos massacres, da destruição e da fome infligidos ao povo de Gaza nos últimos dois anos, essas mesmas plataformas de mídia continuam a apresentar Trump como um “pacifista” e permanecem praticamente em silêncio sobre o Holocausto de Gaza.

Quando se pronunciam, atribuem toda a culpa ao Hamas, apresentando-o como a causa de todo o sofrimento e dos assassinatos em massa.

Recentemente, os mesmos meios de comunicação lançaram campanhas de propaganda para encobrir o Talibã, alegando que o cultivo de papoula e o tráfico de drogas no Afeganistão diminuíram ou praticamente cessaram. No entanto, de acordo com evidências e conversas com pessoas em províncias remotas, essas alegações são falsas.

Na realidade, o cultivo de papoula só diminuiu no primeiro ano do retorno do Taliban ao poder, e isso porque os armazéns dos principais traficantes (muitos dos quais financiam e pertencem ao Talibã) já estavam cheios.

Com a redução do cultivo, a demanda por ópio e outras drogas aumentou, permitindo que o Taliban e seus apoiadores lucrassem enormemente.

Em nossa opinião, assim como o alvoroço da mídia antes do 11 de setembro de 2001 estava alinhado com os interesses políticos dos EUA, o atual silêncio da mídia em relação à catástrofe no Afeganistão, particularmente à situação horrível das mulheres, que foram privadas de seus direitos mais básicos, impedidas de trabalhar e estudar e mortas sob vários pretextos, também reflete as mesmas políticas e interesses dos EUA e do Ocidente.

 

Tanto China quanto Rússia não se opuseram ao retorno do Taliban ao poder, e a Rússia foi inclusive o primeiro país a reconhecer oficialmente o grupo como governante do Afeganistão a partir de agosto de 2021. Há muito tempo a RAWA insiste, inclusive em entrevistas concedidas a mim, que a Rússia mantém “seus talibans” no Afeganistão por interesses econômicos e geoestratégicos. Você poderia descrever como ambos os países operam no Afeganistão atualmente, e como seus laços com o Taliban desenvolveram-se ao longo dos anos?

O que é claro, e algo que temos enfatizado repetidamente, é que as forças reacionárias e religiosas são inerentemente oportunistas e rápidas em se vender. Elas prontamente fazem acordos em troca de dinheiro e privilégios.

No Afeganistão, vimos como os partidos jihadistas se venderam ao Paquistão, aos Estados Unidos, a Israel, ao Irã, à Arábia Saudita, à França e ao Reino Unido. Eles dilaceraram o país e o transformaram em um banho de sangue. O Taliban é o gêmeo ideológico dos jihadistas.

Durante os vinte anos de ocupação americana do Afeganistão, tanto Rússia quanto China mantiveram certas facções dentro do Taliban sob sua influência para proteger seus próprios interesses, particularmente para impedir a infiltração do Estado Islâmico na Ásia Central e em suas fronteiras e para atacar as forças americanas. Nesse sentido, obtiveram relativo sucesso.

Após o retorno do Taliban ao poder, tanto Rússia quanto China, que já haviam estabelecido laços com o grupo, perceberam o vácuo deixado por seu rival e aproveitaram a oportunidade para promover suas próprias agendas políticas e econômicas.

Buscaram conter o Taliban e consolidar sua influência no Afeganistão. Essas potências compreendem muito bem que os Estados Unidos não abrirão mão facilmente do controle dessa região estrategicamente vital, razão pela qual Rússia e China estão tentando usar o Taliban contra os EUA.

Elas também perceberam o declínio da força global americana e acreditam que podem expulsá-la do Afeganistão, uma região de importância estratégica fundamental na Ásia. A Rússia foi o primeiro país a reconhecer formalmente esse grupo criminoso e terrorista, na esperança de que, ao oferecer essa legitimidade, pudesse vincular ainda mais o Taliban aos seus próprios interesses. Acreditamos que esses dois países, assim como o Irã, conseguiram em grande medida influenciar o Taliban e promover seus objetivos econômicos especialmente ao garantir contratos relacionados aos ricos recursos minerais do Afeganistão.

No entanto, seu silêncio diante da tirania do Talibã, particularmente a opressão das mulheres, é indesculpável e não será esquecido pelo povo afegão.

 

A RAWA está extremamente preocupada com um grupo de mulheres afegãs, classificando-as como “traidoras” e “piores até que o Taliban”. É um assunto sério, não divulgado pela mídia internacional. Por favor, Friba, diga quem são elas, o que estão fazendo, onde estão e, se possível, cite seus nomes.

Sim, caro amigo, a RAWA tem enfatizado repetidamente que mulheres que agem em benefício próprio e são financiadas pelo Ocidente, como Mahbouba Seraj, Shahrzad Akbar, Habiba Sarabi, Mari Akrami, Nargis Nehan, Farkhunda Zahra Naderi, Sima Samar, Shukria Barakzai, Rangina Hamidi, Zarifa Ghafari, Asila Wardak, Roya Rahmani, Adela Raz, Naheed Farid, Shahgul Rezai, Sharifa Zormati, Fawzia Koofi, Shinkai Karokhail, Manizha Bakhtari e outras que participam de conferências e programas internacionais sob o pretexto de serem “representantes das mulheres afegãs”, recebem prêmios, são promovidas e são todas traidoras dos interesses das mulheres afegãs encarceradas.

Elas são colaboradoras e defensoras dos interesses ocidentais e de seus fantoches jihadistas e talibans. A maioria dessas mulheres, juntamente com um grupo de homens, foi nutrida pelo Ocidente durante os vinte anos de ocupação do Afeganistão pelos EUA e pela OTAN.

Algumas também foram treinadas por meio de bolsas Fulbright e Chevening e, posteriormente, nomeadas para cargos governamentais nos regimes fantoches de Hamid Karzai e Ashraf Ghani. Alinhadas aos interesses ocidentais, sua missão era justificar a ocupação militar do Afeganistão e apresentá-la como uma defesa dos direitos das mulheres afegãs e da democracia. Como pseudointelectuais pró-ocidentais, elas encobriam os invasores EUA/OTAN e seus fantoches.

Seu objetivo era influenciar o pensamento das mulheres, de maneira que apoiassem as forças de ocupação americanas e aceitassem seus governos fantoches. Por anos, elas têm trabalhado para implantar a cultura e a ideologia tóxicas do imperialismo e do fundamentalismo nas mentes de nossa juventude, desviando, assim, as lutas revolucionárias, de independência e progressistas de seu verdadeiro caminho.

Essas mulheres criaram ONGs e as chamadas “organizações da sociedade civil”, por meio das quais receberam grandes quantias de dinheiro em nome das mulheres afegãs de doadores ocidentais, transformando a luta em um negócio. Como resultado, elas se tornaram parte de uma classe privilegiada que vive no luxo e no conforto.

Essas mesmas mulheres oportunistas estavam ao lado dos principais criminosos jihadistas no regime corrupto e fantoche de Ashraf Ghani, viajando para Dubai, Catar e Moscou para as chamadas “negociações de paz” com o Taliban.

Seguindo os desejos de seus mestres americanos e britânicos, elas propagaram a mensagem do Taliban, falando sobre sua “natureza transformada” e até mesmo elogiando seu “perfume” e “roupas de luxo” para o povo!

Essas mulheres ornamentais foram as plataformas de mídia para falar sobre os “bons” programas do Taliban para as mulheres afegãs. Contudo, antes que os EUA e o Ocidente devolvessem o poder ao Talibã, eles foram respeitosamente evacuados para o Ocidente a bordo dos mesmos aviões americanos que anteriormente haviam bombardeado e incendiado o povo afegão.

Nos últimos quatro anos, eles têm atuado de lá como porta-vozes dos Estados Unidos, trabalhando para confundir e manipular a opinião pública.

Temos cem por cento de certeza de que essas mulheres, em troca de dinheiro, prêmios, cargos e futuras posições em governos estabelecidos pelos EUA e pelo Ocidente, receberam a missão de agir de acordo com suas políticas e interesses.

Os EUA, a França, a Alemanha, o Reino Unido e outros países imperialistas promovem e glorificam essas mulheres justamente porque elas servem como suas peças no jogo.

 

A RAWA continua com o trabalho em prol das mulheres em todo o país? Descreva os riscos que a RAWA enfrentou ao longo do tempo devido a esta atividade.

Sim, desde o primeiro dia, acreditamos na luta e no poder inexplorado de nossas próprias mulheres e continuamos trilhando esse caminho com determinação, apesar de todos os perigos.

A RAWA continua hoje com seu trabalho de conscientização e mobilização de mulheres. Realizamos cursos políticos e educacionais secretos tanto em Cabul quanto nas províncias. Em situações de emergência, como inundações, terremotos, surtos de doenças infecciosas e outras, fornecemos assistência médica, alimentos e roupas por meio de uma equipe de socorro dedicada às comunidades afetadas, fazendo o possível para ajudá-las a superar as dificuldades.

A comunicação com a mídia e a conscientização política também são partes essenciais do nosso trabalho. Acreditamos que o regime de ignorância e barbárie do Talibã ruirá sob a pressão da resistência e da luta popular. O povo do Afeganistão odeia profundamente o regime corrupto e medieval do Taliban, que privou a sociedade de todas as liberdades e a arrastou para a escuridão da Idade da Pedra, para a pobreza e para um sofrimento insuportável.

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Author`s name Edu Montesanti