Lembrar Amado Nervo

Com jeito descontraído e aconchegante o Embaixador mexicano em Montevidéu, Dom Cassio Luiselli recebeu o PRAVDA na sede da Embaixada na Cidade Velha. Confira o sentimento dele após 90 anos da morte do escritor e Embaixador mexicano em Montevidéu faz 90 anos e um mês quase.

PRAVDA: Senhor Embaixador, fale da sua carreira diplomática desde o início até hoje.

EMB. LUISELLI: Não sou diplomático de carreira. Fui sempre funcionário público e acadêmico. Esta é minha terceira embaixada mas fora ter o cargo de Embaixador, também fui Diretor Adito da CEPAL, do IICA (Instituto de Integração e Cooperação da Agricultura – ( www.iica.org ). Sou economista. Tem sido Vice-Ministro no México tendo cargos no Governo em outras oportunidades. Quanto á minha função diplomática tenho ficado na frente da Embaixada da Coréia do Sul (fim de 1989 até metade de 1993) com potestades na Mongólia; logo tive o grande privilégio de ser o primeiro Embaixador mexicano na África do Sul assim que o Apartheid acabou e na hora que o Mandela ia ficar na frente do Governo de 1994 á 1998. Mais logo estive no México como professor acadêmico no Instituto Tecnológico de Monterrey e como Vice-Ministro para o regulamento ambiental. Agora sim, logo veio minha etapa de Embaixador no Uruguai e como Representante Permanente do México perante ALADI – Associação Latino-Americana de Integração ( www.aladi.org ). No Uruguai fiquei cadastrado como Embaixador o 06 de Setembro de 2007, porém faz quase um ano e dez meses.

PRAVDA: É amante do futebol como a grande maioria dos mexicanos?

EMB. LUISELLI: Não sou, não. Gosto de futebol mas não sou aquele amante desse esporte. Sou fã do boxe que é um grande esporte no México. Quanto ao futebol, gosto dos grandes eventos, grandes jogos mas não fico com aquela paixão pelo futebol como acontece aqui no Uruguai. Gosto de futebol, só isso.

PRAVDA: Vamos treinar a memória Senhor Embaixador...onde ficou no decorrer de aquelas Taças do Mundo que aconteceram no México em 1970 e 1986.

EMB. LUISELLI: Vamos treinar então. Com certeza, me lembro sim. Quanto á Taça do Mundo México´70, estive na Cidade de México e posso me lembrar que o Brasil arvorou o Caneco de Campeão e o povo mexicano todo torceu pela Verde-Amarela no decorrer do torneio tendo como grande herói o Pelé. Veja só, agora no Brasil, você pega um taxi e os motoristas ainda se lembram daquele grande apoio que o povo mexicano deu para a seleção brasileira em 1970.

Quanto á Taça do Mundo 1986, também fiquei no México e tive o privilégio de ser mais um nas arquibancadas o dia que o Maradona concretizou aquele gol de placa perante a Inglaterra no Estádio Azteca. Foi um instante épico.

Também assisti o melhor jogo do século XX, foi o jogo Itália 4 x Alemanha 3 no México 1970 com grande emoção até o apito final do árbitro.

PRAVDA: A gripe suína continua atingindo ainda hoje a indústria turística mexicana que é uma das mais importantes?

EMB. LUISELLI: Vamos ver...eu diria que o nome é Febre A H1 N1 pois essa outra nomeação exprime um sentimento de desprezo, o porco simplesmente foi parte desse processo viral. Felizmente aquele pavor acabou. Temos conferido as curvas de Gauss quanto aos novos contágios e vítimas e aquelas cumes já rebaixaram muito.

Infelizmente agora o que foi uma epidemia tornou-se pandemia global em outras partes do mundo.

Infelizmente acabou refletindo na economia mexicana pois o país ficou sem aquela movimentação. As grandes cidades ficaram «congeladas» por alguns dias, cidades que são muito fortes. O turismo também derrubou de jeito dramático. Muito devagar e de forma gradativa começou a decolagem mais uma vez só que logo acabamos topando uma outra crise, a crise financeira mundial. Foi crise, acima de crise. Aliás, o México é forte e vai se encaminhar de novo naquele rumo fértil. Este foi um ano muito difícil para o México.

PRAVDA: Foi justa a decisão da Confederação Sul-Americana de Futebol «deixando fora» desta versão da Taça Libertadores aos times mexicanos?

EMB. LUISELLI: Foi extremamente injusto e muito pouco gentil. O pessoal mexicano que anda na rua o dia a dia ficou muito chateado. Acho que vai refletir no futuro. Não estou envolvendo apenas as redes de tevê senão a população toda. Leve em consideração que a nossa população atingiu os 110 milhões e o ingresso per capita está nos 12 mil dólares americanos. Trata-se de um mercado importante com muitos fãs do futebol da gema. Porém acho que foi ruim que alguns times ficassem avançando nesta Taça Libertadores querendo pular por cima uma fase do torneio. Não foi elegante no mínimo. Uma página infeliz no relacionamento esportivo destes países.

PRAVDA: O senhor acha que os times foram os responsáveis ou a própria Confederação Sul-Americana de Futebol?

EMB. LUISELLI: Não envolve países nem nada a ver com a diplomacia. É um negócio simplesmente esportivo. No meu caso reflito aquele sentimento do cidadão mexicano.

PRAVDA: Nos últimos anos houve uma tendência das Embaixadas de ficar na Cidade Velha montevideana, acho que a Embaixada Mexicana compartilha esse olhar?

EMB. LUISELLI: Foi uma decisão ótima da anterior Embaixadora de México, Embaixadora Carvallo. O Governo Mexicano recebeu aquele «convite» do antigo Prefeito da Montevidéu, o arquiteto Mariano Arana para localizar a Embaixada Mexicana na Cidade Velha e o nosso Governo acabou comprando este prédio, reciclando-o e gerando um espaço cultural muito bonito no térreo e os escritórios no primeiro andar. Este apoio mexicano foi de propósito tentando contribuir na renascença da Cidade Velha, antiga Cidade de Montevidéu. Posso acrescentar que esse progredir da Cidade Velha continua acontecendo á cada dia mais com inúmeros prédios aprimorados mantendo aquele jeitinho antigo. No caso específico dos nossos amigos espanhóis do lado desta Embaixada. Acabamos sendo os pioneiros, ou no mínimo um dos pioneiros de um processo de transformação saudável desta cidade.

PRAVDA: Uma outra Embaixada que também vai se localizar nesta Cidade Velha nos próximos meses é a venezuelana. O que é que o Senhor acha do Presidente Hugo Chaves, aquele homem que fez explodir o Rei Juan Carlos de Borbón com aquela frase que agora é famosa: «Porque não fecha a boca!!!»

EMB. LUISELLI: Respeito total pelo Presidente Hugo Chaves, que foi eleito de jeito democrático pelo povo venezuelano.

PRAVDA: Oito rádio emissoras uruguaias foram absorvidas por grupos empresariais mexicanos? Porque acha que fizeram este investimento em um país pequeno?

EMB. LUISELLI: O México está investindo fora da divisa mexicana. Há um ressurgimento dos investimentos bem mais conhecidos com «As costas trás-latinas». O México tem no Brasil, que vai ser de interesse para os leitores do PRAVDA lusófono, 16 mil milhões de dólares em investimentos. Por enquanto, o México é o principal inversor na América Latina toda e de jeito específico, no Brasil. Também temos muitos investimentos no Chile, na Argentina, na América Central e fica claro que no Uruguai mas quanto ao assunto das rádio emissoras que você está me dizendo, não tenho aprofundado, soube á partir dos jornais, só isso. Tenha certeza que estas das emissoras não são os únicos investimentos, tem bastante fora essas últimas bem mais conhecidas.

PRAVDA: Amado Nervo, conhecido escritor mexicano além de Embaixador credenciou-se perante o Governo Uruguaio na sexta 16 de Maio de 1919, nove dias depois ele falece em Montevidéu.

Desde o olhar de um diplomata com o Senhor na cidade que aconteceu aquele fato lutuoso, qual é o sentimento do Luiselli 90 anos depois. É privilégio para o Senhor?

EMB. LUISELLI: Foi extremamente importante para mim além de emocionante. Tive o grandíssimo privilégio de ter no mínimo quatro ilustríssimos predecessores, talvez o maior de todos é o Amado Nervo. Tudo é muito lindo pois reflete uma época dourada no relacionamento dos países Latino-Americanos. O Uruguai decreta dias de luto e um navio da Marinha escolta o poeta mexicano rumo ao México. Também fica muito perto de esta história a Argentina que como ocorreu no Uruguai, decreta luto. O corpo do defunto atinge o porto do Rio de Janeiro acontecendo um cerimonial muito amigável; logo na Venezuela acontece a mesma coisa. Tendo alcançado o porto de Havana une-se um navio da Marinha chegando no porto de Veracruz. Acho que este roteiro reflete aquele sentimento de amizade que existe entre os povos americanos.

PRAVDA: Após 90 anos essa dor que atinge a morte de alguém vai se extinguindo. Agora o Senhor gostaria «percorrer» aqueles nove dias do poeta em Montevidéu, visitar o Antigo Parque Hotel (agora Edifício Mercosul) onde ele faleceu, a Universidade da República, lugar que foi montado o velório?

EMB. LUISELLI: Conheço o quarto onde ele faleceu mas gostaria conhecer bem mais aquela história desses dias do Amado Nervo em Montevidéu. Ano que vem vamos lançar um livro com essa história do Nervo no Uruguai.

PRAVDA: Fora que diplomacia também faz parte da cultura, o que foi marcante para o Senhor do poeta Nervo em si próprio. Deixando fora a tarefa dele como Embaixador mexicano?

EMB. LUISELLI: É um dois fundadores do Modernismo. Ele faz parte dessa lista de poetas modernistas. O nicaragüense Ruben Darío, talvez o mais importante mas é impossível esquecer o Gutiérrez Nájera. Todos eles acabaram influindo acima da caneta de inúmeras gerações de poetas Sul-Americanos. Jorge Luis Borges é um desses. Embora, pode ter certeza que da para sentir o que foi aquele grande predecessor para mim. Estava esquecendo o Justo Sierra, Ministro, filósofo, e professor mexicano importante que também cadastrou-se como Embaixador em Montevidéu. Padilla Nervo, sobrinho do Amado Nervo, na mesma faixa de idade, foi chanceler e Embaixador aqui. Sierra e Nervo no decênio de 1920. Uruguai e México possuem um relacionamento diplomático faz quase 180 anos, felizmente muito antigo. Bem mais para cá no tempo, o Embaixador Vicente Muñiz, que asilou na casa dele um 400 e tantos uruguaios. O Presidente Carranza, ficou muito apavorado se por acaso alguém em Sul-América mal interpretasse o real conteúdo da Revolução mexicana.

No decênio de 1920, Argentina era um grande país, e o relacionamento que tínhamos com eles era ótimo. Uruguai ainda muito pequeno visualizava-se próspero e importante.

Porém o Presidente Carranza enviou sob conselho do Justo Sierra, homens com um CV importante como embaixadores, com extrema qualidade para esses países. No decênio de 1930, por exemplo, o grande escritor Alfonso Reyes, que o Borges salienta alguns anos depois, foi Embaixador na Argentina e logo no Brasil. Pode ter certeza que aquele que inaugura esta camada deilustríssimos embaixadores é o Nervo.

PRAVDA: Conhece o Brasil, o Portugal? Quais foram esses cantinhos prediletos que poderia sugerir alguém para que os visitasse?

EMB. LUISELLI: Conheço os dois países. Quanto a Portugal, Porto, gostei muito, Lisboa, a ponte nova, Lisboa antiga, Lisboa Moderna. Gostou de Portugal, um cantinho aconchegante, taciturno, o início da nossa Europa, grandes lembranças e carinho e tanto por ele.

Quanto tem a ver com o Brasil, conheço muito bem, acho que fiquei umas dez oportunidades lá. Até poderia chutar que conheço bem mais o Brasil que muitos brasileiros da gema. Conheço Benjamim Constante, na fronteira amazônica com a Colômbia, andei muito nessa área amazônica. Conheço Manaus, Salvador, Belém, Mato Grosso, o pantanal mato-grossense, Porto Belo, é quase óbvio que o Rio de Janeiro e São Paulo, Campinas, Brasília conheço demais. O que a gente ainda não conhece é a região sul mas daqui a pouco vou matar aquela saudade viajando para Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Posso acrescentar que América Latina com um relacionamento bem mais forte entre o Brasil e o México teria bastante para comemorar. Com os dois países de mãos dadas, todos nós poderíamos andar bem melhor. Já somos parte do Grupo dos Cinco e Oito mais Cinco da Treze. Estamos no Grupo do G-20. Acho que o G Cinco bem mais para frente vai aumentar o tamanho e vai atingir o número quinze ou vinte. Sem dúvida, Brasil e México vão participar dele.

Poderíamos salientar que os dois estamos no Clube do Trilhão de Dólares, que formam aqueles países com um PIB (Produto Interno Bruto) que ultrapassam essa marcação. México e Brasil fazem parte dessa turma. Além disso, temos problemas que assemelham-se bastante.

PRAVDA: Qual foi o destino permanente do Amado Nervo em aquele 1919 fora ter apresentado credenciais na Argentina bem no Uruguai.

EMB. LUISELLI: Ele tinha apresentado credenciais nos dois países. Compartilhava como destino os dois países tendo que viajar de um para o outro. Isso continua acontecendo agora, esta função dos diplomatas, chama-se Embaixador com incumbência. México agora não credencia dentro deste esquema na América Latina pois possui embaixadores em cada um dos países da região por iniciativa própria. Mas na África, na Ásia, em alguns países da Europa Central o México tem Embaixadas com incumbência. Por exemplo, o Embaixador em Irã, tem potestade em Azerbaijão e tem que viajar e ficar. O Embaixador Mexicano em Paquistão também fica com a responsabilidade de Kyrgyzstão, Payikistão e Uzbekistão e desse jeito assim o México abrange o mundo inteiro mas a residência está em um lugar só.

Eu estive como Embaixador com incumbência em muitos países da África. Estive residente na África do Sul com incumbência em Zimbawe, Lesoto, Moçambique, Suazilândia e Bostwana. Nesse período fiquei em todos os países dando atendimento especial a Zimbawe pois trata-se de um país mais difícil onde aconteciam fatos; Lesoto, acabei indo menos, só pela morte do Rei. Então fui pela morte do Rei e a posse do novo monarca. Foram cerimônias só. Coisa semelhante ocorreu em Bostwana. Por enquanto, em Moçambique e Zimbawe trabalhei muito.

PRAVDA: O Senhor foi Embaixador na África do Sul. Eles têm condições de organizar a Taça do Mundo de futebol 2010?

EMB. LUISELLI: Com certeza absoluta. Eles vão conseguir atingir todos os seus objetivos. Fico muito feliz que a Taça do Mundo aconteça lá. O continente africano merece um evento desse tamanho. África do Sul vai surpreender todo mundo pela organização, acolhida, eficiência e conchego. Eu não estava lá na hora que a sede do Mundial foi escolhida pela FIFA. Morei na Pretória e nos verões um período muito bom em Cidade do Cabo pois aí tinha sede o Congresso.

PRAVDA: Qual ia ser sua sugestão para uma pessoa que for viajar para a Taça do Mundo? Aqueles lugarzinhos inesquecíveis?

EMB. LUISELLI: O Parque Kruger, o Circuito dos Vinhos e das Flores, chama-se Circuito do Jardim, na província do Cabo. Não da para se perder o Parque Kruger que está no Norte. O Mpumalanga, que é o maior parque natural de animais africanos do mundo inteiro.

PRAVDA: Cómo é o relacionamento com a Embaixadora de Portugal, Ana Luísa Bastos de Almeida, o Embaixador do Brasil José Eduardo N. Felício, o Embaixador da Federação Russa, Serguey N. Koshkin?

EMB. LUISELLI: Impossível imaginar um relacionamento melhor do atual. Somos amigos e nossa amizade vai além da diplomacia. Mantemos contatos telefônicos, conversamos, damos e recebemos conselhos e pode incluir nesta lista ao Embaixador Arslanian, Embaixador do Brasil perante MERCOSUL e ALADI. Ás vezes não concordamos mas nada tem a ver com a nossa amizade.

PRAVDA: Está querendo acrescentar mais algum comentário que tivesse esquecido perguntar para o Senhor?

EMB. LUISELLI: Nada específico. Saiba que fiquei feliz pelo interesse de um meio de imprensa russo na versão portuguesa nesta reportagem que tem como alvo um mexicano que fala castelhano. Isso fala mais alto, trata-se da globalização. Acho que a Rússia é um elemento importante no horizonte deste mundo novo, com grandíssimas contribuições na área da cultura, aparece na minha cabeça o Pushkin, o Tolstoi, em Dovtoieski, nos músicos, destaques da música mundial mesmo, a sua contribuição na área da ciência, todos devemos á Rússia aportes incríveis para o enriquecimento da humanidade. Sabemos como o povo russo sofreu no decorrer do século XX e temos vontade que este século XXI seja maravilhoso para os russos.

É bom remarcar o endereço da Embaixada do México em Montevidéu pois na grade maioria dos dias úteis tem exposições da cultura mexicana ao dispor dos visitantes no térreo da Rua 25 de Mayo (25 de Maio) 512 entre ás travessas Treinta y Tres e Ituzaingó.

Obrigado Senhor Embaixador Cassio Luiselli Fernández. Desejo de boa tarefa em Montevidéu e nos próximos destinos.

Obrigado Patricia Vidal, Cecilica Da Cunha e Estela Guivnotti, secretarias do Embaixador pelo apoio na montagem desta reportagem.

Gustavo Espiñeira

Correspondente PRAVDA.ru

Montevidéu – Uruguai