A INCONGRUÊNCIA DO NACIONALISMO BÁLTICO

Qualquer leitor de Pravda.ru, diferentemente dos que lêem apenas os meios de comunicações ocidentais, sabe o que acontece nos países bálticos da antiga União Soviética (Lituânia, Letônia e Estônia): a minoria de origem russa (que constitui nada menos que 40% da população, no caso da Letônia) é discriminada e não pode participar da vida política, a língua russa é proscrita, movimentos nazistas são incentivados, veteranos da SS marcham orgulhosamente pelas ruas, enquanto desfiles de veteranos soviéticos são duramente reprimidas pela polícia.

Claro que nada disso aparece na imprensa européia e estadounidense, nem figura nos relatórios de direitos humanos dos EUA, da União Européia; apenas Israel condena publicamente o nazismo báltico, pois 90% dos judeus foram dizimados nesses países (o maior índice dentre todos os países conquistados por Hitler). Mas a UE e os EUA não estão preocupados com isso: Lituânia, Letônia e Estônia são aliados fiéis, e sua russofobia é um exemplo para os demais países ex-soviéticos, pois está claro, depois das “revoluções” na Geórgia, Ucrânia e Moldávia, patrocinadas pelas potências ocidentais, que estes países querem isolar política, econômica e estrategicamente a Rússia.

O grotesco do revisionismo histórico báltico, que considera as tropas nazistas como “libertadoras” e as soviéticas “invasoras”, e que afirma que o campo de concentração de Salaspils, onde dezenas de milhares de judeus e eslavos perderam a vida, era nada mais que um “reformatório, um centro de reeducação”, é simplesmente óbvio.

Mas o nacionalismo exagerado desses países, que se consideram vítimas do “imperialismo soviético” é mais enganador, e leva muitas pessoas, que não conhecem muito sobre a URSS, a lhes dar razão. A verdade é que, se não fosse pela União Soviética, Lituânia, Letônia e Estônia simplesmente não existiriam hoje.

Depois da revolução bolchevique de 1917 e a derrota da contra-revolução na guerra civil, era evidente que o antigo império russo tinha que ser reformado. A proposta dos comunistas era única, e foi uma das suas maiores realizações: constituir um grande estado federativo, onde todos os povos estivessem integrados, mas pudessem manter a autonomia administrativa interna e suas línguas, culturas e tradições. Embora, a partir de Stalin, a URSS tenha se tornado um Estado administrativamente muito centralizado, com pouca autonomia para as repúblicas, ainda assim elas puderam manter suas culturas e línguas.

A nova URSS foi então constituída em 1922, originalmente constituída por quatro repúblicas (em 1956 ela adquiriu sua forma final, com 15 repúblicas: Rússia, Ucrânia, Bielorússia, Moldávia, Lituânia, Letônia, Estônia, Azerbaijão, Geórgia, Armênia, Cazaquistão, Uzbesquistão, Tadjiquistão, Quirquízia e Turcomênia). Os critérios para estabelecer uma república eram os seguintes: ter um grupo nacional majoritário com mais de um milhão de pessoas, que daria o nome à repúplica; ter uma economia suficiente desenvolvida para manter-se, caso decida pela independência; e estar na periferia da URSS, para ser territorialmente viável em caso de secessão. Os soviéticos então traçaram as fronteiras de cada uma das repúblicas com base nisso, além de ter dado estatuto administrativo especial (embora com menor autonomia) também aos povos que não satisfaziam os requisitos citados. A Rússia, por exemplo, é constituída por cerca de uma centena de outros povos.

A língua oficial da URSS era, claro, o russo, pois era a mais falada. Mas cada república soviética tinha emissoras de rádio e TV, escolas e publicações em sua própria língua, o que permitiu a sobrevivência de cada uma delas, apesar da existência de uma língua mais forte. Foi graças à URSS que línguas e culturas de pequenos povos, com menos de 10 milhões de habitantes, como o lituano, o letão, o estoniano, o moldavo e o quirquize, existem até hoje.

Se os países bálticos, por exemplo, tivessem sido independentes ou mantidos pelos nazistas (que eles consideram como seus “libertadores”), com certeza sua línguas e seus países teriam desaparecido, assim como o gótico e o antigo prussiano, falados na outrora poderosa Prússia, que declinaram quando esta tornou parte da Alemanha, e desapareceram por completo quando da ascensão de Hitler. Nenhum outro país do mundo tinha uma proposta como a soviética, para manutenção das minorias nacionais.

O mais interessante, contudo, é que Lituânia, Letônia e Estônia foram, durante cerca de 20 anos, independentes e soberanos graças à União Soviética. Esses três países foram dominados primeiro por poloneses, suecos e alemães, e depois pelo império russo, a partir de fins do século XVIII. Com a revolução de 1917, a Alemanha os ocupou, mas com a derrota desta na Primeira Guerra Mundial, teve que retirar-se. Lituânia, Letônia e Estônia, então, pediram a independência à URSS. Lenin aceitou, respeitando o preceito de que cada república deveria unir-se voluntariamente à União, e os soviéticos foram os primeiros a reconhecer os países bálticos como soberanos (diferentemente da Polônia e da Alemanha, que ao longo da década de 20 tentaram por várias vezes ocupar a Lituânia).

A situação mudou com Stalin. Em 1940, ele ocupou os países bálticos, e os forçou a integrar-se à URSS. Milhares de lituanos, letões e estonianos foram deportados ou enviados a campos de trabalhos forçados. Foi um grande erro e uma brutalidade, sem dúvida. Mas é inaceitável que os países bálticos, hoje, se coloquem como vítimas, tentem reescrever a história e mantenham tanto rancor contra a URSS.

Pois a invasão de Hitler, em 1941, foi muito pior, e levou a um genocídio bastante maior (de judeus e russos que viviam na região, além de muitos lituanos, letões e estonianos que tentaram algum tipo de resistência). Quanto a Stalin, é sobejamente conhecido que foi um líder brutal; mas os povos bálticos não foram as suas únicas vítimas, não foram os únicos a serem perseguidos. E apesar da anexação forçada, a URSS permitiu a manutenção de suas culturas e consciências nacionais e traçou as fronteiras que eles têm presentemente: se a Alemanha, por exemplo, tivesse conseguido mantê-los como suas possessões, teriam tido o mesmo destino que a velha Prússia.

Mas é incompreensível que Lituânia, Letônia e Estônia mantenham, hoje, tanta animosidade, ódio e revanchismo contra a Rússia. Conseguiram a independência que tanto queriam, concedida pacificamente pela URSS em setembro de 1991; sua soberania é reconhecida por todos os países do mundo, inclusive a Rússia; e ingressaram na OTAN e na UE, estando completamente fora da esfera de influência russa.

Por que então não ter relações normais e adultas com a Rússia, mutuamente vantajosas, e garantir direitos iguais às minorias russas? Parece que os políticos bálticos ganham com um discurso ultranacionalista e estimulando a russofobia e o nazismo. Mas essa atitude tem também uma explicação psicológica: os países bálticos sentem-se fortes em provocar seu grande vizinho oriental, assim como aqueles cãezinhos que, seguramente protegidos pela cerca de sua casa, latem bravamente contra os cachorrões que passam pela rua.

Carlo MOIANA Pravda.Ru Buenos Aires

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