Palavras de Rodrigo Londoño no fórum sobre Oposição Política e defesa da educação pública

Palavras de Rodrigo Londoño no fórum sobre Oposição Política e defesa
da educação pública


Escrito por Rodrigo Londoño

Por amável comunicação do senhor Reitor Leonardo Fabio Martínez Pérez,
fui informado de que a Universidade Pedagógica Nacional tinha
planejado iniciar as atividades acadêmicas de seu segundo semestre com
algumas jornadas pela paz, pela vida e pela diversidade, e que no
marco delas desenvolveria o fórum intitulado Perspectivas da Oposição
Política em Colômbia, ao qual me estendia o convite, em conjunto com
outros palestrantes de grande prestígio.

Dias mais tarde fui informado de que o fórum se referia
especificamente ao papel da oposição política em Colômbia e a defesa
da educação pública, dois temas profundamente ligados entre si, na
medida em que para fazer autêntica oposição se requer um grau de
consciência política e social, que só pode nascer de uma educação
encaminhada a fomentar o pensamento crítico e a mais profunda
reflexão.

Devo dizer que em minha condição de presidente do partido FARC, uma
organização política oriunda dos Acordos de Paz de Havana, que
conseguiram pôr fim à cruenta confrontação com o Estado colombiano,
assisto a este fórum com a ótica de combatente por um novo país, que
permaneceu mais de quarenta anos empunhando as armas, até que uma
solução política longamente buscada pela insurgência permitiu que
déssemos o passo à legalidade.

Com isto quisera significa duas coisas. Em primeiro lugar a longa
história de oposição política ao regime antidemocrático e violento que
se impôs em nosso país, por conta de uma privilegiada casta agarrada
ao poder e empenhada em conservá-lo. Não é este o espaço para uma
exposição completa das razões de nosso levantamento de mais de meio
século, porém basta afirmar que durante todo esse tempo nos sentimos
intérpretes do sentir de milhões de colombianos do campo e da cidade,
aos quais se impedia pela força sua expressão política.

Porém também significa que fomos um exército revolucionário, regido
por estatutos, regulamento de regime disciplinar e um regime de
comando, nascidos de princípios ideológicos muito claros, que nos
permitiam reconhecer as diferenças de classe e as relações de poder
existentes em escala internacional e local. Nossos integrantes
receberam todo o tempo uma formação filosófica e uma concepção
estratégica política e militar, que não podia ser fornecida senão por
um sistema de educação e de escolas ligado a uma permanente
confrontação com a prática.

Estudávamos para lutar e lutávamos também para poder estudar. Para que
o povo de nosso país pudesse, entre tantas coisas, ter acesso a uma
educação libertadora, que não dependesse dos interesses do capital mas
sim da mais elementar lógica humanista. Os seres humanos temos um
valor independente de considerações económicas, uma dignidade que debe
ser considerada e respeitada. Temos direitos à vida, à integridade
pessoal, ao trabalho remunerado com justiça, à saúde, à educação, à
moradia, à recreação, à cultura.

Porém, que difícil se torna satisfazer os direitos de todos,
paradoxalmente num mundo cheio de riquezas e recursos que poderiam
satisfazê-los de sobra. Um grupo reduzido da população se apropriou
destes e impôs uma ordem de coisas que lhe garante sua posse e
usufruto, com independência da sorte da maioria que trabalha, sem
conhecer o fruto real de seu esforço. Apresentar soluções elementares
a esta contradição gera profundos ressentimentos e rancores entre os
privilegiados que possuem tudo. Por isso estes educam para reproduzir
a ordem que lhes interessa, moldam mentes, subordinam consciências,
dividem e afrontam a suas vítimas.

Por isso, na nossa opinião, a mais nobre tarefa do educador consiste
em levar luz às trevas da ignorância e da alienação. Tarefa difícil
quando ele mesmo é produto da educação das classes dominantes, quando
para ganhar o título que lhe permite formar a outros teve que superar
as provas idealizadas pelos interessados em manter as condições de
desigualdade. Na guerrilha aprendemos que o educador se educa
educando, fazendo suas a sorte do aluno e de seu entorno, compartindo
suas angústias e ajudando-o a superá-las.

Numa sociedade desigual, na qual se impõe o lucro sobre qualquer outra
consideração, a educação aponta para a mais sádica competição, ao
individualismo extremo, ao desprezo pelo coletivo. Na ordem mundial
neoliberal estabelece critérios universais em matéria de direitos,
segundo os quais só pode desfrutar deles quem se encontre em condições
de pagar por eles. As teses da livre empresa, do jogo livre entre a
oferta e a procura, do mercado como deidade que a tudo regula,
condenam aos mais baixos estratos sociais a quem não esteja em
capacidade de consumir.

Ali se transformam em seres descartáveis aos quais há que destinar
recursos valiosos para manter sua inútil existência. Para eles o
ebola, a aids, a fome, o fanatismo que os conduz a se matarem entre
si, a guerra.

Há aqueles que falam de exclusivos círculos de potentados, onde
periodicamente se decide a sorte de centenas de milhões de seres
humanos.

A ideologia dominante encontra a fórmula para destinar a cada povo uma
atividade econômica, uma única possibilidade de subsistência, enquanto
reserva para suas arcas os mais importantes e lucrativos negócios.
Continentes destinados às atividades primárias, agricultura, pecuária,
mineração, que abastecerão as necessidades primárias dos produtores de
alta tecnologia e serviços especializados em outras partes do mundo. A
educação formal termina sendo funcional a isto.

Por isso o projeto de políticas privatizadoras na educação. Se trata
de que os povos condenados se preparem exclusivamente para desenvolver
as atividades econômicas subordinadas, que permitam ampliar cada vez
mais as brechas de ciência e tecnologia dispostas pelos grandes
poderes. Pouca teoria e investigação para eles. Se reduzem de maneira
constante os recursos para a educação pública, se incentivam e
massificam os créditos para a educação superior, se financia a
educação privada com a promoção estatal de programas especializados,
se privilegia a educação técnica sobre a formação científica. Se
reproduz em escala local a divisão imposta no campo internacional, a
melhor educação se reserva aos estratos altos.

Extraordinário o desafio que temos os de baixo. Transformar esta ordem
de coisas abertamente injusta e desumana por um mundo no qual
floresçam a dignidade e a justiça para todos os seres humanos. Posso
jurar que intentamos tudo, ao preço da vida de milhares de homens e
mulheres de nosso povo, para alcançar essa mudança em Colômbia pela
via das armas. Porque os caminhos da luta aberta e legal nos foram
cerrados de maneira violenta. Porque se perseguiu de maneira
implacável a milhares de compatriotas que sonharam com um país
distinto.

Devemos reconhecer que não alcançamos por essa via nosso sonho, o
caminho era mais longo e complexo do que calculamos. A capacidade do
poder para investir sua fúria sanguinária transbordou qualquer
previsão. Porém, por outro lado, obtivemos algo inestimável para um
povo perseguido. O direito a fazer política com garantias plenas, a
possibilidade de exercer a oposição de maneira aberta. E não só para
nós, os ex-guerrilheiros das FARC mas sim para todos os colombianos
inconformistas. Só quem não seja capaz de captar a enorme porta que se
abriu em nosso país para que seus homens e suas mulheres irrompam com
decisão no cenário político pode se atrever a desprezar a verdadeira
dimensão de nossa deixação de armas.

Ali, nos Acordos de Havana, se encontram as chaves de todas as
possibilidades para transformar nosso país de uma vez por todas. Por
isso o ódio fanático dos setores mais retardatários contra eles. Por
isso a paquidérmica atitude com que o Estabelecimento se ocupa em sua
implementação. Por isso nosso compromisso indeclinável por levá-los
adiante, por conseguir com que @s colombian@s façam-nos seus, que os
façam cumprir. Requeremos com urgência de uma cruzada educativa para
conseguir isso.

A paz não é uma quimera, é uma possibilidade real que se encontra em
nossas mãos. Alcançá-la e defendê-la, sobre a base da dignificação dos
seres carentes de oportunidades reais só será possível se se converte
no empenho de milhões e milhões de compatriotas. A avareza
privatizadora só poderá ser freada unicamente com a força das grandes
maiorias populares. Porém estas não são ganhas por geração espontânea,
nem porque se gritem as palavras de ordem mais radicais e ruidosas. Se
obtêm se conseguimos educá-las, se conseguimos fazer-lhes ver a
realidade. Nisto apostamos hoje desde o partido da rosa, com a
consciência tranquila e com a cabeça erguida.

Muito obrigado,

RODRIGO LONDOÑO ECHEVERRY

Presidente da Força Alternativa Revolucionária do Comum FARC.

Universidade Pedagógica Nacional, Bogotá, 9 de agosto de 2018.

Tradução > Joaquim Lisboa Neto

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