Três fronts para provocar guerra contra a Rússia

Washington pode incendiar o caos na Ásia Central

24/2/2015, Ivan Lizan, Odnaka.org (em russo), trad. de Robin (ao ing.) em Vineyard of the Saker

A declaração do general norte-americano "Ben" Hodges, de que dentro de quatro ou cinco anos a Rússia pode desenvolver a capacidade para manter guerras simultâneas em três fronts não é só reconhecimento do crescente potencial militar da Federação Russa, mas, também, promessa-ameaça de que Washington lá estará, plantada precisamente em todos esses três fronts, bem ali, junto às fronteiras da Federação Russa.

No contexto do inevitável crescimento da China e da crise financeira que certamente se agravará, com o espoucar concomitante de bolhas e mais bolhas, nada mais resta aos EUA para tentar preservar sua hegemonia global, que minar os adversários. E o único meio para alcançar tal objetivo é disparar o caos nas repúblicas que fazem fronteira com a Rússia.

Eis por que a Rússia enfrentará, inevitavelmente, um período de conflitos e crises junto às suas fronteiras.

O primeiro front, de fato, até já existe, na Ucrânia; o segundo muito provavelmente será entre Armênia e Azerbaijão, na disputa por Nagorno-Karabakh, e o terceiro front, é claro, será criado na Ásia Central.

Se a guerra na Ucrânia leva a milhões de refugiados, dezenas de milhares de mortos e à destruição de cidades, reaquecer o conflito em Karabakh minará completamente toda a política externa russa no Cáucaso.

Todas as cidades na Ásia Central estão sob ameaça de explosões e ataque. Até aqui esse 'futuro front' tem atraído menor atenção da imprensa-empresa - a Novorrússia domina todos os canais de televisão, jornais e websites -, mas aquele teatro de guerra será dos mais complexos, depois do conflito na Ucrânia.

Subsidiário do Califato junto ao ventre da Rússia 

A tendência clara, indiscutível, no Afeganistão - e a principal fonte de estabilidade na região - é na direção de uma aliança entre os Talibã e o Estado Islâmico. Isso, embora a  formação dessa união ainda esteja nos primeiros dias; embora praticamente não se ouçam referências a essa aliança, ou só se ouçam referências fragmentadas; e embora não se conheça ainda a verdadeira escala das atividades dos emissários do Estado Islâmico - e a tendência à aliança entre os Talibã e o EU apenas deixe ver uma ponta deiceberg sobre a superfície.

Mas já não há dúvidas de que há agitadores do Estado Islâmico ativos no Paquistão e em províncias do sul do Afeganistão, controladas pelos Talibã. Nesse caso, a primeira vítima do caos no Afeganistão é o Paquistão, país que, por insistência e com a ajuda dos EUA, alimentou os Talibã nos anos 1980s. Esse projeto ganhou vida própria e é persistente pesadelo para Islamabad, que já decidiu estabelecer relações amigáveis com China e Rússia. 

Essa tendência pode ser vista nos ataques dos Talibãs contra escolas paquistanesas, cujos professores já andam armados; na prisão repetida de terroristas nas grandes cidades; e no início de atividades em apoio a tribos hostis aos Talibã no norte.

O mais recente desdobramento legislativo no Paquistão é uma emenda à Constituição, para expandir a jurisdição dos tribunais militares também para civis. Por todo o país, terroristas islamistas e simpatizantes estão sendo presos. Só no noroeste, já aconteceram mais de 8 mil prisões, incluindo membros do clericato. Organizações religiosas foram banidas, e emissários do Estado Islâmico foram capturados.

Dado que os EUA não gostam de pôr todos os ovos na mesma cesta, garantirão apoio ao governo em Cabul, que lhes permitirá permanecer legitimamente no país; e também darão apoio aos Talibã, que já está se convertendo também ao Estado Islâmico. Resultado disso será um caos generalizado, no qual os EUA não tomarão parte (formal e oficialmente); apenas se sentarão nas suas bases militares, esperando para saber quem sobreviveu. Então, Washington garantirá assistência ao vitorioso. Observe-se que os serviços de segurança dos EUA apoiam os Talibã já há muito tempo e bem efetivamente: muitos das forças oficiais de segurança e da Polícia no Afeganistão são ex-Talibã e Mujahideen.

Há método nessa destruição 

O primeiro modo para desestabilizar a Ásia Central é criar problemas nas fronteiras, associados à ameaça de que os Mujahideen invadirão a região. A testagem dos vizinhos já começou: já surgiram problemas no Turcomenistão, que até teve de pedir que Cabul não realizasse operações militares de larga escala nas províncias fronteiriças. O Tadjiquistão forçou os Talibã a negociar a libertação dos guardas de fronteira que haviam sequestrado, e o serviço de fronteira do Tadjiquistão noticia que há grande número de Mujahideen junto às suas fronteiras.

Em geral, todos os países que fazem fronteira com o Afeganistão já subiram o nível de segurança nas áreas limítrofes.

O segundo modo é infiltrar islamistas por trás das linhas. Esse processo já começou: o número de extremistas só no Tadjiquistão já subiu para mais que o triplo no ano passado; ainda que estejam sendo caçados e presos, obviamente não será possível captura-los todos. Além do mais, a situação é agravada pela volta dos trabalhadores migrantes que estavam na Rússia, o que expande a base para recrutamento. Se parar ou diminuir o fluxo até aqui ininterrupto de ajuda russa ao país, o efeito poderá ser descontentamento popular e tumultos orquestrados e manipulados.

Kadir Malikov, especialista do Quirquistão, informa que foram alocados $70 milhões para o grupo militar Maverenahr do Exército Islâmico, que inclui representantes de todas as repúblicas da Ásia Central, para organizarem atos de terrorismo na região, com especial ênfase no Vale Fergana, coração da Ásia Central.

Outro ponto de vulnerabilidade são as eleições parlamentares no Quirguistão, marcadas para o próximo outono. Uma nova 'onda' de 'revoluções coloridas' gerará o caos e levará à desintegração de vários países.

Guerras autossustentáveis 

Promover guerras é trabalho caro; por isso, a desestabilização na região deve ser autossustentável ou, pelo menos, deve gerar algum lucro para o complexo militar-industrial dos EUA. Nesse quesito, Washington tem obtido vários sucessos: deu ao Uzbequistão 328 veículos blindados que Kiev havia requisitado para sua guerra na Novorrússia. À primeira vista, não é negócio lucrativo, porque as máquinas foram doadas, mas, de fato, o Uzbequistão ficará atrelado aos EUA para obter peças de reposição e munição para os blindados. Washington tomou medida semelhante, quando transferiu equipamento e armas para Islamabad.

Mas os EUA não têm sido bem-sucedidos nas tentativas para impor seus sistemas de armas à Índia: os indianos não assinaram qualquer contrato, e Obama viu desfilarem carros e equipamento militares russos, quando assistiu a um desfile militar em Nova Delhi.

Os EUA estão empurrando os países naquela região para guerra contra os própriosprotégés dos norte-americanos - os Talibã e o Estado Islâmico - e, ao mesmo tempo, fornecem armas aos inimigos deles.

Desestabilização disseminada 

Assim se vê que 2015 será marcado por preparativos para desestabilização disseminada por toda a Ásia Central e pela transformação do "AfPak" em subsidiário do Estado Islâmico nas fronteiras de Rússia, Índia, China e Irã. O início da guerra em escala total, que será inevitável, acontecerá quando o caos já estiver disseminado pela região. Levará a um banho de sangue nos "Bálcãs Eurasianos", envolvendo automaticamente mais de 1/3 da população mundial e quase todos os rivais geopolíticos dos EUA. É oportunidade que Washington avaliará como boa demais para ser desperdiçada.

A resposta da Rússia a esse desafio tem de ser multifacetada: envolver a região no processo da integração eurasiana; garantir assistência militar, econômica e política aos países da região; trabalhar em íntima associação com seus aliados na Organização de Cooperação de Xangai, OCX, e com os países BRICS (Brasil, Índia, China e África do Sul); fortalecer o exército do Paquistão; e, claro, ajudar a capturar os servidores barbudos do Califato.

Mas a resposta mais importante terá de ser a modernização acelerada das forças armadas russas e de seus aliados; e esforços para fortalecer e estreitar os laços da Organização do Tratado de Segurança Coletiva [orig. Collective Security Treaty OrganizationCSTO], dando à CSTO o direito de contornar a altamente ineficiente Organização das Nações Unidas, ONU.

A região é extremamente importante: se a Ucrânia é o fusível da guerra, a Ásia Central é um depósito de pólvora. Se voar pelos ares, metade do continente será atingido.******

 

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Author`s name Pravda.Ru Jornal