Virada Russa!

O ano de 2009 já foi substituído pelo ano de 2010. Em termos econômicos, aliás, sem saudades! A crise econômica, realmente, atingiu a maioria das economias do mundo forçando desempenhos locais menores, em 2009, quando comparados com os resultados econômicos atingidos nos anos anteriores.

Detendo-se a alguns indicadores macroeconômicos da economia da Rússia, podem ser sintetizados os seguintes resultados:

Conforme colocado em Bancroft-Hinchey (2009), apesar da grave crise econômica, uma política (contra a crise) sensata de contenção da despesa pública e um bom programa de investimentos (destacadamente em política social) que protegeu grandes áreas da economia russa e seus postos de trabalho, fez surgir um cenário em que a Rússia pode, mais uma vez, criar perspectivas de taxas de crescimento econômicas surpreendentemente positivas, e isso já em 2010. Só para se ter uma idéia, as autoridades econômicas russas re-projetaram o crescimento do PIB local para 3,1% (em 2009). Ainda no ano passado, a valorização da bolsa russa (Micex – em dólares americanos) foi da ordem de 113,24% (SCIARRETTA; FAGUNDES, 2009).

Vendo-se os dados econômicos russos em perspectiva, deve-se lembrar (conforme colocado em ECONOMY WATCH, 2009) que a Rússia terminou o ano de 2008 com o crescimento de seu PIB em 6%, após 10 anos consecutivos de crescimento anual média de 7%. De 2002 a 2008, o crescimento do investimento fixo em capital e da renda pessoal têm, em média e nos dois casos, estado acima de 10%. Durante os últimos dez anos, a pobreza e o desemprego diminuíram de forma constante e a classe média russa se expandiu. A Rússia também melhorou sua posição financeira internacional com a execução dos excedentes da sua balança de pagamentos (isso desde 2000). Além disso, as reservas cambiais da Rússia estavam em patamar recorde (em meados de 2008). Por outro lado, a dívida externa pública total do país é de cerca de um terço do seu PIB. Mas, o componente de estado da dívida pública externa vem diminuindo. Evidentemente, a crise econômica global também afetou os bancos da Rússia e suas instituições financeiras que enfrentaram problemas de liquidez. Mas, mais uma vez, as autoridades econômicas russas responderam iniciando plano de resgate de divisas para aumentar a liquidez no setor financeiro, ajudando, assim, as empresas nacionais e apoiando o mercado de ações. O governo também divulgou um plano de corte de impostos e outras medidas de ajuda à sua população e às suas empresas. No primeiro ano de seu mandato, o Presidente Medvedev apontou uma série de prioridades econômicas à Rússia, incluindo-se (dentre outras): a melhoria da infra-estrutura, incentivos às inovações, aumento dos níveis de investimento e reforma do sistema fiscal e financeiro.

Todavia, especificamente com relação às inovações, segundo A voz da Rússia (2009), “as coisas não andam bem na Rússia”. Aplicam-se, na prática, apenas 5% dos projetos desenvolvidos. A principal causa disso são as tentativas de conduzir a política de inovação com base no modelo neoliberal. Isso é um erro. Nenhum país do mundo aplica inovações só por meio dos métodos de economia de mercado. O Estado é sempre primordial e deve lançar um projeto de inovação ilustrativo. Neste contexto, o futurólogo Kalachnikov tem duas propostas. A primeira é criar, nos arredores de Moscou, uma cidade do futuro em que sejam desenvolvidas várias áreas importantes à inovação (tais como a biotecnologia, por exemplo). A sua segunda idéia é criar um sistema nacional de inovações eficaz na Rússia. Para ele, há várias opções promissoras do desenvolvimento baseado em inovações. Tais possibilidades, para a economia russa, são múltiplas: desenvolvimento espacial, inteligência artificial, etc.

Voltando-se às perspectivas econômicas (também colocadas em BANCROFT-HINCHEY, 2009), as autoridades econômicas russas afirmam que, para a economia do país, em 2010, haverá um excedente orçamentário de 1% e valorização cambial do rublo da ordem de 17%. Também, acredita-se que o crescimento econômico médio (por ano) do PIB (a preços constantes) da Rússia seja da ordem de 5%, para os próximos quatro anos (ECONOMY WATCH, 2009).

Agora, falando-se de outro assunto, o Brasil recebeu (em 2009) a mostra VIRADA RUSSA: A vanguarda da coleção do Museu Estatal Russo de São Petersburgo. O CCBB (2009) explica que a exposição apresentou obras inéditas (no Brasil) dos mais renomados artistas da chamada vanguarda russa, vindas diretamente do acervo do Museu Estatal Russo, que reúne a maior coleção de arte russa no mundo. Foram 123 obras, entre telas, cartazes, esculturas e figurinos, que ajudaram a constituir os fundamentos da arte moderna mundial. Obras que expressam a efervescência artística russa na primeira metade do século XX, em que surgiram várias vertentes, tais como: o não-objetivismo, o suprematismo, o construtivismo e o realismo russo. A propósito, eu fui ver a exposição (realizada nas cidades de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo) e ela foi magnífica e mostrou aos espectadores, certamente, a força da arte russa do início do século passado e sua indubitável relação com os acontecimentos concretos pelos quais passava o povo russo naquela época.

Realmente, não se pode compreender a magnitude de uma virada se a mesma não for remetida ao contexto em que foi produzida e é precisamente o contexto que permite identificar os traços que a distinguem como tal (CCBB, 2009, p. 10).

Aguardamos (ansiosamente e para breve) a nova e nascente virada russa!

Feliz 2010!

Texto elaborado por: Fred Leite Siqueira Campos

Professor Doutor e pesquisador na área de Economia

E-mail : [email protected]

REFERÊNCIAS:

A VOZ DA RÚSSIA. O future da Rússia está nas inovações: acredita o futurólogo Maksim Kalachnikov. Disponível em: <http://ruvr.ru/main.php?lng=prt&q=8200&cid=58&p=17.09.2009>. Acesso em 20/10/2009.

CCBB - CENTRO CULTIRAL BANCO DO BRASIL. Virada russa: a vanguarda na coleção do museu estatal russo de São Petersburgo. São Paulo: Palace Editions, 2009.

ECONOMY WATCH. Russia economic statistics and indicators. Disponível em: <http://www.economywatch.com/economic-statistics/country/Russia/>. Acesso em 25/12/2009.

BANCROFT-HINCHEY. Economia russa em alta. In: Pravda. Disponível em: <http://port.pravda.ru/news/russa/25-12-2009/28547-econrus-0>. Acesso em 30/12/2009.

SCIARRETTA; FAGUNDES. Bolsa de São Paulo tem o melhor ano desde 2003. In: Jornal Folha de São Paulo. Caderno Dinheiro, p. B1, de 31/12/2009.

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