A MORTE DO DENTISTA

Seu nome: José Ribeiro Sobrinho. Admirável e simpática figura humana. Leal aos amigos, profissional competente. Atleticano apaixonado, tanto quanto o desembargador Nepomuceno Silva.

Sem vínculos partidários, era duro e impenitente crítico dos homens públicos que se desmandavam. Ai de quem caísse em sua linha de tiro, especialmente quando se encontrava com seu inseparável amigo José Ramos. Ambos capazes de veneníparas ironias.

Tenho receio de falar ou escrever sobre pessoas amigas, paradoxalmente uma tarefa difícil, mas também das mais gratas ao coração. Há o perigo de cair nos dois extremos do elogio exagerado ou da palavra cuidada e medida que não reflita tudo o que penso sobre ele. Sobre José Ribeiro falo sem qualquer medo ou receio de exagerar. Foi meu dentista durante 50 anos.

Conheci-o quanto ainda tinha consultório no edifício onde hoje está o INSS, depois de merecer cuidados de seu primo Hugo Ribeiro, também dentista. Estava cursando o segundo ano de direito e, desde então, jamais deixei de procurá-lo.

Não deve existir no mundo uma só pessoa que não se afeiçoe ao seu médico ou ao seu dentista. Nada mais natural, pois aquele se transforma, pela confiança, em objeto de cabeceira, a quem sempre se procura nos momentos de dificuldades ou quando sente uma dorzinha qualquer.

Isto sem falar nos hipocondríacos, que transformam os doutores em permanente objeto de procura e até mesmo de adoração. Da mesma forma acontece com os dentistas. No momento da primeira consulta nasce uma relação de confiança, sem meios termos.

Ou o cliente não volta mais ao consultório ou estabelece uma espécie de confraria que dura pelo tempo afora. Assim aconteceu comigo com José Ribeiro, apesar de nossas escaramuças políticas dos idos de 50, quando os políticos pessedistas eram escalpelados pela sua fina ironia e verve, ainda mais cruéis quando na vizinhança de José Ramos, uma língua de trapo num maravilhoso caráter em um homem dotado de qualidades superiores.

O tempo só fez crescer e sedimentar a admiração e a estima que devotava ao profissional que se transformou em um de meus melhores amigos. Jamais as acrimônias políticas de José Ribeiro resvalavam para o grosseiro ou o deseducado. Tudo confluía para o sorriso que descaracterizava qualquer suspeita de agressão.

A experiência deu a José Ribeiro uma vasta capacidade de apreciar personagens e situações, com justiça e sem preconceito. Era incapaz de uma aleivosia em meio ao papo descontraído que mantinha com o cliente, habilidosamente introduzido na terapia para permitir o tratamento indolor da cura de um canal ou uma cárie dolorida.

Depois de adquirir uma fazenda no município de Baldim, José Ribeiro acrescentava mais um motivo de atração em sua conversa, na notícia dos rebanhos e histórias narradas pelos companheiros de sofrimento, sempre presente em quem se dedica à agricultura ou à pecuária no Brasil.

Lembro-me bem quando, orgulhosamente, deu notícia da formatura de seu filho Carlos Eduardo, seguindo hoje as trilhas do pai na difícil profissão de odontologista, com a mesma seriedade e competência. Ambos trabalhavam juntos até que a idade levou José Ribeiro a uma precoce aposentadoria.

Soube de sua morte quando estava em Minas Novas, sem possibilidade de chegar para seu sepultamento e dar-lhe um adeus. Fiquei emocionado, mesmo já esperando o desenlace indicado pelo seu estado de saúde, que não era dos melhores nos últimos meses. Fico pensando o quanto ele estava sofrendo com a má campanha do Galo no campeonato brasileiro, debulhando seus queixumes ao lado do José Ramos, irmãos nas alegrias e nos desprazeres atleticanos.

Assim vamos vagando no tempo e assistindo impotentes à vigorosa e ininterrupta atividade das Parcas. Enquanto isto os cemitérios ficam cada vez mais cheios e a vida cada vez mais vazia.

Que Deus guarde o bom José Ribeiro Sobrinho.

* Presidente da Academia Mineira de Letras

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