Nunca a Humanidade Esteve Tão Próxima do Fim

Ameaca nuclear, crise climática, falta de liderança global, ameaças biológicas e avanços em tecnologias disruptivas como a inteligência artificial: desafios globais que ameaçam a vida na Terra de maneira mais severa que nos piores momentos da Guerra Fria, segundo o Boletim de Cientistas Atômicos dos Estados Unidos
 
Criado em 1945 por um grupo de cientistas dos Estados Unidos que havia trabalhado no Projeto Manhattan, codinome para o desenvolvimento da bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial, o Boletim dos Cientistas Atômicos (Bulletin of the Atomic Scientists) é uma organização sem fins lucrativos sediada na Universidade de Chicago, estado de Illinois.

Em 1947, o grupo de pesquisadores lançou o ¨Relógio do Fim do Mundo¨ (Doomsday Clock) com a finalidade de medir periodicamente o quanto a humanidade está próxima de destruir o planeta especialmente pelo risco nuclear, e ¨através de perigosas tecnologias criadas por nós mesmos¨ segundo os especialistas americanos envolvidos nas exaustivas pesquisas.

Até 2007, apenas a ameaça de confronto nuclear era avaliada pelo órgão; de lá para cá, fatores como alterações climáticas foram incluídos nas avaliações dos pesquisadores estadunidenses.

Para o Boletim dos Cientistas Atômicos, ¨meia-noite¨ significa metaforicamente ¨fim do mundo¨, ou seja, quando as pessoas tiverem feito da Terra um lugar inabitável de acordo com seus 18 cientistas e especialistas em relações internacionais, que se reúnem duas vezes por ano para discutir o tema na Comissão de Ciência e Segurança (Science and Security Board) do órgão.

Segundo Alexandra Bell, presidente e chefe-executiva do Boletim em entrevista por email no dia 27 deste mês ao jornal USA Today, o medidor ¨serve como metáfora poderosa, e ótima maneira de iniciar diñalogo sobre questões complexas de risco global¨.

Na inauguração, quando a Guerra Fria estava no início e vivia-se sério risco de confronto nuclear, o Relógio apontava 7 minutos para a meia-noite. Em 1953, o indicador caiu dramaticamente para 2 minutos enquanto os Estados Unidos e a então União Soviética intensificavam a corrida armamentista. Foi o mais crítico ponto apontado pelo órgao até 2020, quando o Fim do Mundo esteve a 100 segundos da humanidade.

De la para cá, o risco de destruição do planeta apenas se deteriorou: em 2023 e 2024 esteve a 90 segundos, em 2025 caiu para 89 segundos e agora, em 2026, o Relógio do Fim do Mundo aponta 85 segundos de acordo com relatório divulgado no dia 27 deste mês, em Washington DC.

Para o Boletim de Cientistas Atômicos, desafios globais que estão colocando a vida na Terra em risco incluem ameaca nuclear, crise climática, falta de liderança global, ameaças biológicas e avanços em tecnologias disruptivas como a inteligência artificial que, segundo o órgão, sem regulamentação evolui mais rápido que a capacidade humana de compreendê-la, daí incapaz de controlar seus potenciais efeitos nocivos.

A Comissão de Ciência e Segurança do Boletim descreve desta maneira a conjuntur internacional atual, que a levou a intensificar a proximidade da humanidade rumo a uma catástrofe sem volta:

Rússia, China, Estados Unidos e outros países importantes tornaram-se cada vez mais agressivos, hostis e nacionalistas. Acordos globais arduamente conquistados estão sendo deteriordados, acelerando uma competição entre grandes potências onde o vencedor leva tudo, minando desta maneira a cooperação internacional, crucial para a redução dos riscos existenciais.

Muitos líderes tornaram-se coniventes e indiferentes, adotando em muitos casos retórica e políticas que aceleram, em vez de mitigar, esses riscos. Devido a essa falha de liderança, o Conselho de Ciência e Segurança do Boletim define o Relógio do Dia do Juízo Final em 85 segundos para a meia-noite, a menor distância já registrada de uma catástrofe.


No ano passado, os cientistas do Boletim alertaram que os países precisavam mudar a direção rumo à cooperação internacional e à ação em relação aos riscos existenciais mais críticos, disse Daniel Holz, presidente do Conselho de Ciência e Segurança do Boletim e professor do departamento de Física, Astronomia e Astrofísica da Universidade de Chicago, em entrevista coletiva após a divulgação do resultado do Relógio deste ano.

Contudo, de 2025 para cá o quadro apenas se agravou segundo os especialistas. “A humanidade não apresentou progressos suficientes em relação aos riscos existenciais que nos colocam a todos em perigo”, disse no mesmo dia Alexandra Bell sobre o motivo da mudança na pontuação deste ano, em entrevista coletiva.

“O Relógio do Fim do Mundo é uma ferramenta para comunicar o quanto estamos próximos de destruir o mundo com tecnologias que nós mesmos criamos. Os riscos que enfrentamos com armas nucleares, mudanças climáticas e tecnologias disruptivas estão se intensificando. Cada segundo conta, e estamos ficando sem tempo. É uma verdade dura, mas esta é a nossa realidade”, afirmou Bell no último dia 27.

Na entrevista ao USA Today, Bell disse: ¨os riscos catastróficos estão aumentando, a cooperação está diminuindo e estamos ficando sem tempo. A mudança é necessária e possível, mas a comunidade internacional deve exigir ações rápidas de seus líderes”.

Holz lembrou que o último tratado ainda existente regulamentando arsenais nucleares entre EUA e Rússia, expirará em poucos dias, no dia 4 de fevereiro deste ano. E pela primeira vez em mais de meio século, nada impedirá uma corrida armamentista nuclear descontrolada. Em um mundo altamente efervescente – na minuciosa consideracao dos renomados especialistas do Boletim de Cientistas Atômicos, em situação mais perigosa que nos piores anos da Guerra Fria.

“Em vez de acatar este alerta, os principais países tornaram-se ainda mais agressivos, hostis e nacionalistas”, acrescentou Holz na entrevista coletiva. “Os conflitos se intensificaram em 2025 com múltiplas operações militares envolvendo estados com armas nucleares” concluiu o cientista americano.

¨O presidente Trump tem reiteradamente afirmado que acredita que as armas nucleares representam a maior ameaça à humanidade. Essa é uma retórica que podemos aplaudir, mas as ações de seu governo não condizem com ela. Em cerca de uma semana o último acordo de redução de armas nucleares entre os Estados Unidos e a Rússia vencerá, e ele não fez nada para garantir que novas salvaguardas nucleares o substituam¨, disse Bell ao USA Today.
 
 

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Author`s name Edu Montesanti