A vitória de Medvédev

Como era de se esperar, quem ganhou as eleições presidenciais russas foi o vice primeiro-ministro Dmitri Medvédev. Apoiado pelo atual presidente, que goza de uma popularidade incomparável e cujo governo teve grande sucesso, não se podia esperar outra coisa.

A maior parte da imprensa e dos governos ocidentais, porém, preferem ver as coisas de um modo distinto: falam da injustiça das eleições, que os eleitores não tiveram opção e sofreram pressões. É difícil imaginar que pressão os votantes russos possam ter sofrido, já que o voto é secreto e não obrigatório - quem não quis votar, não votou; quem quis, votou no candidato que lhe pareceu melhor.

Quanto à falta de opção, houve um candidato para representar cada uma das principais linhas políticas: um de esquerda (Gennady Zyuganov, do Partido Comunista), outro de direita (Andrei Bogdanov, do Partido Democrático da Rússia, cuja principal proposta é o ingresso de seu país na União Européia), um nacionalista radical (Vladimir Jirinovski, do Partido Liberal-Democrático), e Medvédev, representando a continuidade com o atual governo. Sem dúvida, a maior parte da imprensa russa deu mais cobertura ao candidato do governo.

Porém, mesmo que a imprensa simplesmente não falasse de Medvédev, o mais provável é que ele teria ganhado. Pensar que a propaganda foi a causa principal da vitória do vice primeiro-ministro é considerar que os russos são estúpidos e irracionais. Na verdade, não poderiam ter agido de maneira mais racional: considerando que o governo de Putin foi muito bem sucedido, para que se arriscariam a mudá-lo?

A economia cresce e gera empregos cada vez melhor remunerados, a pobreza diminui rapidamente, o país está cada vez mais seguro e estável, e tudo isso sem renunciar à liberdade e ao pluralismo: quantos governantes podem gabar-se de tantas conquistas em oito anos? A vitória de Medvédev é, sem dúvida, um voto pelo continuísmo, e como bem notou a imprensa ocidental, "pouco mudará na Rússia nos próximos quatro anos" – ou seja, o país continuará no caminho correto.

O atual presidente continuará a exercer grande influência no governo, mas dificilmente será a eminência parda que o controlará. Medvédev não é um títere de Putin, e já mostrou isso: antes mesmo das eleições, quando não era mais do que o vice primeiro-ministro e candidato à presidência, Medvédev afirmou que considerava muito importante aproximar-se das principais potências ocidentais.

Provavelmente, ele se esforçará bastante por isso, já que as relações realmente pioraram muito, e não por culpa da Rússia: apesar de que esta fechou todas suas bases militares localizadas fora do território da antiga União Soviética, os Estados Unidos continuam expandindo sua aliança militar e concentrando tropas cada vez mais próximas de território russo, e a União Européia critica o recuo da democracia na Rússia enquanto apóia o separatismo ilegal no Kosovo.

Agora, é a vez do ocidente dar um passo em direção à Rússia: em vez de lançar críticas sem sentido, deveriam deixar de provocá-la inutilmente, acreditando que os russos cederão às pressões e aceitarão entregar seu recursos naturais e se retirarão do cenário mundial. A Rússia é uma grande potência, e chantagens, ameaças e críticas absurdas não mudarão este fato.

Caso reconheçam isto, as principais potências ocidentais, ou seja, Estados Unidos e União Européia, ganharão muito com uma aliança fortalecida com a Rússia: ótimos contratos de petróleo e gás, cooperação em setores de alta tecnologia, e um sócio disposto a defender a paz e a liberdade através do império da lei.

Mas se esses países não quiserem, a Rússia perderá pouco: pode voltar-se para o oriente e para o sul, e fortalecer seus laços com países como China, Índia e outros menores, dispostos a relações mutuamente benéficas. Pode parecer um paradoxo para os que somente acessam os grandes meios de comunicação, mas a verdade é que é o ocidente que mais depende da Rússia, e não o inverso.

Carlo Moiana

Pravda.ru

Buenos Aires

Argentina

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey