A situação da Síria

A situação da Síria. 16744.jpegNo  Conselho de Segurança da ONU (foto) foi aprovada unanimamente a declaração que deverá facilitar a resolução da crise na Síria.  A declaração foi aprovada no dia 21 do corrente.

Por Boris Dolgov*

 

A declaração contém seis pontos  principais: -o cessar fogo a ser obedecido pelas duas partes do conflito, ou seja tanto por  parte do governo constituido  como por parte dos grupos armados;  a retirada do exército constitucional das áreas populadas;  a continuação da ação comandada por Kofi Annan;  e o começar de um diálogo político entre o governo e os grupos da oposição.

A declaração foi conjuntamente elaborada pela Rússia, Kofi Annan e a Liga Árabe. Ela foi então aceita pelos países da hegemonia ocidental e por todos os outros membros do Conselho de Segurança.

O governo da Síria aceitou as proposições da declaração,  prontificando-se a implementá-las,  mas a oposição representada pelo chamado "Conselho Nacional da Síria"  a entendeu como um truque para dar mais tempo a Bashar Assad e ao  mesmo tempo grupos da oposição cometeram raides terroristas. Isto provavelmente para pressionar Kofi Annan em visita  a Damasco. Um grupo armado atacou  Mezze, um distrito de Damasco, onde instalações militares governamentais estão situadas. Logo esses terroristas foram cercados e vencidos pelas forças governamentais. Alguns ataques dos terroristas, por exemplo através de explosões de carros carregados de explosivos, foram efetivados em suburbios de Damasco e em Aleppo, resultando em dezenas de civís vitimados.

A guerra informática contra a Síria continuou como sempre. A CNN e  a Euronews continuaram dizendo que as forças governamentais, incluindo unidades do exército com artilheria pesada, tinham atacado a oposição e isto  diretamente após da declaração do Conselho de Segurança. O presumido ataque teria matado então 70 pessoas.

Essas duas agências de notícias deram como referência para o caso acima citado um místico centro de direitos humanos baseado em Londres, o "Syrian Human Rights Monitoring Center" o qual não tem nem funcionários nem local de trabalho. Naturalmente que esta informação nunca foi confirmada.

Agora,  pela primeira vez desde o começo da crise esta organização não estará  em condições de fazer outra coisa  senão  reconhecer, constrangidamente,   que grupos da oposição estiveram, desde o começo,  envolvidos em sequestros,  torturas, confissões arrancadas por meio do uso de força,  assim como de  execuções sumárias incluindo políciais e militares  fiéis as forças governamentais,  assim também como civís.  Esses fatos foram confirmados pelo governo, que tem provas e documentos em seu poder.

Como membro de uma delegação eu pude ver fotografias de corpos mutilados de policiais e militares mortos como resultado de tortura executada por militantes, os quais  incluem em suas fileiras "jihadistas" da Al-Qaeda.

O chamado "Conselho Sírio Nacional"  baseado em Istambul,  ainda  que esteja  abaixo da proteção da OTAN,   não tem nada que se assemelhe  a um programa político ou social , ou qualquer outra coisa semelhante  que possa  fazer com que sejam vistos como um representantes legítimos  do povo sírio.

Em fevereiro de 2012,  mais de vinte líderes da oposição deixaram o "Conselho Sírio Nacional"  para estabelecerem uma organização própria, o "Grupo dos Patriotas Sírios". Em março desse mesmo ano,  mais três  líderes juntaram-se as fileiras desses últimos denominados,  dizendo que deixavam o Conselho por estarem em disacordo quanto as linhas estabelecidas pelo Conselho.

Não é de surpreender. O chamado "Conselho Sírio Nacional"  é uma grande mistura tanto de grupos,  como de personalidades.  Vão de  liberais-democratas à Irmandade Muçulmana, de separatistas curdos à Islamistas radicais. Todos perseguindo objetivos diferentes. Moderados da Irmandade Muçulmana e Islamistas radicais,  com os quais o presidente do Conselho Nacional Sírio,  Burgan Galyun tem relações tensas,  são os elementos mais organizados do conjunto.

O fato deles terem conseguido convencer Abdo Hussameddin, o Ministro delegado dos recusrsos energéticos,  e alguns outros militares de alto posto - as fontes oficiais sírias dizem que seriam dois enquanto as fontes dos rebeldes dizem vinte- a entrarem nas suas fileiras pode ser considerado como um relativo sucesso para o Conselho. Entretanto,  Hussameddin imediatamente exigiu uma posição alta dentro da estrutura do Conselho confrontando a liderança do mesmo.

O General de Brigada Mustafa Ahmad Al-Sheikh do Exército Sírio, o outro que saiu  das fileiras oficiais, fugiu para a Turquia,  e começou uma outra desavença.  Ele desafiou  o Coronel Riyad al-Asad, que havia juntado-se as fileiras do Conselho antes dele,  quanto a liderança do "Exército Livre da Síria".

Com Homs e Idlib limpos de forças ante-governamentais, o Exército Sírio do Governo Oficial Constituido eliminou os pontos de resistência armada. No entanto,  ainda há ataques terroristas com veículo carregados de explosivos e militantes continuam atravessando as fronteiras conseguindo de países adjacentes armas e fundos.

Um ex-reporter da Al Jazeera, que se distanciou do canal  [em protesto contra a linha da empresa em relação a cobertura dos acontecimentos na Síria] disse que militantes, especialmente os vindo do Líbano tinham entrado na Síria nos primeiros dias das agitações em Daraa, em março de 2011. Isto seria então muito antes que as ditas "atrocidades cometidas pelo governo" tivessem podido começar. Na sua entrevista com a Euronews o jornalista disse que tinha pessoalmente visto dezenas de militantes atravessando ilegalmente as fronteiras ente a Síria e o Líbano, em março de 2011.

Reformas políticas, sociais e economicas estão sendo concretizadas na Síria agora. Partidos políticos estão se estabelecendo de acordo com as novas leis. Quando da nossa estadia na Síria em janeiro de 2012 pudemos encontrar representantes de alguns desses partidos. Encontramo-nos com representantes Liberais,  com representantes da Comunidade Curda e com os representantes da Esquerda Popular. Eles se definen a si mesmos como "Oposição  Patriótica".

Diferenciando-se da oposição baseada em Istambul eles estão prontos para um diálogo construtivo com as autoridades e tem propostas a  apresentar. O referendo para uma nova constituição foi realizado em 26 de fevereiro de 2012.  Nesse referendo  89,4%   dos eleitores aprovaram a nova constituição,  que não dá nenhuma posição especial para o partido Árabe-socialista Baath e que contém todos os elementos  duma estrutura democrática.

Novas eleições parlamentares estão marcadas para maio de 2012. Todos os partidos políticos que estejam registrados poderão participar das eleições, mesmo a oposição no estrangeiro, que entretanto se refusa a participar.  É necessário então ressaltar que a atual liderança do país tem o apoio da grande maioria do povo sírio. Pudemos pessoalmente ver demonstrações de massas em apoio a Bashar Assad.

A Rússia, a China, os países da atual hegemonia ocidental,   assim como a Liga Árabe juntaram-se em apoio a declaraçäo do Conselho de Segurança da ONU.  Essa  conjunta tomada  de posição dá esperanças de uma solução política da situação. Mas, de outro lado,  a realidade em si mesma não dá lugar a muito otimismo.  Todos os que assinaram o documento do Conselho de Segurança tem objetivos divergentes,  se não diametralmente opostos.

A Rússia quer impedir uma intervenção militar estrangeira na Síria, quer que a crise política seja resolvida através do diálogo e exige  que a soberanidade e integridade territorial da Síria sejam respeitadas.  Esses  são os objetivos da Diplomacia  da Rússia, assim também como da China.  Em muitos aspectos então isto coincide com as posições tomadas pelo Irã, Líbano, em partes pelo Iraque,  pela Algéria e por setores sociais e políticos da Jordânia.

Os objetivos dos países que lideram a OTAN  assim como de Israel é a derrubada de Bashar Assad  do poder para uma total transformação do rumo político-social do país.  Isso deveria,  no desenrolar dos acontecimentos,  ser seguido por um total desmembramento literal do país.  Esse seria o caminho optado para se livrarem de um aliado do Irã assim como da Resistência Palestiniana. 

Uma Síria posta fora de combate também lhes daria maiores possibilidades para um ataque ao Irã, assim como abre  um caminho para diminuir a influência Shiite no Líbano e no Iraque.

Consequentemente temos a guerra propagandista que pode ser observada atualmente quanto as posições tomadas pela Rússia. É necessário então reiterar  que Moscou não tem a menor intenção de mudar sua tomada de posição quanto a Síria, que não deverá sofrer o mesmo destino que a Líbia.

Do nosso ponto de vista seria bom se  a Rússia  exigisse explicações da OTAN,  quanto aos resultados da intervenção militar na Líbia. Na Líbia o poder foi transferido para as mãos de Islamistas radicais. Há execuções e tortura. Há campos de treinamento para Al-Qaeda a serem construidos. O país se tornou numa fonte de instabilidade que se espalha a outros países,  como por exemplo é o caso de Mali.

Ao mesmo tempo conflitos armados continuam em Yemen. Esse país situa-se num ponto estratégicamente muito importante,  junto ao estreito que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico. [Esse estreito é uma veia vital para o controle do fluxo energético mundial e muito especialmente então para o controle do fluxo que vai  rumo a China]. As pressões ocidentais tiraram o Presidente Ali Abdulla Saleh do poder, mas a sua saida näo resolveu um único problema, muito pelo contrário.  O  país ficou dessa maneira abaixo do controle da Al-Qaeda.

Se deixarmos que Bashar Assad seja derrubado do poder através de interferências estrangeiras armadas teremos uma nova Líbia. Sendo a Líbia seguida pela Síria teremos o espaço Pós-Soviético na Ásia Central como potencial objetivo. Isto poderia  até mesmo preceder os planos de destabilização para o Irã e alguns países africanos no sul do Sahara.              

Referências e Notas:

Boris Dolgov, "The Situation in and around Syria" em www.strategic-culture.org

Com agradecimentos ao autor e a Strategic Culture Foundation.

*Boris Dolgov  é  pesquisador do Centro de Pesquisas Árabe-Islamico do  Instituto de Estudos Orientais,  Academia Russa de Ciências,  Moscou.

http://www.iranews.com.br/noticias.php?codnoticia=7786

 

Tradução Anna Malm para Irã News

 

 

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