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Desde Honduras

02.10.2009 | Fonte de informações:

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Honduras: O povo segue nas ruas! "Não é o primeiro que trazemos a este cemitério, oficialmente foram velados seis companheiros, mas há um número que não conhecemos de desaparecidos, de pessoas que foram levadas e não mais apareceram, e até de pessoas que se diz terem morrido por serem ladrões em enfrentamento com a polícia", me contou.

1.- "Sangue de mártires, semente de liberdade" era a palavra de ordem no enterro de Wendy, que morreu devido aos gases lacrimogêneos no sábado passado. "Todo despertar tem um preço", me dizia um militante da resistência, formado no Partido Comunista, durante a cerimônia pela companheira, na tarde de segunda-feira, no Cemitério Nacional. "E Honduras despertou." Usando categorias marxistas, o companheiro dizia que em Honduras esse despertar significa que o movimento deu "um salto de qualidade".

"Não é o primeiro que trazemos a este cemitério, oficialmente foram velados seis companheiros, mas há um número que não conhecemos de desaparecidos, de pessoas que foram levadas e não mais apareceram, e até de pessoas que se diz terem morrido por serem ladrões em enfrentamento com a polícia", me contou.

2.- Na segunda-feira, o governo começou o dia aplicando o decreto de Estado de sítio. A rádio Globo e o Canal 36 foram fechados numa ostensiva entrada do exército a seus edifícios, de onde tiraram todos seus equipamentos e equipes. Nesse mesmo dia, a concentração da resistência que ocorre diariamente na Universidade Pedagógica no meio da manhã foi débil. Mas sem dúvida, e apesar da manifestação ter sido cercada pelas tropas, não havia vestígios de temor ou vacilação. Pelo contrário, os comentários eram de radicalização, de que se deveria tomar medidas mais enérgicas, até se falava da necessidade de se passar a ações mais concretas. A manifestação conseguiu sair para marchar até o sindicato STYBS. Foi o reflexo de um sentimento geral do setor mais amplo da população de que as medidas autoritárias eram repudiadas, não apenas pela grande massa que está contra o golpe, mas também pelos setores da classe média, que rechaçam o autoritarismo simbolizado pelo fechamento dos veículos de comunicação.

A massiva rejeição ao regime e os partidos políticos que o apóia são visíveis a todo momento. Fala-se frente a eles de corruptos, uma palavra muito comum quando se menciona políticos por aqui. O cortejo ao cemitério era pequeno, mas a simpatia do povo era enorme; carros e caminhões, sobretudo os que levavam trabalhadores, saudavam, buzinavam e paravam, todos levantavam os punhos fechados.

3.- Ainda que a resistência não possa manter uma mobilização massiva diária e permanente nas ruas, o apoio popular segue crescendo. O ápice foi o 15 de Setembro, Dia da Independência; nesse feriado, dezenas de milhares saíram às ruas. Além disso, há as paralisações permanentes de diversos setores e, no caso dos professores, de dois dias por semana.

Houve ocupação de edifícios públicos e, até hoje, se mantém ocupado pelos trabalhadores o prédio do INA - Instituto Nacional Agrário, cujo dirigente é Juan Barahona. Esse companheiro é um dos líderes mais carismáticos, junto com Carlos H. Reyes, candidato independente à presidência.

Há uma ampla e numerosíssima vanguarda que se formou nestes 90 dias, composta por trabalhadores, organizações de bairro, sindicatos - como o das bebidas e o do magistério - e organizações campesinas de grande peso e tradição de luta em Honduras. Uma vanguarda que não se dobrou, apesar da repressão que vem sofrendo nos despejos dos bloqueios a estradas, especialmente no dia em que foi dispersada a manifestação em frente à Embaixada do Brasil, onde a repressão foi selvagem. Um jovem motoboy, de não mais de 22 anos, ao lado de sua orgulhosa companheira, me mostrou suas costas, com as marcas dos sucessivos golpes recebidos nesses enfrentamentos. Uma enfermeira com a bandeira do Partido Liberal me contava como se organizou nos primeiros dias a Frente dos Trabalhadores da Saúde em Tegucigalpa. "Começamos com dez enfermeiras, mas foram se juntando os assistentes, médicos e dentistas, com os quais fizemos uma organização numerosa." Es sa organização conta com uma clínica a serviço para atender os feridos da resistência.

Vale a pena lembrar que, nas duas últimas décadas que se seguiram ao auge revolucionário dos anos 80, tem sido Honduras o país onde o movimento social foi mais forte, protagonizando greves e lutas. A essa vanguarda se somou um setor radical do Partido Liberal, do presidente deposto Manuel Zelaya, que trouxe novos militantes, que surgiram com o golpe. Esses são os setores que formam a atual Frente de Resistência, que mantém a mobilização democrática revolucionária, que já tem mais de 90 dias e que não há vistas de ser derrotada ou desistir.

4.- Precisamente a declaração de Estado de sítio do governo golpista é a tentativa de caminhar em direção de um totalitarismo ditatorial clássico (nos referimos às ditaduras dos anos 70 na América Latina), para deter a mobilização revolucionária em curso e afirmar seu regime. A instituição que parece mais coesa é o exército, que não dá sinais de rupturas, e tem se conservado intacto depois de todos os processos vividos na América Central, e com uma relação muito próxima com a alta burguesia e com as Forças Armadas dos Estados Unidos. O modo funcional desse exército é uma ditadura clássica,para a qual apontava o Estado de sítio.

 
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