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El Quixote de la Paulista

29.12.2008 | Fonte de informações:

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Só que no dia da exposição o moldureiro cansou de esperar. A transportadora também. Só Neide esperou. Os convidados cansaram. Os garçons e maitres do buffet desistiram. Os patrocinadores, os reportes das TVs, jornais e revistas, os intelectuais, a classe média. A vernissage era às 8, esperaram até às 8:30. 9 horas começaram a desmontar os aparatos. Os secretários de cultura desistiram, as madames. 9:30 chega o Joel Câmara com seus novos amigos. Gente boníssima, soldados de primeira linha, convocados entre os mais desprezados inimigos da classe média paulistana: os mendigos das esquinas escusas e sombrias, das portas dos botecos da baixa Frei Caneca.

Sem os desenhos encerrados na molduraria já fechada e desprezados pela impaciência da transportadora, Joel surgiu comandando aquele incrível batalhão de Branca Leone, e reclamando: "- Agora que trago meus convidados, acabou a festa?"

Tinha razão o Joel contra aquela intolerância da classe média, mas naqueles anos 60 pacientemente voltei ao Sem Nome inúmeras vezes, curioso sobre o primo de quem Carlinhos contava histórias fantásticas, dignas de personagem de novelas picarescas. Um Quixote urbano do século XX, com toda a intensidade e profundidade do maior personagem da literatura universal.

No Sem Nome conheci Toquinho, Baden Powel, Chico Buarque de Holanda, José Dirceu, Travassos e mais um monte de gente já famosa ou que ainda viria a se tornar conhecida nacional e internacionalmente. Mas Joel, que era quem eu queria: não encontrei.

Lá por 68 tive de arrumar um emprego público às presas para escapar de processo e prisão pela Lei de Segurança Nacional que acobertava a covardia dos milicos que assaltaram o poder do país. Nunca entendi porque os generais brasileiros se sentiam ameaçados por um adolescente secundarista, mas me tornei entregador de contas de água, num prédio da então Superintendência de Águas e Esgotos da Capital - SAEC, na esquina da Benjamim Constant com a Praça da Sé.

Ali conheci Guido Ivan, um Van Gogh da São Paulo daqueles tempos. Através do Ivanzinho (outro grande personagem de maravilhosas histórias), conheci muitos militantes do PCB e fui apresentado a alguns autores bastante consagrados no meio: Mickhail Bakunin, Karl Marx, Friedrich Engels, Wladimir Lenin, Antonio Gramsci, entre outros.

Mais tarde, meio intimidado pela sobriedade e sectarismo dos companheiros do partido, sempre me constrangia quando chegávamos juntos às reuniões e Joel insistia ao cumprimentar cada um, repetindo sua permanente saudação: "- Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo!" Relutavam em respondê-la, mas Joel persistia, em voz de comando: "- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, companheiros!", até que aquele bando de materialistas se resignasse a responder: "- E para sempre seja!"

Um dia alguém pergunta ao Joel se aquele negócio de carregar um enorme crucifixo pendurado ao pescoço era uma heresia comunista ou falta de consistência ideológica de um cristão. Teve de ouvir toda uma análise minuciosa comprovando que o Sermão da Montanha é a única obra produzida pela humanidade, tão ou mais revolucionária do que O Capital.

Mas isso já foi tempos depois do Ivanzinho me levar para a Rua Sete de Abril, o centro da resistência cultural na cidade de São Paulo naquela década de 60. Havia ali o edifício do Diários Associados e entre mestres do jornalismo da época, como Samuel Weimer, conheci Ubaldino Pereira, irmão do Guido Ivan, que me introduziu na profissão. Na época Ubaldino era da Folha de São Paulo, de onde também fora um tal de Joel, o mesmo de quem o Ivan era muito amigo e por quem eu tinha muita curiosidade, pois o que dele relatavam combinava com o mitológico primo do meu perdido colega de escola.

Também no edifício dos Diários Associados, ficava o MASP - Museu de Arte São Paulo, antes de se mudar para a Av. Paulista. E por essa razão conheci Wesley Duke Lee, Lygia Clark, Hélio Oiticica. Mas o que me interessava mesmo era algum dia ver os desenhos tão comentados do tal Joel.

Olhos de rã feridos pela luz do sol alto de uma manhã de domingo do Embu, quando ainda realmente era uma cidade de artes comandada pelo poeta pernambucano Solano de Andrade, desviávamos dos turistas com humor ressacado pela noitada anterior, quando se aproxima um rapaz puxando uma moça bonita e gritando efusivamente: "- Joel! Joel!" Paramos. O casal nos alcança e o homem abre espaço para a moça poder admirar melhor: "- Meu bem: esse é Joel Câmara, o pintor!"

Brilhantes, os olhos da moça se arregalam, enquanto pergunta: "- Você é Joel Câmara, o pintor?!!!"

"- Não senhora! Eu sou Joel Câmara, o traficante de ópio". Circunda o casal e segue em frente. Corro atrás e dou bronca: que não devia ter feito aquilo, coitada da mocinha, ficou lá plantada como besta!

"- São bestas mesmo! Todo classe média é besta e ignorante. Como pintor!? Eu nunca pintei coisa alguma. Sou daltônico, como vou poder pintar? Desenhista é uma coisa, pintor é outra.

Tornei-me cotidiano à Rua Sete de Abril, mas apenas na feira de arte da Praça da República, também aos domingos, vim a conhecer o lendário Joel Câmara. Não foi preciso perguntar se era o primo do ex-colega de escola. Não poderia haver dois iguais aquele e nossa identificação nasceu no primeiro momento.

 
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