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Ilana Goldstein: Wladimir Kaminer

28.10.2002 | Fonte de informações:

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Wladimir Kaminer, 33 anos, nascido em Moscou, mora em Berlim há 11. Ele se insere, de alguma maneira, nas quatro tendências atuais que, polêmicas à parte, vem sendo apontadas na nova literatura alemã: a visibilidade de escritores judeus, a voz multicultural dos habitantes berlinenses, o caos urbano como pano de fundo a tramas bem humoradas e o look saudável e bonitinho. Dotado de uma ironia ferina, seu primeiro romance, Russendisko, revelou-se um best-seller na Alemanha. O autor, formado em dramaturgia, assina uma coluna semanal no jornal Frankfurter Allgemeine e apresenta também um programa de televisão. O problema é que Kaminer prefere escrever, tocar e dançar a dar entrevistas. Não foi fácil conseguir conversar com ele, durante o Salão do Livro de Paris...

Por quê você escolheu Berlim para viver? Berlim mudou muito nos últimos anos, tornou-se uma nova terra em busca de novas respostas. Eu sou fã de mudanças e aprendi, desde pequeno, a não me identificar com uma nação específica.

Algo a ver com o fato de ser judeu? Sim, como judeu, nunca me deixaram sentir 100 % russo. Um judeu é sempre alguém de alhures, sente saudade de uma pátria que não sabe bem onde fica. Então pode ser de qualquer lugar. Tiro proveito disso. Meu pai tinha problemas, na Rússia, por não ter a carteirinha de membro do Partido Comunista – pois um judeu poderia, em princípio, emigrar a qualquer momento. Eu, ao contrário, sou de uma geração que resgatou a identidade judaica justamente porque era mais fácil sair sendo judeu.

Bárbara Honnigmann, que estava com você na mesa redonda "Vozes judaicas: 50 anos após o Holocausto", preferiu sair da Alemanha para viver seu judaísmo de forma plena. Hoje mora em Estrasburgo e não pensa em retornar. Você fez o caminho inverso. Veja, cada um é diferente. Mas é preciso dizer que a Bárbara vivia na Alemanha Oriental, em que as coisas eram mais difíceis. Ela saiu de lá há 18 anos, e as coisas vem mudando muito desde então. O interessante é que ela só escreve em alemão... Por outro lado, eu não sou muito religioso, o judaísmo em mim é mais uma raiz cultural. E, de modo geral, acho as políticas e leis do governo alemão razoáveis.

Em Russendisko, há belas páginas sobre sua aprendizagem da língua alemã. Alguém já disse que "é possível imigrar de país, mas não da língua materna". Em que língua você escreve? O russo é minha língua familiar, afetiva, o alemão é meu instrumento de trabalho. Escrevo em alemão.

Um crítico apontou sua veia satírica como herança do humor judaico que se perdeu em Berlim, após a Segunda Guerra. O que você acha disso? A graça é involuntária. Eu queria ser sério (diz isso de um jeito engraçado, com a mesma cara com que, numa mesa redonda, respondeu à pergunta sobre "criar filhos na Alemanha de hoje" descrevendo em detalhes a babá e o jardim de infância de seus filhos).

Como é viver e escrever na Alemanha atual? Só posso falar de Berlim, pois mal conheço o resto do país. Fiz recentemente uma viagem e fiquei surpreso em ver como é tudo diferente nas outras regiões. Eu moro num bairro que antes era cult e boêmio. Hoje tem de tudo, desempregados, assalariados, artistas, imigrantes. Gosto desta diversidade.

Você se identifica com a nova geração de escritores alemães ou acha que isso não passa de rótulo de marketing? Me identifico, sim. O que nos une é a vontade de criar sobre o tempo presente. Ao mesmo tempo, a juventude européia esta se internacionalizando.

Você poderia citar seus escritores preferidos? Há muitíssimos. Para citar um clássico russo, Nabokov, para citar uma alemã contemporânea, Judith Hermann.

O que é "Russendisko"? É o nome das noitadas que eu organizo, no Café Burger, junto com o DJ Gurzhy. Elas são especiais pelo tipo de música que tocamos – pop, rock e hip hop da Europa do Leste - e por ser um dos primeiros lugares a possibilitar a convivência pacífica e alegre entre alemães e imigrantes oriundos da ex-URSS. Muitos dos nossos freqüentadores são personagens no meu primeiro livro, que leva exatamente o nome do evento.

Quais seus projetos atuais? Vou seguir meu trabalho de DJ e continuar organizando os "palcos de leitura" em Berlim, para dar espaço a jovens talentos. Aliás, a partir desta experiência, organizei uma antologia de novos autores, que se chama Frische GoldJunge (Nova Juventude Dourada) e será publicada agora em abril. Reúne brilhantes desconhecidos que encontrei em leituras dramáticas e saraus, e que acabaram se tornando meus amigos. Fora isso, meu segundo livro, Militarmusik, será lançado em maio. E em setembro deste ano, sairá ainda Schonhäuser Alle. Como o primeiro, ambos são autobiográficos, mas só até certo ponto. Desde menino, sempre acrescentei uma boa dose de fantasia às coisas – mesmo às fórmulas químicas e aos dados históricos, o que me rendeu vários problemas na escola...

Aqui no Salão do Livro, você usou música tecno-tradicional russa durante sua apresentação, no Pavilhão Alemão. Seu primeiro romance se passa numa danceteria e o segundo traz música no título. A música é central no seu trabalho? Sim, mas, na verdade, em Militarmusik ela não é central. Baseio-me em tudo o que se passou na Rússia de meu nascimento, em 1967, até 1990, ano em que saí de lá. Ao contrário de outros romances, nos quais as personagens se transformam ao longo da história, neste tudo muda – paisagem, estética, economia – mas os personagens não.

Como foi o "dèbut" internacional em Paris? Bom, apesar de as pessoas ficarem sempre perguntando sobre o passado da Alemanha, a culpa pelo nazismo, a queda do muro etc. Prefiro falar sobre o meu trabalho.

Ilana Seltzer Goldstein

 
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