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LITTLE BIGHORN

25.06.2004 | Fonte de informações:

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No estado de Montana, nos Estados Unidos da América, o sítio histórico de Little Bighorn Battlefield e o Custer National Cemetery são monumentos que retratam uma importante página da história norte-americana. Nesta planície do noroeste americano, há 128 anos, aquele que era para ser mais um dia de rotina de massacre de indígenas por parte do sanguinário exército norte-americano, foi uma brilhante vitória da união, estratégia e sabedoria da nação indígena, liderada pelos chefes Touro Sentado e Cavalo Louco.

A riqueza dos Estados Unidos da América foi inicialmente obtida através de um imperialismo interno, com o massacre de tribos indígenas, exploração de escravos negros trazidos do continente africano, e ocupação violenta das terras a oeste do território. O processo de expansão territorial deste país começou no final do século XVIII, em direção às terras localizadas a oeste das “13 colônias”, com o extermínio das populações indígenas, os “peles-vermelhas", como eram chamados pelos “homens brancos” (assassinos cara-pálidas descendentes dos ingleses invasores).

O Império norte-americano, que é atualmente o centro mundial do terrorismo, vem sendo construído, desde 1776, através da ganância, do individualismo, da violência e das guerras. As suas primeiras vítimas foram os grupos indígenas, que viviam no norte da América muitos séculos antes dos invasores chegarem. No início, foram as disputas pelos territórios para assentamento dos colonos, e depois, para a apropriação das riquezas minerais desses territórios, principalmente o ouro.

Para salvaguardar toda a ganância dos neocapitalistas, o governo dos Estados Unidos começou a exterminar populações indígenas inteiras, em eficientes operações de limpeza étnica, a começar com a temível varíola, contaminada em roupas e lençóis, que eram distribuídos entre estas comunidades, juntamente com os inúmeros conflitos criados pelo governo norte;americano, onde o winchester dos soldados ianques falavam mais alto. Os indígenas sobreviventes eram confinados em reservas cada vez menores e impróprias ao seu modo de vida, e aqueles que impunham qualquer resistência eram sumariamente executados.

Toda fúria foi permitida na tentativa de dizimar os indígenas dos “novos territórios” que iam sendo ocupados aos poucos. Os Estados Unidos da América já nasciam como nação bélica, e um pequeno império foi sendo construído com muito chumbo grosso, racismo, roubo, sabotagens, violência e uma doentia devoção cristã, sempre a serviço da supremacia branca, onde milhões de seres humanos inocentes, que viviam nas extensas planícies do oeste da América do Norte, os Sioux, Arapaho, Cheyenne, Lakota, entre tantos, foram simplesmente massacrados, enquanto que os Estados Unidos se tornavam uma “grande nação”.

Os Cheyenne eram renomados guerreiros e caçadores de búfalos, altamente organizados, possuidores de grande espiritualidade e valores éticos, infinitamente superiores aos invasores, e viviam uma vida harmoniosa com a natureza, na região onde hoje é o estado do Minnesota. No início do século XIX, foram forçados a migrarem para o oeste, para as Grandes Planícies, devido aos constantes conflitos com o homem branco, que ampliavam cada vez mais os seus territórios. Em novembro de 1864 houve o “Massacre do Riacho de Areia”, onde foram mortos mais de cem Cheyenne e Arapaho, que estavam sob os cuidados do grande chefe Chaleira Preta, e sob a “proteção” do exército norte-americano. Este brutal ato de genocídio e as mutilações que se seguiram contra os indígenas, fizeram com que os Cheyenne não tivessem alternativa, a não ser entrar em constantes guerras com soldados e colonos ianques, o que causou quase a extinção desta tribo.

Em 1874, o ouro foi descoberto nas Terras Sagradas dos Sioux e Cheyenne, em Black Hills, e em poucos dias milhares de garimpeiros invadiram as terras indígenas. As batalhas entre garimpeiros e indígenas foram sangrentas e, para garantir a extração do ouro, o governo norte-americano resolveu expulsar os Sioux de suas terras e levá-los para as “reservas”. Touro Sentado recusou-se a ir e o exército ianque foi mobilizado para remover o grande chefe Sioux e seu povo da região.

Tatanka Iyotake, mais conhecido como Touro Sentado, nasceu em 1831, nas proximidades do Grand River, em Dakota, na tribo Hunkpapa, da linha Sioux. Era curandeiro, respeitado em todas as tribos indígenas pela sua coragem e sabedoria, temido pelos colonizadores e pelo exército dos Estados Unidos por sua determinação.

Ameaçado pelo exército dos Estados Unidos, e cansado das invasões dos “homens brancos” às suas Terras Sagradas em Black Hills, Touro Sentado, convocou os guerreiros Sioux, Cheyenne e Arapaho para seu acampamento no vale de Little Bighorn River, para lutarem juntos e defenderem as suas terras e famílias.

De imediato, teve o apoio de Tashunkewitko, ou Cavalo Louco, nascido em 1842, um dos líderes indígenas que mais lutou para tentar acabar com as invasões dos “homens brancos“ nas Grandes Planícies. Em 1866, havia participado do massacre do Capitão William J. Fetterman e sua tropa de 80 homens perto do Forte Kearny, no território do Wyoming, e que foi considerada a pior derrota que o exército norte-americano sofreu nas mãos dos índios naqueles tempos.

Com o apoio das tribos indígenas, Touro Sentado então se recolheu para o seu refúgio espiritual, e se sobrepôs à terrível “dança do Sol”, por um dia inteiro, e no final deste longo dia, teve uma visão de “muitos soldados mortos na frente da aldeia”. Era um presságio de que os soldados "cairiam em seu acampamento com gafanhotos do céu". Sua profecia foi cumprida 48 horas após a sua visão, em 25 de junho de 1876, quando o Tenente Coronel George Armstrong Custer e a Sétima Cavalaria cavalgaram pelo vale e ali foram exterminados numa batalha histórica.

Cavalo Louco foi o grande herói da batalha de Little Bighorn, e a sua figura é a mais referenciada e respeitada até hoje por todos os indígenas do norte da América. Suas táticas de combate são estudadas até hoje pela academia de West Point.

O exército dos Estados Unidos enviou três colunas para atacar os indígenas de forma coordenada; numa delas seguia o Tenente Coronel George Custer e a Sétima Cavalaria. A aldeia Sioux ficava na margem esquerda do rio Little Bighorn. Custer avistou a aldeia de uma certa distância, onde não se podia ver toda a planície, e nem mesmo imaginar o quanto ela fosse grande. Mesmo assim, Custer preparou o ataque.

Custer, com toda a sua arrogância e presunção, menospresou a força inimiga, dividiu as suas forças em três, e enviou um grupo, sob o comando do Capitão Frederick Benteen, para atacar a aldeia frontalmente pelo sul, de forma a impedir que os indígenas escapassem para este lado. O grupo comandado pelo Major Marcus Reno, deveria atacar pelo norte.

Custer, comandando cinco companhias, esperava também atacar a aldeia pelo norte, pegando de surpresa todos aqueles que procurassem fugir do ataque de Reno. O ataque iniciou, com o grupo comandado por Reno atacando pelo norte, mas este encontrou forte resistência. Os indígenas, ao invés de fugirem, reagiram ao ataque dos homens de Reno. Eram muitos Sioux e Cheyenne, que defendiam suas mulheres, seus filhos e as suas famílias. Reno, desesperado, bateu em retirada, e Cavalo Louro brilhantemente comandou o contra-ataque, incentivando os seus guerreiros com o grito de que aquele “era um bom dia para morrer”.

Benteen, que havia deslocado o seu esquadrão para sul, observando a situação desesperadora de Reno, reforça o esquadrão do Major, deslocando parte dos homens para norte e oeste, deixando no entanto alguns elementos ao sul.

Custer, também percebendo as dificuldades do grupo de Reno, avançou pelo leste, tentando aliviar a pressão sobre os homens de Reno, e dividindo assim as defesas dos indígenas. No entanto, ao avançar em direção à aldeia, um grupo de indígenas Sioux comandados por Cavalo Louco partiu ao seu encontro. Era o fim de Custer e da Sétima Cavalaria.

Muitos bravos indígenas morreriam naquele dia, e do lado do exército norte-americano seria a maior derrota da história, com 260 mortos e apenas um sobrevivente do grupo de Custer, o trombeteiro John Martin, um italiano de nome Giovanni Martini, que havia chegado em New York apenas três anos antes da batalha, e se salvou porque Custer havia lhe dato a ordem para que fosse buscar ajuda com Benteen, mas durante o percurso, percebeu que a batalha já estava perdida, e como um bom italiano, fugiu.

Durante a Corte Marcial, Martini disse que quando observou a aldeia Sioux junto a Custer, viu que alí só haviam mulheres que trabalhavam e crianças que brincavam, e foi naquele momento que Custer se sentiu excitado, e rapidamente ordenou o ataque, dizendo aos seus soldados que matassem a todos, inclusive mulheres, velhos e crianças.

Duas Luas, chefe indígena que participou da batalha contou: "O tiroteio era ligeiro, muito rápido. Alguns soldados tombaram de joelhos, outros de pé. A fumaça era como uma grande nuvem rosa. De todos os lados os Sioux chegavam, e a poeira a tudo envolvia. Nós circulávamos ao redor deles girando como água do rio ao redor da pedra. Nós atirávamos, cavalgávamos rápido e atirávamos de novo. Os soldados caiam e seus cavalos em cima deles".

A morte de Custer, o “golden boy” da época, nove dias antes da celebração do primeiro centenário do nascimento dos Estados Unidos da América, foi um golpe fatal para os arrogantes invasores, e imediatamente, toda a opinião pública norte-americana, os jornais e os membros do Congresso pediram vingança contra os “selvagens”, e a resposta do governo foi a de empregar uma potente força, “dez soldados para cada combatente indígena”, no território que compreendia o que hoje são os estados de North e South Dakota, Montana e Wyoming, “limpando os indígenas destas terras”.

Depois de meses de sangrentas batalhas, Cavalo Louco se entregou, em maio de 1877, e foi covardemente assassinado na prisão, em 05 de setembro do mesmo ano. Touro Sentado fugiu com a sua gente para o Canadá, pois achava impossível que povos nômades conseguisem viver confinados em pequenas reservas. As Grandes Planícies enfim pareciam estarem tranqüilas, até que em 1890 Touro Sentado retorna às suas terras, e com ele surge a “dança dos espectros”, uma crença que, talvez tumultuada pelo conceito cristão do juízo final, sustentava uma teoria em que um dia todos os combatentes indígenas mortos retornariam e expulsariam os homens brancos da terra roubada.

Era uma ilusão sem fundamento, cheia de fantasias e fobias, mas de tamanha importância aos “novos donos” das terras, que estes decidiram realizar os últimos massacres aos indígenas remanescentes nas planícies, começando com o assassinato de Touro Sentado, em 15 de dezembro de 1890, no Grand River, em South Dakota, junto com seus guerreiros que tentavam impedir sua prisão. Depois houve o massacre de Wounded Knee, realizado pelos genocidas ianques da reconstruída Sétima Cavalaria, que barbaramente assassinaram outros 250 indígenas, na sua maior parte mulheres e crianças. Prevalecia desta forma, a “superioridade branca”, e os Estados Unidos cresciam como uma “grande nação”.

Fábio Rossano Dário Pisa – Itália

 
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