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O GATO NA HISTORIA

22.02.2004 | Fonte de informações:

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Uma antiga lenda diz que o Gato foi criado em plena Arca, quando Noé, desesperado pela quantidade de Ratos que se proliferavam e devoravam todas as provisões, implorou que Deus o ajudasse. O Gato então, para a salvação de todas as espécies, teria sido criado do sopro de um Leão.

Os primeiros representantes da família dos Gatos devem ter surgidos a cerca de dez milhões de anos, muito antes do aparecimento do homem na Terra. Os primeiros contatos sociais entre homens e Gatos selvagens provavelmente foram na época das cavernas, com alguns vestígios pré-históricos evidenciando o fato.

Porém, o verdadeiro encontro dos Gatos com o homem começa há cerca de cinco mil anos, no antigo Egito, nos tempos dos faraós, onde estes felinos eram adorados como divindades. A deusa egípcia Bastet, símbolo do amor materno, da ternura e da fecundidade, era retratada com corpo de mulher e cabeça de Gato. Acreditava-se que a bela deusa tinha o poder de fertilizar a terra e os homens, curar doenças e conduzir as almas dos mortos. Bastet também estava associada ao poder do Sol, e defendia Rá dos ataques de Apep, a Serpente contra quem o deus supremo lutava todas as noites, quando passava pelo reino da escuridão.

Os Gatos foram os animais mais adorados no antigo Egito. Uma célebre pintura da época retrata a mãe do faraó Akhnaton alimentando um Gato num banquete. Eram considerados os guardiões da noite, dos mortos, e dos mistérios da vida e da morte. Estes guardiões do outro mundo, quando morriam, eram mumificados e seus donos raspavam as sobrancelhas em sinal de luto.

Quem matava ou simplesmente feria um Gato era condenado à morte. Se uma casa pegava fogo, os Gatos eram os primeiros a serem salvos. Na época de Ptolomeu, um membro da Embaixada de Roma matou por acidente um Gato, e só foi salvo da morte por intervenção do faraó.

Era proibida a saída do Gato do Egito, mas alguns destes felinos devem ter sido levados para a Europa em embarcações comerciais fenícias, cerca de mil anos antes da Era Cristã.

Os romanos, quando invadiram o Egito, adotaram o culto à deusa Bastet, e em Roma, os Gatos também passaram a ser perpetuados em estátuas, pinturas e mosaicos, pois representavam o maior símbolo de liberdade para os romanos. Neste período, o Gato foi associado à diversas divindades, como Diana, deusa da fecundidade, e a sensual Vênus, muitas vezes representada como uma Gata. Com a expansão do Império Romano, os Gatos foram sendo introduzidos em toda a Europa, e durante muito tempo, aceitos pelo homem como animais domésticos, pela habilidade em caçar Ratos.

Na Grécia clássica, o Gato já era associado à feminilidade e ao amor, todos atributos de Afrodite, a deusa Vênus dos romanos. Na Babilônia não havia o culto aos felinos, mas uma lenda diz que o Gato nasceu do espirro de um Leão, o que coincide com uma antiga lenda hebraica.

Na morte de Buddha, enquanto todos os outros animais se reuniam para chorar, o Gato manteve os olhos secos enquanto devorava tranqüilamente um Rato, mostrando total falta de respeito ao acontecimento solene. Apesar da lenda, o Gato é um dos animais mais venerado pelos budistas, pelo autodomínio e tendência à meditação. No hinduísmo, a deusa Shosti, que preside os nascimentos, é representada montada num Gato.

O Gato também foi muito amado na religião islâmica, onde diversos contos o associam ao profeta Maomé, que teria sido salvo da morte por um Gato, que matou uma Serpente no momento que o atacava. A relação do Gato com o Islã seria uma das causas que levaria a Igreja Católica a relacionar o Gato à Satanás. Os gnósticos, que atribuíam igual importância a Jesus, Buddha e Zoroastro, já eram acusados pela Igreja, de adorar o demônio na figura de um Gato preto.

Na China, estatuetas de Gatos eram usadas para expulsar maus espíritos, e havia dois tipos de Gatos, os bons e os maus, que eram facilmente diferenciados porque os maus tinham duas caudas. No Japão, quando um Gato morria, era enterrado no templo do seu dono, e no altar do mesmo era oferecido um Gato semelhante, pintado ou esculpido, para garantir ao dono tranqüilidade e boa sorte durante sua vida.

No Camboja, existe um ritual onde um Gato é levado em todas as aldeias, para que não falte chuva e a colheita de arroz seja boa. Na Tailândia, acreditava-se que as almas das pessoas muito evoluídas migravam para o corpo de um Gato, antes de subir aos céus.

Na cultura celta, a deusa Cerridwen é relacionada com o culto ao Gato. Na Finlândia, havia uma crença de um trenó puxado por Gatos, que levava as almas dos mortos. Os templos pagãos dos países nórdicos eram todos decorados com imagens de Gatos, e nas lendas nórdicas, Freya, deusa do amor e da cura, havia uma carruagem que era puxada por dois Gatos cinzas, que representavam as qualidades da deusa: fertilidade e ferocidade.

Na América, antes da invasão dos europeus, alguns parentes dos Gatos, como o Jaguar e o Puma também eram venerados com associações aos deuses. Antes do extermínio destes povos americanos, heréticos, na concepção da Igreja Católica, o Jaguar era símbolo de grande força e sabedoria, e acreditava-se que os curandeiros mortos se transformassem neste belo animal.

O comportamento independente do Gato, sua agilidade e beleza, são atributos que despertou no imaginário popular uma ligação com mistério e magia. Mesmo em culturas onde foram adorados como divindades, não escaparam à torturas e mortes, devido aos seus supostos poderes sobrenaturais. Durante séculos, foram emparedados vivos, para garantir a solidez das casas, igrejas e castelos, e enterrados no limiar destas para dar sorte. Foram enterrados debaixo das plantações, para a garantia de uma colheita abundante. Foram sepultados nas encruzilhadas dos caminhos, crucificados e encerrados em sacos junto à mulheres adúlteras, lançados do alto das muralhas, queimados nas fogueiras e envenenados.

No século XI, os Gatos cumpririam um papel crucial na história da humanidade, ajudando os europeus a se livrarem dos Ratos transmissores da peste bubônica.

Os dois principais personagens da Idade Média não foram Carlos Magno e Kublai Khan, mas a pulga Xenopsylla cheopis e o Gato. As constantes mudanças climáticas no norte da Ásia obrigaram os mongóis a percorrerem grandes distâncias, e com eles, veicularam Ratos portadores da temível pulga da peste negra. Foram a seguir contaminados os mercadores de seda e os portos da Europa Mediterrânea. A epidemia, em poucos anos atingiu todos os países europeus, dizimando quase um terço da população européia. A França foi um dos países mais atingidos pela peste negra, tendo sua população reduzida, de 17 a 8 milhões de habitantes.

De frente à esta epidemia, os mais sábios procuraram a ajuda dos Gatos, únicos capazes de combaterem os Ratos. Houve então, em toda a Europa, um grande empenho na criação de Gatos, e o papel destes felinos foi mais uma vez indispensável para a sobrevivência da humanidade (eles já haviam, quatro mil anos antes, contribuído para o desenvolvimento da civilização egípcia). Mesmo assim, a Igreja considerou os Gatos culpados pela proliferação da peste e de tantas mortes, ordenando a sua destruição na fogueira.

A Igreja Católica foi a maior perseguidora dos Gatos, e na Idade Média, trava uma dura e longa cruzada contra os Gatos e seus adoradores. No ano 1232, o papa Gregório IX funda a Santa Inquisição, que atuou barbaramente durante seis séculos, torturando e executando, principalmente na fogueira, mais de um milhão de pessoas, essencialmente mulheres, homossexuais, hereges, judeus e muçulmanos, convertidos, médicos, cientistas e intelectuais, e também os Gatos, “ad majorem gloriam Dei”.

O papa Gregório IX afirmava na bula Vox in Roma que o diabólico Gato preto, "cor do mal e da vergonha", havia caído das nuvens para a infelicidade dos homens. Para acabar com a resistência dos celtas ao catolicismo, a Igreja Católica pregava que os sacerdotes druidas eram bruxos. Como os druidas vivam isolados e cercados de muitos Gatos, a Igreja associava os Gatos às trevas, devido a seus hábitos noturnos, e dizia que tinham parte com o demônio, principalmente os de cor preta. Milhares de pessoas foram obrigadas a confessar, sob tortura, que haviam venerado o demônio em forma de Gato preto, e depois, eram condenadas à morte.

A mesma perseguição foi realizada no século XV, contra os povos germânicos do vale do Reno, adoradores da deusa Freya, uma divindade pagã, segundo a Igreja, que considerava o seu culto um ato de heresia, associando-o à adoração de maus espíritos. Imagens da deusa foram destruídas, mulheres que tinham Gatos foram torturadas e queimadas vivas. Os Gatos, que eram protegidos pela deusa Freya, foram acusados de serem demoníacos, capturados, enforcados, e jogados nas fogueiras da Santa Inquisição.

A tradição mágica e outras habilidades naturais sobreviviam em alguns locais, durante a Idade Média, mas eram não oficiais e eficientemente perseguidas pela Igreja, cuja religião monoteísta tornar-se-ia um instrumento institucionalizado do Estado. A magia torna-se uma atividade suprimida simplesmente porque os sacerdotes da Igreja não eram adeptos a ela, e também não queriam correr o risco de que alguém pudesse sobrepujar suas habilidades limitadas. Desta forma, tudo o que a Igreja considerava “não ideal”, seria identificado na forma de várias imagens do Diabo.

Nos séculos em que a Inquisição agiu na Europa e América, uma pessoa que fosse vista com um Gato, principalmente os de cor preta, estava sujeita a ser denunciada como bruxa e a sofrer tortura e morte, sem nenhum direito de defesa. Uma vez acusado de bruxaria, a pessoa podia ser acusada pela responsabilidade de qualquer desgraça natural, como perda de safras, acidentes, doenças e mortes. No imaginário medieval, o Gato preto tornava-se mais uma figura mística, fruto da ignorância, associado ao culto ao demônio.

Em 1484, o papa Inocêncio VIII promulga uma bula contra os feiticeiros, acusando de heresia milhares de pessoas, um bom número das quais sendo culpadas apenas por possuírem um Gato. Por toda a Europa, milhares de pessoas inocentes foram torturadas em nome de Deus, por serem acusadas de feitiçaria e adoração à Satanás. E com elas, seus Gatos. Este papa inquisidor incluiu o Gato na lista dos perseguidos pela inquisição, campanha assassina da Igreja contra supostas heresias e bruxarias. Nesta mesma época, Leonardo da Vinci escreveria: "chegará o dia em que um crime contra um animal será considerado um crime contra a humanidade." Leonardo amava os Gatos, e considerava “o menor dos felinos” uma obra-prima.

Em toda a Europa, o dia de Todos os Santos passava a ser comemorado, jogando-se na fogueira, sacos cheios de Gatos vivos. Em Metz, na França, todos os anos, durante 4 séculos, no culto a São Vito, seriam queimados vivos, 13 Gatos presos em uma gaiola. Em Ypres, na França, centenas de Gatos eram atirados do alto de um campanário em um festival religioso. Durante séculos, milhares de Gatos seriam sacrificados em rituais durante a Páscoa. Estas práticas, incitadas pela Igreja, acabaram por se estender a qualquer tipo de comemoração religiosa, como a noite de São João e de outros Santos, o que acabou por quase dizimar a população de Gatos no século XV, o que conseqüentemente, contribuiu para a multiplicação de Ratos, que portavam a peste bubônica.

Na coroação da rainha Elizabeth I, centenas de Gatos foram aprisionados e levados em procissão, representando o demônio sob o controle da Igreja, e no final da procissão, formam todos queimados vivos. Na Inglaterra elizabetana, era comum que Gatos fossem colocados em sacos de couro e usados como alvos para os arqueiros. Desta e de outras formas, o homem descarregava nos animais, todos os seus complexos e crueldades.

Com todo o cuidado para não ser queimado vivo como herege, o navegador genovês Cristoforo Colombo tomara a precaução de embarcar nas suas três caravelas, Santa Maria, Pinta e Niña, dezenas de Gatos, os quais, ao longo de 35 dias de viagem transatlântica, travaram verdadeiras batalhas contra os Ratos, protegendo as provisões alimentícias e permitindo que os membros da tripulação desembarcassem vivos nas margens desconhecidas, em 12 de outubro de 1492.

No século XVII, período conhecido como o da “caça às bruxas”, a Inquisição agiu fervorosamente em toda a Europa e América. Mulheres idosas e solitárias, que possuíam um Gato como companhia, eram acusadas de bruxaria, torturadas até que confessassem aquilo que a Igreja queria, e então eram condenadas à morte, queimadas vivas em público, e seus bens imediatamente roubados pela Igreja. O julgamento das “bruxas de Salem”, em Massachussetts, é um dos principais registros deste período negro da história dos Estados Unidos.

Mesmo nestes tempos de tanto ódio, os Gatos foram amados em alguns países, como na Rússia, onde eram comuns serem encontrados em conventos e mosteiros. Com o tempo, a Igreja também foi sendo mais tolerante à presença do Gato, e a perseguição aos felinos foi diminuindo. O cardeal Richelieu chegou a ter muitos Gatos, entre eles um angorá preto chamado Lúcifer. No século XVIII, são abolidas as leis sobre a feitiçaria. Neste período, Isaac Newton, para maior conforto dos seus Gatos, inventa a portinhola, que permitia que os Gatos entrassem e saíssem de casa quando bem entendessem. No século XIX são aprovadas na Inglaterra as primeiras leis anti-crueldades, e fundadas as primeiras organizações em defesa do Gato e de outros animais. Finalmente os Gatos passariam a receber cuidados especiais.

Mendel não estudou apenas ervilhas, mas também os Gatos. O pai da genética ficou impressionado com a alta diversidade resultante dos cruzamentos e com certas permanências que lhe sugeriram a hipótese de dois fatores, um recessivo e outro dominante. Ainda hoje os Gatos continuam dando o seu contributo à ciência e à sobrevivência da espécie humana. Em 1961, milhares de Gatos foram transportados de avião para Bornéu, para acabarem com uma grande invasão de Ratos nos arrozais, e com o sucesso esperado, evitaram que milhares de pessoas daquela ilha morressem de fome.

Lord Byron proclamou a superioridade do Gato em relação ao homem: “Ele possui a beleza sem a vaidade, a força sem a insolência, a coragem sem a ferocidade, todas as virtudes do homem sem os vícios”. Foram também exaltados por Victor Hugo, Charles Baudelaire, Mark Twain, Pablo Neruda, amados por Chopin, Liszt, Monet, Renoir, e outras importantes figuras da nossa história, pessoas de talento e sensibilidade.

Os Gatos domésticos fazem parte da família Felidae, que é dividida em seis gêneros: Felis, dos Gatos, Jaguatirica e Suçuarana (Puma); Panthera, do Leão, Tigre e Onça pintada (Jaguar); Acinonyx, da Cheeta; Uncia, do Leopardo das neves; Lynx, dos Linces; e Neofelis. No total são 37 espécies de felinos, das quais oito ocorrem naturalmente no Brasil: o Gato do mato pequeno, o Gato do mato grande, o Gato maracajá, o Gato palheiro, o Gato mourisco (Jagurundi), a Jaguatirica, a Suçuarana, e a Onça pintada. O Gato, apesar de domesticado, ainda possui características em comum com os seus parentes selvagens, como a técnica de caça. Gracioso, sociável, higiênico, inteligente e independente, passam cerca de 50% da vida em sono leve, 15% em sono profundo, e a maior parte dos 35% restantes, caçando, namorando, brincando e principalmente se limpando.

Infelizmente ainda hoje os Gatos continuam sendo perseguidos, por pessoas que se julgam representantes de uma raça superior. Há condições para uma vida harmoniosa entre Gatos e humanos. Inúmeros fatos da nossa história comprovam que estes felinos sempre estiveram do nosso lado, mesmo que só para conseguirem um simples afago.

Fábio Rossano Dário Pisa - Italia

 
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