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O almoço

13.10.2003 | Fonte de informações:

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Morava em Água Fria numa modesta casa de taipa, antiga, porém de aspecto sólido. Nela havia duas salas, acho que três quartos, não lembro ao certo, e uma vasta cozinha, na qual encontrava-se uma extensa mesa, onde eram servidas as refeições, um velho fogão de lenha, um armário e cadeiras naturalmente. Aquela cozinha era, na minha opinião, por motivos óbvios, a parte mais importante da residência.

Quem visitasse aquela família, mesmo que de passagem, perceberia, nos mínimos detalhes a harmonia daquele lar.

O seu pai era um senhor baixo, magro, muito calado. Andava com passos curtos e de tal forma a não fazer ruído algum. Na verdade, o seu comportamento era tão discreto que quase não se tomava conhecimento de sua presença. Não me lembro de tê-lo visto falar, pelo menos até daquela data. Trabalhava na gráfica de um dos jornais da cidade. Ao que eu saiba era um bom profissional, tanto que anos mais tarde, após a sua morte, foi publicado artigo que enaltecia suas qualidades pessoais e profissionais. Foi ele que fez o “layout” do “A voz do estudante”, um dos jornais que circulou no colégio, na nossa época de estudante. Apesar de toda essa sua calma, essa sua tranqüilidade, contavam que certa ocasião, ao passar pela feira de Água Fria ele levou um tombo ao escorregar em uma casca de banana, o que provocou uma risadagem geral. Ele não teve dúvidas. Correu até sua casa e voltou “armado” com uma vassoura. Varreu então, enquanto enfurecido esbravejava e soltava fumaça por todos os poros e outros orifícios mais, toda a rua da feira.

A sua mãe, quando a conheci, era enfermeira aposentada e ao contrário do pai era relativamente alta e gorda. Tinha presença marcante, falava muito, dava ordens. Quer dizer, rapidamente se percebia que quem mandava na casa era ela e ponto final. Sofria de diabetes, mas para felicidade geral, e nossa em particular, não era adepta de regimes rigorosos. Muito pelo contrário. Conseqüentemente, vez por outra, tinha uma crise mais forte. Nestas ocasiões entrava, de leve, em uma dieta mais rígida, se é que cabe tal adjetivo, porém quando menos se esperava lá estava ela novamente “solta na buraqueira”.

Quanto aos demais parentes, não se tinha conhecimento de notícias desabonadoras. Se elas existiam, certamente eram coisas menores, sem nenhuma importância, levando-se em conta o contexto de um subúrbio de uma capital nordestina no início dos anos 70, é claro.

Pois é, vez por outra eu e meu amigo ferrávamos o almoço na casa desse nosso colega.

Diga-se, mesa farta estava ali e como se não bastasse, deliciosa. A mãe desse colega era o que se pode chamar de uma cozinheira de “mão cheia”, de doces e salgados, de forno e fogão. Além disso, ela, bonachona, nos recebia de braços abertos. Era alegre, atenciosa. Nunca a vi de cara feia.

Um outro aspecto marcante de sua personalidade era a sua religiosidade. Raríssimas vezes, durante sua vida, ela perdeu, aos domingos, a missa das sete. Sua devoção a Nossa Senhora da Conceição era tão grande que mandou construir, em sua casa, um pequeno nicho no qual mantinha, devidamente ornamentada e com uma vela permanentemente acesa, uma imagem daquela Santa.

Toda aquela harmonia em seu lar certamente, acreditava ela, era uma benção dos céus devido a sua conduta religiosa. Aquela mulher, não se tinha dúvidas, era temente a Deus.

Vale dizer que em nossas casas não tínhamos aquela estrutura, aquele ambiente, àquela tranqüilidade, àquela harmonia. Em resumo aquele aspecto de lar, e muito menos aquela mesa farta. Muito, mas muito mesmo, pelo contrário.

No começo era assim: Chegávamos, líamos o jornal, conversávamos sobre os filmes que estavam em cartaz, sobre os eventos culturais da semana, sobre livros que estávamos lendo e por aí.

Preferencialmente sussurrávamos sobre aquela colega gostosa que sempre estava namorando algum idiota. Aliás, intimamente, não entendíamos por que ela nunca se entregara de corpo e alma, quer dizer muito mais de corpo, aquele nosso grupo a fim de ser curada, com todo respeito, o que seria uma honra para ela, no nosso deturpado entendimento, é claro. Afinal, pensávamos ser os verdadeiros representantes da intelectualidade de Água Fria naquela época.

Tínhamos subconscientemente, na nossa visão machista, completamente depravada, os nossos direitos, ora!

Em verdade, graças a Deus, a moça possuía algum juízo, muito mais que a gente, a ponto de nunca ter cogitado de tão estapafúrdia idéia. Inteligentemente, ela não tomava conhecimento de nossa existência, pois tinha coisas bem mais interessantes a fazer com seu namorado.

Além do mais, na hipótese da concretização de tal pervertida idéia, iríamos fazer o que? Quando chegássemos a algum consenso sobre as implicações daquela tresloucada atitude, sobre quem seria o primeiro e blá, blá, blá, ela teria ido embora e nós sequer teríamos percebido.

É, nosso destino certamente estava traçado. Era a punheta inspirada pelos “catecismos” de Carlos Zéfiro, e olhe lá.

Depois, lá pelas 10 horas, íamos ao campo “do 18” exibir nossas excepcionais qualidades de futebolistas. Nessas “peladas” eu nunca joguei. Tinha consciência de minhas limitações e logicamente medo das gozações posteriores. De volta, vínhamos com aquele papo de “É vamos embora, já está tarde”... A mãe de nosso colega sem nunca ter feito qualquer comentário, sem nunca ter dada a mais sutil demonstração, sem criar o mais remoto constrangimento, com a sensibilidade dos iluminados sabia que, em geral, não tínhamos o que comer em nossas casas e infalivelmente, retrucava que ninguém saia de lá sem almoçar, “Onde já se viu?” Diante de tal apelo, de tamanha insistência e principalmente daqueles pratos de odor e aspecto maravilhosos, o que se poderia fazer?

Tempos depois, já não esperávamos por convite algum. Íamos direto para a mesa.

Pois é, vez por outra ferrávamos o almoço na casa daquele nosso colega.

Pois bem, naquela ensolarada manhã de domingo estávamos lá, na casa de nosso colega. Havia visitas. A mãe de nosso anfitrião encontrava-se na sala, com amigas e discutia sobre a próxima festa do padroeiro de sua igreja.

Ao ver aquela reunião de “beatas”, meu amigo percebeu que era o momento ideal para, através de um tratamento de choque, tirar aquelas pessoas do obscurantismo em que viviam. Vale dizer que ele era adepto fervoroso do pensamento de Marx, em particular da afirmativa de que “A religião é o ópio do povo”. Portanto, com o objetivo de livrar aquelas pobres criaturas daquele “vício”, trazendo-as para a realidade, para a luz. Ele foi sorrateiramente até a cozinha, abriu o armário e pegou uma taça de licor. Colocou-a em uma bandeja e a encheu de aguardente. Procurou e encontrou um depósito de biscoitos de onde retirou algumas bolachas “maria”.

Para espanto geral ele volta a sala. Coloca a bandeja no centro e de joelhos ergue, para além de sua cabeça, nas pontas dos dedos, usando as duas mãos, uma das bolachas “maria” ao mesmo tempo que pronuncia alto e bom som:

- Accípite, et manducáte ex hoc omnes

Hoc est enim corpus meun

Coloca então a bolacha “maria” inteira na sua boca. Mastiga-a e a engole. Em seguida ingere de um só gole a “lapada” de aguardente, não esquecendo, naturalmente, de dar “a do santo”.

Ato contínuo ele convida os presentes a comungarem, usando as bolachas “maria” como se hóstias fossem.

Lamentavelmente as pessoas não entenderam os elevados propósitos que moveram meu amigo na tentativa resgatá-las da ignorância em que viviam mergulhadas.

Pois é, nunca, nuuunca mais ferramos o almoço na casa daquele nosso colega.

Nosso herói deu por encerrada a narrativa daquele fato, porém não se sentia bem. Queria esquecer que após a “celebração” feita por seu amigo fez-se um silêncio letárgico. Todas as pessoas que se encontravam naquela pequena sala, sem exceção, religiosas ou não, estavam boquiabertas. Tinham os olhos esbugalhados e um ar de completa perplexidade. Em verdade as suas feições tinham um aspecto indescritível.

E... Por vergonha, pura vergonha, ele não teve coragem de contar que, em seguida, foram enxotados para sempre, pelo pacato pai de seu colega, aos gritos de “Fora hereges!”, daquele harmonioso lar.

Zanoni Carvalho da Silva zcs@cin.ufpe.br

 
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