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Um diálogo bem sucedido entre ciência e arte

11.02.2003 | Fonte de informações:

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As duas alemãs ensinam que o mundo microscópico é prenhe de formas e processos poéticos e sugestivos, que mereceriam atenção não apenas da parte dos especialistas e laboratórios.

Ann Rinn é atualmente a artista-residente do Kulturzentrum de Constança, no sul da Alemanha. No mesmo local, pode-se visitar uma exposição contendo boa parte dos trabalhos inspirados pela parceria entre a pesquisadora e a artista.

Silvia Mohr escreveu sua tese de doutorado sobre a cadeia alimentar de seres microscópicos conhecidos como rotatórias. As rotatórias alimentam-se de protozoários mas, ao mesmo tempo, mineralizam e sintetizam moléculas que são necessárias para a sobrevivência de suas presas. Portanto, apesar da relação de predação, há uma perfeita harmonia entre essas duas micro espécies aquáticas.

A videoartista Anne Rinn, que sempre teve um fraco por motivos e esquemas oriundos da biologia, aceitou ilustrar, com desenhos, a tese de Silvia Mohr. Mas este foi apenas o início. Inspirada pela discussão científica da bióloga, Anne Rinn produziu, em seguida, quatro vídeos. A série, intitulada "Rotatórias", mistura desenho animado, atores e filmagens microscópicas. Os curta-metragens evocam não apenas o microcosmo, como também o macrocosmo, inclusive nós, bizarros seres humanos.

"Rotatória 1", por exemplo, mostra uma pessoa girando sem parar dentro de uma pequena caixa quadrada. As rotações tornam-se cada vez mais rápidas, lembrando os movimentos dos microorganismos estudados por Silvia Mohr. A pessoa parece, em alguns momentos, querer se libertar daquela moldura que a isola do ambiente, mas outras vezes dá sinais de que se sente segura e protegida ali dentro. A moldura quadrada permite que aquele corpo realize apenas movimentos circulares. E, se por um lado o ator não pode sair do lugar, por outro lado não cessa de se movimentar.

"Rotatória 3" também começa com um grupo de pessoas dentro de uma caixa - um pouco maior. Mas dessa vez tudo é desenhado e a rotação das pessoas se faz de outra maneira: sincronizadamente, todas ficam de pé, depois de ponta cabeça, novamente de pé, e novamente com os pés para cima. Até que chutam o teto da caixa e são sugadas pelo caótico universo externo, povoado de... rotatórias, que foram filmadas sobre uma lente microscópica. Homezinhos desenhados e seres microscópicos filmados interagem pacificamente, até que uma rotatória engole todo o grupo de pessoas. No entanto, a história não termina aqui. A rotatória expele o grupo dentro de um casulo, este casulo se transforma numa caixa e as pessoas voltam a praticar seus movimentos sincronizados dentro da caixa.

Como esses, os outros dois filmes também tematizam a paradoxal complementaridade - que existe tanto mundo natural, quanto no social - entre vida e morte, entre ciclo repetitivo e transformação, entre unidade e todo. Além dos vídeos, constam ainda da mostra desenhos e uma instalação feita de arame – que não deixa de ser um desenho no ar. Os desenhos sobre papel, que também aproximam o micro e o macrocosmo, são especialmente dotados de lirismo. Ao mesmo tempo que aludem a mecanismos e fenômenos fisiológicos, fazem-nos pensar sobre as relações de parasitismo, simbiose e predação entre os seres humanos. Eis uma prova de que a – mais alardeada do que praticada - interdisciplinaridade pode ser fértil e bem sucedida.

Ilana GOLDSTEIN CULTURA

 
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