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Urariano Mota: O Dom Vital

07.11.2003 | Fonte de informações:

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O diretor Saulo ficou sentado. “Impávido. Eu estou impávido”, pensou, quando estava simplesmente imobilizado, preso. Ah se pudesse tremer de medo. “Eu gostaria de tremer”, pensou. Quis levantar-se, chamar o segurança. Mas ele já havia perdido, há muito, o segurança. Quis ligar para a polícia. “Para quê?!”, considerou. A essa altura, as desgraças já não mais eram chamadas. Elas vinham. Ou melhor, invadiam a sala.

- O senhor é o diretor? – pergunta-lhe um repórter, baixinho, afoito.

- Dr. Saulo Paes Mendonça. Pode falar – responde, gutural, procurando manter distância. Inútil. Os gravadores iam à sua boca e voltavam, sem cerimônia nenhuma. Saulo se ergue, os gravadores o acompanham. As perguntas chovem:

- Como é que se deu esse crime, doutor? O senhor desconfia de quem? Por quê? Por que isto?

- Que crime? Calma, senhores. Meus caros repórteres. Não houve nenhum crime. A criança foi encontrada sem sentidos....

- Sem sentidos?! Sem vida, não é, doutor? Todo o mundo já sabe.

Ouve-se um grito. A mãe cai sobre uma cadeira e se põe a gritar:

- Monstros! Assassinos! É mentira, digam. Minha filha está viva!

Os repórteres se voltam para a senhora. Então uma jovem, com um microfone, faz sinal para o câmera, que a segue. Uma luz agressiva ilumina o serzinho curvado, que tem as mãos na cabeça. A repórter toca forte em seu ombro, insistentemente, para que se volte para a câmera.

- A senhora não sabia que sua filha já estava morta? - Ouvem-se urros. - A senhora imagina quem pode ter matado a sua filha?

A mãe grita:

- Minha filha, o que foi que fizeram com você?

- Os professores dizem que ela saiu daqui com o corpinho endurecido. A senhora não sabia?

A mãe cai. Empregados da escola cercam-na. A repórter não pára. Vira-se para a câmera e segue falando.

- Não há mais condições de continuar a entrevista. A mãe da aluna acaba de desmaiar. Ela não suportou a dor de saber que a filha está morta. – E sem mudança de tom. – As pessoas vão chegando por aqui, enchendo a sala, todos querem saber realmente o que aconteceu. É incrível como, até aqui, os pais estavam sem saber que a filha havia morrido no Colégio. A verdade é que as coisas ainda não estão claras. Nós vamos continuar acompanhando a entrevista do Diretor da Escola. Ele está dando suas explicações à imprensa.

A repórter volta ao meio dos colegas, empurrando-os, utilizando o corpo forte do câmera para abrir passagem. Estende o seu microfone. Neste momento, um concorrente do rádio pergunta a Saulo:

- O senhor tem tarado aqui no Colégio?

- O senhor está sendo desrespeitoso. Isto aqui é um Colégio. Nós somos voltados para o ensino e para a formação de jovens. O nosso Dom Vital não pode ser dessa forma enxovalhado.

- Mas a jovem estava sem a calcinha.

- Quem lhe contou essa infâmia? O senhor viu? O senhor prova o que está dizendo?

- Eu estou só perguntando. É nosso dever de imprensa.

- Pois perguntar também ofende. Olhe. – E Saulo olha para os lados, em busca de algo em que se apoiar. Acha-o, no crucifixo no alto da parede da sala. – Eu jamais iria perguntar se o senhor teve pai.

Forma-se um tumulto. Em meio ao vozerio, a voz aguda da repórter da tevê se ouve:

- Os seus professores dizem que a menina estava sem calças, só de calcinhas.

- De blusa e calcinhas. Corrija, por favor.

- Isto o senhor confirma.

- Confirmo, claro – Saulo responde a fórceps.

- A blusa tinha o nome do Colégio? – volta o repórter do rádio.

- Justamente, com o emblema do Dom Vital.

- Mas isto não é o fardamento do Colégio, não é, doutor? Blusa e calcinha.

- Ah ... – Saulo fica à procura de um ponto de equilíbrio. Ouve risos, que o enervam. – Ah ... – está a ponto de soltar um berro. Como seria bom soltar um grito e correr. E mais uma vez pendura-se no Cristo da sala, para vencer a massa. – Vejam bem. Uma coisa é a aluna ter sido encontrada sem a calça jeans. Outra coisa, bem diferente, é dizer que ela foi ... é, isso, estuprada, não é? Os senhores compreendem. – E noutro tom, mais ameno, porque está satisfeito, aliviado por encontrar uma saída. – Eu acredito até que a roupinha dela foi tirada por um dos nossos mestres. Mas para desapertá-la, para que ela pudesse respirar melhor. Isto, sim.

- Um dos seus professores tirou a roupa da aluna, é isso?

- UmA de nossAs mestrAs, é claro. Eu digo professor no geral. Mestre e aluno para mim não têm sexo.

Tumulto, mais uma vez.

- Doutor, o senhor pode contar como isso aconteceu?

- Claro ... Finalmente, os senhores agem com a razão. Sentem-se, por favor.

Não há cadeiras para todos. Os repórteres concedem-lhe um pouco mais de espaço, pois ele, suado, dá mostras de sufoco.

- Foi assim. Eu cheguei aqui, como chego todos os dias, às sete e meia da manhã. Subi a esta sala, chamei a minha secretária, e juntos fizemos nossas preces. Todas as manhãs pedimos a Deus um bom dia. E sempre agradecemos a dádiva de ver mais uma vez o Sol. Então eu fiquei cuidando de minhas tarefas, até umas nove e meia. Acho. O certo mesmo é que foi depois das nove e meia que eu ouvi uma confusão, um barulho de gente lá embaixo. Foi quando eu desci e minha coordenadora me informou, “professor, mataram uma aluna”.

- Até então o senhor não sabia de nada?

- Pois se eu estava trabalhando ... Então eu fui até ao local da aglomeração. Entrei na sala do Jardim 2 e vi a nossa aluna. – E fazendo uma pausa: – Ela parecia bem. Ela estava em cima de um birô, deitada, com os cabelinhos só um pouco despenteados.

Os cabelos de Cristina estavam sujos, de pó, de poeira da mesa onde estava deitada, como se ela tivesse contorcido a cabeça, imprimido no suor do crânio a sujeira da mesa. A sala era um abandono, um depósito de cadeiras quebradas. Os cabelos longos, revoltos, quase escondiam sua face, pois se espalhavam no rosto magro, como um esfregão. Aqui e ali os fios negros se grudavam na cola seca do catarro, próximo à boca. Talvez ela houvesse chorado.

- O senhor afirma que ela estava bem?

- Sim, ela parecia.

- Ela estava acordada, falando, doutor?

- Não distorça as minhas palavras. É claro que ela estava com os olhos fechados. Por favor... Eu disse que ela parecia bem. Parecia. Meus senhores, eu não sou médico. Por favor. O que é que eu posso dizer de uma jovem deitada, sem nenhum sinal de violência? Hem?

- Mas o senhor não disse que foi avisado de que a aluna estava morta?

- Meu caro, uma coisa é dizer. Muitas vezes, os professores são uns exagerados. Repito: eu não sou médico! O que eu vi foi, no máximo, uma criança em posição de desmaio.

Com efeito, o rostinho de Cristina, os braços, não apresentavam sinais exteriores de ter sofrido o uso de força, nenhum sinal de brutalidade. Nada brutal, se disso excluirmos a palidez de cera, onde antes havia cores, o moreno da pele e do sol do Recife. Nada brutal, se excluirmos a própria ausência de vida, a imobilização fria dos membros, que antes com certeza se agitavam, se debatiam, e depois pararam, fruto da ação de uma força provavelmente adulta. Nada brutal. Mas há um limite para o dizer não dizendo da retórica. No seu pescoço havia marcas de força, louca e bruta. Nele havia indícios do que os laudos médico-legais chamam de esganadura. Ou como dizemos os leigos, sinais de estrangulamento, puro e simples. É possível que isto o Dr. Saulo não tenha visto. Mas os olhinhos de Cristina estavam abertos. Queriam saltar para o mundo, com raiva e sofrimento. Estavam dilatados, compondo um rictus com a boquinha aberta. Isto o Dr. Saulo viu. Ou para lhe dar um crédito, não viu, porque não quis ver. Depois que ele chegou ao local, mãos piedosas descobriram a fronte de Cristina, e fecharam os seus olhinhos, para assim dar coerência ao relato do Senhor Diretor.

- O senhor não viu que a aluna estava sem calças? Por que ela estava seminua? – pergunta a repórter.

- A estudante foi estuprada? A menina foi violentada, doutor? .. – vêm de todos os lados.

- Eu não sei ... eu não sei ... Senhores, eu não sou polícia. Repito: eu não sou polícia, nem médico. Senhores, por favor, eu sou apenas um diretor de Colégio. Entendam, a minha função é pedagógica...

- E por que o senhor retirou o cadáver da escola? Estava querendo esconder alguma coisa?

- Eu não sou o culpado! O criminoso não é este cidadão aqui. Os senhores entendem? – E com ênfase: - A minha vida foi dedicada à formação cristã. Eu só entendo de jovens, de crianças, vivas! Os senhores entendem? Eu não sou o culpado dessa tragédia. Senhores, por favor, entendam, eu sou a vítima.

- Mas quem morreu foi a jovem.

- Certo. Entendam. Eu sou a segunda vítima. Eu estou sofrendo, vocês não entendem?

- Voltando à primeira vítima – corta a repórter. – A menina estava seminua, não estava?

- Sim, quer dizer, estava, mais ou menos estava.

- Como mais ou menos? De calcinha?

- Sim ... Pra falar a verdade, ela estava até bem composta. Na idade dela, na idade em que ela morreu ...

- Ah... – a repórter suspira irônica – ela morreu.

- Claro... a essa altura eu já sei, não é? Pois, na idade dela ...

- Que idade?

- Doze anos, entendem? Era ainda uma criança, não é mesmo? Pois, o que importa mesmo, é que do jeito que ela estava, não havia nada que fosse contra a moral. Ela estava ali, deitadinha no birô, não me lembro se com uma almofada sob a cabeça... serena, sem nenhuma violência. Quando eu entrei, me pareceu que ela estava descansando. Apenas as coxinhas de fora. Era uma criança.

A criança tinha as pernas abertas, como se fossem membros num mostruário de rãs de experiência de Galvani. As coxas, amorenadas, que horas antes foram belas, pareciam e eram o objeto central da sala. Aquelas coxas eram a causa mortis, ausente do relato do médico-legista. Elas, certamente, satanizaram alguma tara. Além dos pés nos sapatos, acima dos tornozelos nas meias, a partir do fim do morrinho dos joelhos, elas devem ter sido mais que desejadas, abarcadas, abraçadas, até o nascedouro de sua flor no sexo. Pois na calcinha havia manchas, de uma goma desfeita, espessa, suja, como a borra, como a porra de um mingau ralo. Ali, no paninho branco de sua defesa, havia também gotas endurecidas de sangue. Mas o sangue não era o que chocava. Nas circunstâncias, naquelas coxas cujos pêlos não sofriam mais o arrepio, o sangue era quase um acidente exterior, uma superfície do crime. A nódoa de leite sujo era o que repugnava. A sua calcinha, maculada, o seu hímen, forçado, a sua vulva imatura, machucada, eram conjunto de pétala, vermelho e tecido que rejeitavam aquela seiva animal. A nódoa fazia da menina coxas, das coxas vulva, e da vulva excremento. Mas dessa estranheza, dessa inumana redução, não entrava no mérito o relatório médico-legal. Nem, muito menos, disso cuidavam as palavras do diretor Saulo Paes Mendonça, que não mais suportava a dissecação do seu agonizante Colégio. Puxado para aqui e para lá pelos repórteres, Saulo terminava por se incriminar em declarações com cara de absurdo.

- Não, senhores, as nádegas da menina estavam ocultas. Eu não vi. Sim, ela não estava de bruços. Compreendam, ela estava com suas perninhas, rígidas, bem juntinhas.

- Ela já estava rígida, doutor?

- Rígida eu digo assim, em posição, firme, bem juntinhas. – E sentindo o abismo que o engolfava: – Tá bom?

Não estava. Os repórteres queriam mais. O faro da mídia sentia o cheiro do animal a tirar o pêlo. Não bastasse o crime, as declarações de Saulo alimentariam matérias para vários dias, com direito a pesquisa, manchete, venda, ascensão, suíte.

- Que providências a direção do Colégio já tomou?

- Nós ... eu quero fazer uma declaração importante. Anotem por favor. – Fala lento, ditando. – Eu quero dizer que todos nós, os que fazemos o Colégio Dom Vital, estamos solidários com a dor que ora passa a família de nossa aluna Cristina.

Os repórteres não se mexem, nada escrevem. Alguns desligam os gravadores. As luzes se apagam. Saulo continua ditando:

- A família Dom Vital está consternada com essa tragédia. Nossos professores... – e lembra-se dos salários em atraso – .... com espírito de sacerdócio, sentem-se angustiados por esse triste acontecimento. Tudo a nosso alcance fizemos. Prestamos socorro imediato, tentamos a sobrevivência rápido de nossa aluna. Mas quis a vontade de Deus que isso não fosse possível. – Respira fundo. – É isso. Tá bom?

- Mas providências práticas, doutor. Que providências práticas foram tomadas?

- Ah, sim. – Os olhos de Saulo ficam girando. – Ah! Escrevam: Estaremos realizando uma missa de sétimo dia.

* Da novela policial, inédita, O Caso Dom Vital

 
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