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O milagre da virgem *

02.03.2004 | Fonte de informações:

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Embora nem à própria sombra confessasse, a morte da aluna, para Saulo, foi até razoável. Nela ele sentiu uma trégua. Católico fervoroso, há muito ele buscava um milagre. Acossado e encurralado por dívidas trabalhistas, por contas de luz, de água, de telefone, por fornecedores de toda sorte e gênero, na noite anterior à morte, na solidão do seu quarto, ele fechara os olhos e pedira à Virgem uma saída. Uma, qualquer uma, mesmo um intervalo, pequeno que fosse, aos desastres que se acumulavam todos os dias. Ao telefone ele já não atendia. A cada toque ele já adivinhava, ele já se imobilizava num sofrimento prévio, por saber vir do outro lado uma cobrança. Ou uma intimação. Ou uma ameaça.

Quando se achava perdido na selva escura, súbito, essa morte. “Isto é um aviso dos céus”, ele suspirou. Um milagre poderia mesmo ser muito estranho. “A minha sorte está mudando”, ele se disse, e fez de conta que não se disse. Mas sentiu uma alegria íntima. Tamanha era a sua aflição, que ele sequer considerou que a sua sorte poderia estar mudando para pior. Assim como uma criança reage a uma desgraça agarrando-se a um pormenor secundário, confortável, que a impeça de sofrer a absoluta crueldade, Saulo, adulto de 1 metro e 80 e 135 quilos, deteve-se na felicidade da quebra de sua rotina. “Aquilo”, a causa da mudança, ele não considerava.

“Foi a providência divina”, isto ele se disse, e repetiu em voz alta a todos a quem contava o ocorrido, cortando quadros e situações relevantes. Aos olhos que o estranhavam, às pessoas que não atinavam por que uma tragédia era uma providência de Deus, ele transferia o sentido de providência para o de um ato da vontade do Senhor, que assim escreve o nosso Destino. Isto ele conseguia com a gravidade da voz, ar pesaroso, com o olhar descido para o chão e que se levantava depois para o infinito, tangente ao rosto do ouvinte, numa postura de monge que se sacrifica. “Que gordas bochechas cínicas”, perceberia um seu semelhante. Mas como o ser cínico não é o comum da gente, principalmente ao ouvir o relato do assassinato de uma alma criança, Saulo continuava em frente, até a resignação final, uma preciosa citação de Jó, com que fechava a sua interpretação: “Se nós recebemos os bens das mãos de Deus, por que não havemos de receber também os males?”

Ora. Aconteceu que nesse mesmo dia, depois de ir à sala dos professores anunciar a morte da aluna, depois de dar a sua chancela, oficial, da morte da morta, estava Saulo fechado na secretaria, com a palma da mão estendida sob o queixo. Meditava sobre o que fazer. Mudo, ou como poderia acrescentar, carimbando o seu estado, mudo e em silêncio. Ora. Aconteceu que nessa altura bateram na porta, estrondosa e vigorosamente. Pudesse ele, tivesse ele tempo e lugar, sairia de seu recolhimento passando a grossa coxa pela janela. Havia no entanto uma impossibilidade geométrica. A sua sala não tinha janela. Então ele se postou estóico, à espera da provação que viesse. A secretária levantou-se, abriu a porta, e fez entrar, ou melhor, quase lhe passa por cima uma senhora, com os cabelos mais que despenteados, assanhados e sujos, o rosto em fogo, vestida em roupa de que jamais Saulo conseguiria lembrar-se. “Uma dona de casa”, ele se disse com susto. E o susto era a sua experiência com donas de casa naquele estado.

- Saulo, onde está a minha filha? O que aconteceu com a minha filha?

- A senhora é a mãe de nossa Cristina?

Curiosos entram. A secretaria se enche. Ficam os dois, em pé, como num palco, diante da assistência ruidosa. Saulo procura ganhar tempo, e grita, e grita para retomar a perdida autoridade, que não deveria mostrar que se intimida.

- Dona Augusta, expulse essa gente. Fora!

A sala se esvazia. Saulo muda o tom, subitamente fica doce, e se dirige à senhora do desespero.

- Sente-se, por favor.

- Eu quero saber da minha filha.

- Dona Augusta, um copo com água. Por favor. Mas sente-se, dona ...

- Diga logo! Onde é que está a minha filha?

- Olhe, nós fizemos tudo que estava a nosso alcance. Ela foi medicada, socorrida ...

- Saulo, o que foi que aconteceu?! Não me engane, diga! – e cai num choro.

Aquele desabafo do coração, só desespero, ainda sem raiva, Saulo se põe a assistir, ora calado, ora dosando palavras num tom carinhoso, “tenha calma”, “nós estamos fazendo tudo que é possível”, “nada lhe falta”, como um médico ardiloso que administrasse tranqüilizantes, sedativos, aos gemidos de um agonizante.

- Quem pode mais do que Deus?

Isto a mãe ouve, consegue ouvir e ver, por entre a nuvem de suas lágrimas. Então ela agarra o diretor pela camisa, e grita:

- Ela morreu, Saulo? Vamos, diga, ela morreu? Cristina morreu?

- Olhe ... - Saulo ia dizer, “a senhora já sabe”, mas temendo uma bofetada, um ataque daquela mãe em fúria de leoa, procurou suavemente dela se desvencilhar. Mas as mãos da senhora são garras, estão a ponto de lhe rasgar o pescoço. Então ele a empurra, como se caísse para a frente, ele a empurra, jogando o seu corpo pesado sobre aquela pequena senhora, deixando-a na cadeira. E com um safanão guarda-lhe distância, rasgando com isto a sua camisa. – Minha senhora, tenha calma. Por favor. Eu compreendo.

E vai dizendo um amontoado de asneiras, como se fossem necessárias, agindo e falando exteriormente para cobrir o buraco do desespero daquela mãe. Ainda que não consiga curar um gosto de sangue na própria boca.

- Deus é grande. Deus é infinito em Sua misericórdia. É em Sua força que encontramos conforto, sempre que estamos aflitos. Vamos, beba um pouco dágua. Água também é bom. Todas as vezes em que me sinto angustiado, quando estou a ponto de explodir, a água me socorre. Um doutor amigo meu, ele é um grande médico, dos bons, dos da escola antiga ... pois esse médico já me disse que são muitos os poderes curativos da água. A gente não dá nada por ela, não é, mãe? Pois saiba que ela baixa até a pressão da gente. Vamos, beba, tudo está feito, que podemos nós contra a vontade do Senhor? O homem põe e Deus dispõe. As providências foram tomadas, saiba a senhora que tudo que estiver a nosso alcance, tudo, ...

Se a mãe fosse dormir idiotizada, sob o poder hipnótico de toques letárgicos, aquela era a voz que ela ouviria até o mergulho completo na demência. Se aquela voz fosse um som mecânico, repetido à náusea, ronronrom, ela seria mais significativa, inteligente. Procurando cobrir um buraco escuro, de apenas adivinhados monstros, Saulo punha um oco de insignifâncias.

- Vamos, mãe, é assim, as coisas são assim, não é? Todos temos os nossos momentos, hoje sou eu, amanhã é outro, depois é a senhora, todo o mundo. Assim somos todos, ninguém pode dizer ...

- Saulo, me responda, somente sim ou não: a minha filha morreu?

- Olhe, assim ... Veja bem. Nada podemos afirmar. Tudo está nas mãos dos médicos. E de Deus.

- Por favor, me responda. Só confirme. Cris morreu?

- Olhe, assim, morreu de fato – o gosto de sangue voltava à boca -, isto eu não posso dizer. Vá ao Hospital da Restauração. Lá eles possuem os melhores médicos de emergência. Pergunte lá.

- Cristina veio com saúde pra esta escola. Levaram o corpo dela pra um hospital. O senhor não sabe dizer ainda se ela está viva ou se está morta? Na polícia o senhor vai dizer!

Saulo, ao ouvir “polícia”, ergue um pouco os olhos, assustados, sentindo-se com os braços levantados, rendidos, ou como se fosse o Cristo no alto pregado na sala. Mas em razão da gordura, das bochechas lustrosas, do vício e do conforto, longe está do sacrifício do Cristo. Seus olhos apenas dizem, imploram, no medo: “Eu não tenho culpa. Juro”. E para não se ajoelhar, a sua voz, com falhas na elocução, quase gagueja:

- Tenha calma, por favor. Compreenda, todos nós amamos Cristina. Todos nós estamos sofrendo.

A mãe se levanta. Saulo continua sentado, em penitência, aceitando até o sacrifício de receber uma bofetada. No rosto, um plaft largo, sonoro, daquela mulherzinha brava. Que levasse tapas, se isto fosse o preço para sair da enrascada. Que ela o arrastasse, tripudiasse, que lhe pisasse o corpo, que levantasse a sua cabeça pelos cabelos, ele de rosto contra o chão, que lhe batesse muito, muito, que pulasse sobre as suas costas, tudo. Se este fosse o preço, tudo. Mas a mulher parecia ser bem mais cruel. Ameaça-o com sofrimentos da carne da raiva:

- Se a minha filha estiver morta, eu vou à polícia. Eu vou contar o que todo o mundo diz desse colégio. Vou a todos os jornais.

Não se sabe, com certeza, se coração de mãe tem o poder de Deus. Se a sua ameaça tem a força de um cumpra-se. Se aquele estado de gerar vida, quando machucado, gera maldição. O fato é que ao acabar de dizer, “vou a todos os jornais”, aquela pequena mãe já não precisou ir. A porta da secretaria se abriu. Repórteres, câmeras, gravadores, fotógrafos, em resumo, a Comunicação, toda uma infernal e confusa horda entrou.

* Do romance, inédito, O Caso Dom Vital.

 
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