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A semana inaugural da nova Guerra Fria

30.07.2014 | Fonte de informações:

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Se historiadores futuros quiserem ver quando aconteceu de a era do pós-guerra fria converter-se em neo-Guerra Fria, bem farão se examinarem de perto a semana em curso. O governo Barack Obama está em astral triunfalista na sequência de alguns sucessos: afinal, conseguiu pôr ordem entre os principais aliados dos EUA na Europa - Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália - todos numa mesma estratégica concertada pra isolar a Rússia da Europa e impor sanções fortes contra a Rússia. 


29/7/2014, MK Bhadrakumar, Indian Punchline
http://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2014/07/29/the-week-that-ushered-in-new-cold-war/

Obama poderia talvez ter feito discurso incendiário à moda da Cortina de Ferro essa semana - não pôde, por causa da Líbia, do Iraque, da Síria, do Afeganistão et allii, e por causa do horrendo massacre em Gaza que já conspurcou também a reputação dele; além do mais, não esqueçam, Obama é 'prêmio Nobel' e não pode ser visto por aí dando gritos de guerra. 

Mesmo assim, a videoteleconferência de Obama com seus contrapartes europeus[1] na 2ª-feira para mostrar o acordo "sobre medidas coordenadas de sanções contra a Rússia" sugere, além de qualquer dúvida, que está terminando o período pós-guerra-fria. 

Nas próximas "12-48 horas" Bruxelas anunciará novas sanções[2] contra Moscou baseadas no roteiro dos EUA envolvendo amplo pacote de medidas que visam a pôr de joelhos a economia russa. Washington, na sequência, anunciará suas próprias sanções contra a Rússia. 

Essas chamadas Terceira Rodada de sanções estão previstas para atingir instituições financeiras russa, negócios de armas e de tecnologia de exploração de energia. Os bancos russos serão impedidos de listing new bond or equity issues em Bolsas Europeias, e serão banidos nas transferências de tecnologias sensíveis que possam ser usadas em perfuração em mar profundo, exploração no Ártico e extração de xisto betuminoso. O embargo deve incluir também a proibição de futuros negócios de armas com a Rússia. 

Moscou adivinhou o que viria e começou a organizar a defesa. 3ª-feira o presidente Vladimir Putin teve reunião do Conselho de Segurança da Rússia no Kremlin, o mais alto corpo para proposição de políticas externas e de segurança. Putin fez ali um importante discurso, para um grupo cuja agenda era, sem dúvida, discutir as opções estratégicas da Rússia no novo clima de Guerra Fria em todas as áreas de políticas nacionais - políticas domésticas, política exterior, política militar e, até, 'guerra de informação'.  

Putin disse: "Nossas Forças Armadas continuam a ser a mais importante garantia de nossa soberania e da integridade territorial da Rússia. Reagiremos apropriadamente e proporcionalmente à abordagem pela infraestrutura militar da OTAN contra nossas fronteiras, e não deixaremos de perceber qualquer expansão dos sistemas de mísseis globais de defesa e aumentos nas reservas de armamento estratégico não nuclear de precisão (...) Estamos vendo claramente o que está acontecendo hoje: grupos de tropas da OTAN estão claramente sendo reforçados em estados da Europa Oriental, inclusive no Mar Negro e no Mar Báltico. E a escala e a intensidade do treinamento operacional e de combate estão aumentado. É imperativo implementar todas as medidas planejadas para reforçar a capacidade de defesa de nosso país, plenamente e conforme o cronograma" (Kremlin website [em tradução]). 

Os eventos dessa semana simplesmente liquefizeram qualquer resíduo que ainda houvesse de possibilidade de acomodação entre Washington e Moscou. Assim também, o papel mediador da Europa - de França e Alemanha em particular - também se está esvaindo. A avaliação dos EUA é que eles estão numa situação de 'ganha-ganha', porque, como Dmity Trenin, professor Carnegie, observou essa semana, "Ainda que nenhum líder pró-ocidente venha a substituir Putin no Kremlin (...) a Rússia sucumbirá ante outro período de tumultos, tornando-se o maior problema para ela mesma e sem meios para criar problemas para Washington."  

Trenin pintou um cenário em traços simplificados: "Já não se trata de lutar pela Ucrânia, mas de batalha pela Rússia. Se Vladimir Putin conseguir manter o povo russo ao seu lado, vencerá. Se não, vem por aí mais uma catástrofe geopolítica." 

Claro que Trenin exagera. Para começar, a popularidade de Putin é mais que o dobro da de Obama. Os russos admiram Putin como patriota e líder firme; e os norte-americanos, cada dia mais, veem Obama como vacilante e incompetente, não importa a pose que faça. 

Mas o verdadeiro perigo não está aí: está na evidência de que a comunidade internacional pode ter tido de pagar preço caro demais pelas tenebrosas transações em que Obama os está metendo, em cenário de uma nova Guerra Fria. Se o Irã, como já se viu, não foi destruído por sanções, o que leva Obama e seus colegas europeus a crer que país muitíssimo mais poderoso, como a Rússia, poderia ser destruído? 

Será que a força somada de EUA e seus aliados europeus basta para 'resetar' a ordem mundial e isolar a Rússia, a qual, por falar dela, também é voraz globalizadora (diferente, nisso, da União Soviética)? 

Se a Europa não vai comprar petróleo russo e diversificará... o que acontecerá ao mercado de petróleo que serve também o resto do mundo? O que acontece à própria recuperação econômica da Europa, se o preço do petróleo subir à estratosfera? 

É absolutamente óbvio que, se a Rússia vê a OTAN e seus sistemas de mísseis antibalísticos como desafio existencial, como admitirá, algum dia, a implantação de bases militares de EUA-OTAN no Afeganistão? E, mais uma vez: se a Rússia é país adversário, por que continuaria a cooperar com os EUA (e com o ocidente) no Irã, Síria ou Iraque? 

E onde tudo isso deixa os outros maiores países dos quintais não ocidentais do mundo - Índia, Brasil ou China? Será que o ocidente conta com que esses países pactuarão com o regime de Terceira Rodada de sanções contra a Rússia? E se não pactuarem? 

Não, Sr. Trenin, o senhor errou. Não se trata absolutamente do regime russo. Trata-se, isso sim, da ordem mundial. O que está em jogo é o sistema de Bretton Woods e o desafio contra ele que Putin comanda - como se viu bem claramente na reunião dos BRICS em Fortaleza, Brasil. 

O que estamos vendo é o contra-ataque de Obama numa guerra de guerrilhas - assustado, ele, ante o desafio que não para de crescer contra a supremacia do dólar norte-americano. O caso é que, sem liberdade total-total para imprimir notas de dólar, a economia dos EUA será fulminada. 

O resto do mundo compreende perfeitamente do que trata essa neo-Guerra-Fria. Nem os europeus são perfeitos idiotas; eles também compreendem o que se passa - a forte resistência que manifestaram contra o desejo dos EUA de isolar a Rússia, e que tirou o sono de Obama durante várias semanas e meses, é prova disso. 

Com certeza absoluta, não há ideologia, dessa vez. Não é guerra contra o socialismo ou contra o terrorismo, nem é guerra intrinsecamente pela Ucrânia ou pela Rússia. Em termos simples, a nova Guerra Fria é sobre a perpetuação da dominação pelos EUA em mundo global. 

Sem o sistema de Bretton Woods, sem a OTAN, sem superioridade nuclear sobre a Rússia, os EUA já anteveem a possibilidade real de, com o tempo, se irem tornando potência muito reduzida. Sem a liderança trans-Atlântica, os EUA ficam reduzidos ao que foram antes da 1ª Guerra Mundial, há cem anos: uma potência regional, com influência só no Hemisfério Ocidental.*****  

 


[1] http://www.whitehouse.gov/the-press-office/2014/07/28/readout-president-s-video-teleconference-prime-minister-cameron-united-k

[2] http://www.theguardian.com/world/2014/jul/28/eu-sanctions-russia-malaysia-airlines/print

 

 
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