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O trabalho entre prazer e sofrimento

28.05.2009 | Fonte de informações:

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Para o senso comum, a virilidade torna-se um valor na medida em que as pessoas a associam erroneamente a uma imagem de solidez, de sucesso, de capacidade de expressar e fazer valer a própria posição de poder, sem perceber que ela está essencialmente associada ao medo e à luta do indivíduo contra o seu medo. É por esta razão que o sujeito não hesita em lançar mão, inclusive, do exercício da força, da agressividade, da violência gratuita, cujas manifestações, ao serem analisadas detalhadamente pelo próprio indivíduo, se apresentam a ele como sinal patente de covardia, de algo repugnante, hediondo, diante do qual dá vontade de se afastar. Mas, ao se dar conta disso, o desejo de responder com a recusa ou a fuga diante do que é assumido coletivamente traz de volta a sensação de covardia, de falta de coragem.

Neste emaranhado de percepções e sentimentos, o sujeito dificilmente percebe o erro grosseiro no qual está caindo: ele pode fugir de uma situação que considera odiosa e insuportável sem sentir nenhum medo pela punição ou pela própria vida. O problema é que a equação recusa-fuga-por-medo igual à falta de virilidade (ou de coragem, de acordo com as expressões corriqueiras do homem-massa) está tão arraigada em nossa cultura que as pessoas chegam a condenar sistemática e serenamente todos aqueles que fogem da raia. Por isso, não são poucos os que, ao dizer não, e, de conseqüência, se auto-excluírem do grupo ou acabarem marginalizados pelos demais, sentem-se tão humilhados e fracassados a ponto de caminharem em direção a atitudes de autodestruição. A inversão de valores faz com que o aplaudido e homenageado seja aquele que faz o mal sem sentimentos de culpa, sem perder a virilidade e o reconhecimento que esta lhe promete.

No ambiente de trabalho, longe de atacar a causa do sofrimento, este mesmo mecanismo leva o melhor das energias físicas e psíquicas a ser usado, como já vimos, para fortalecer as defesas individuais e coletivas contra o sofrimento e não a lutar pela sua eliminação. Passo a passo, as pessoas se convencem de que, no fundo, trata-se de um trabalho como qualquer outro, que precisam se focar nele, que devem controlar o próprio corpo, silenciar suas emoções, aprender a correr riscos, a serem ousadas, a suportar a dor sem se queixar, a agüentar o tranco, a se superar, enfim, a fazer o que ouvimos todos os dias: a ter, veja só, coragem pra trabalhar.

Via de regra, elas tendem a fazer estas afirmações mais com orgulho do que com pesar ou com sentimentos explícitos de resignação. De um lado, isso se deve à necessidade de exorcizar toda atitude e pensamento que representem uma crítica ao núcleo de convicções e vivências que construíram para si próprias e uma ameaça a trazer de volta o sentimento de culpa quanto à sua responsabilidade individual na manutenção do sofrimento coletivo. De outro, porém, não são poucos os funcionários para os quais um bom trabalhador é como um combatente destemido, aquele cuja conduta mostra ter assimilado as qualidades e os valores da organização e, portanto, é capaz de mobilizar todo o seu saber e criatividade para alcançar as metas propostas que, não poucas vezes, chega a ver como estímulo ao aperfeiçoamento pessoal e à superação de seus limites.

Em breves palavras, a virilidade é assumida como virtude, no lugar da coragem, em nome das necessidades inerentes ao trabalho. Esta não é fruto de um processo espontâneo ou natural, mas sim da sucessão de elementos que permitem banalizar a injustiça e apresentar como normal e saudável toda justificação dos meios pelos fins proposta pelo capital”.

- “Mas isso é demoníaco!”, explode o secretário num átimo de fúria.

- “Nada disso – rebate a ave ao balançar a cabeça. O que acabo de apresentar não passa de uma abundante colher de queijo na macarronada fumegante que acompanha o frango domingueiro: realça o sabor e estimula o apetite. Mas este mesmo queijo não faz sentido sem o macarrão e o frango que já estão prontos, ou seja, sem as demais condições que empurram o trabalhador coletivo a caminhar em direção ao matadouro justo quando acredita estar sendo convidado a um banquete”.

- “Então...”.

- “Então isso quer dizer que, contraditoriamente, ao buscar sua realização pela adesão ativa à lógica da empresa o sujeito eleva o grau de risco contra si próprio e contra os demais, corrói sua identidade, desgasta os valores coletivos que dão sentido à vida em sociedade e caminha, passo a passo, em direção à sua destruição.

Ainda que haja situações diferenciadas de empresa a empresa, de setor a setor, ou formas e complexidades que variam a depender da categoria, da dificuldade de reposição da força de trabalho, do grau de estudo e da função exercida, este processo percorre etapas quase simultâneas que impedem às pessoas de saírem do círculo vicioso no qual mergulharam.

O envolvimento com as metas traçadas pela organização leva o empregado a se dedicar corpo e alma ao seu trabalho. O fato de ele compensar parcialmente o esforço físico e mental despendido com o reconhecimento dos colegas e superiores, ou com a realização de sonhos de consumo, não neutraliza os efeitos do progressivo isolamento em relação aos demais, nem o sofrimento que, com o tempo, o alerta quanto ao seu próprio processo de adoecimento. Ao perceber esta realidade nua e crua, e temendo se tornar um elemento dissonante com o contexto da produção, o sujeito começa a travar uma luta ferrenha contra tudo o que o coloca frente a frente com as marcas que o trabalho deixa no seu corpo. Aceitar que está adoecendo é reconhecer a possibilidade de ser o próximo a ser posto para fora da empresa, ou seja, de vir a integrar o grupo dos sem futuro ou de ser forçado a reduzir o nível de vida conseguido até o momento.

 
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