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Locarno - um thriller esotérico

10.08.2012 | Fonte de informações:

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Locarno - um thriller esotérico. 17063.jpeg

Se esse gênero misterioso, transcendental e metafísico ainda não existe, o cineasta francês Jean-Claude Brisseau acaba de inventar com seu filme La Fille de Nulle Part, filmado em Paris, no seu próprio apartamento, onde alguns fenômenos estranhos - como aparições de fantasmas, barulhos inexplicáveis, levitação de mesa, cadeira furiosa se jogando sozinha contra estante e quebrando espelho se manifestam - depois de acolher uma jovem espancada pelo amante nas escadas do seu prédio, junto ao seu apartamento.

Michel é o personagem principal, vivido pelo enorme e pesado Brisseu, na sua primeira experiência de ator amador num cenário escrito por ele mesmo. Ex-professor, como na vida real, Michel tem o dom do didata e logo interessa sua hóspede, que precisa de cuidados médicos e repousa uma semana em seu apartamento, sobre uma pesquisa envolvendo as crenças e ilusões dos seres humanos.

Michel não é um crédulo mas um agnóstico ou ateu curioso na explicação dos mitos que embalam os seguidores das religiões. Pesquisador, baseado em descobertas arqueológicas, ele considera os personagens bíblicos do Velho Testamento como criaturas saídas da imaginação de um Josias.

Assim, Moisés nunca teria existido, mas se tivesse existido seria não o menino hebreu achado no curso do rio Nilo, mas um egípcio. E, reunindo num arquivo do seu computador os quadros da Ascenção de Cristo, pintados pelos grandes mestres computador, lhe surge a convicção de ter sido uma ilusão de seus discipulos, mesmo porque se Cristo tivesse subido aos céus para onde iria - para a Lua, Marte ou no forro de alguma igreja ?

A presença da jovem Dora, de 26 anos, quarenta anos mais jovem que ele mas esperta e inteligente, capaz de ajudá-lo na conclusão dos seu livro sobre as ilusões criadas pelos homens, como uma necessidade existencial. Mas a jovem Dora parece ter levado o sobrenatural para sua casa e um espírito desenha num papel, com o pé de uma mesa em levitação, o rosto de uma mulher. O rosto se parece com sua esposa falecida há mais de vinte anos, perda da qual Michel nunca se refez.

Aparece também o fantasma de uma mulher de preto, enquanto ruídos estranhos saem de dentro do armário. E o intelectual impedernido, movido pela ilusão da possibilidade de um reencontro com sua esposa, cai na mesma cilada dos que precisam de algo místico para poder viver - Dora seria a reencarnação de sua esposa. E comete o erro fatal de legar todos seus bens, em caso de morte, para Dora, na verdade sua ex-esposa.

O resto nem se precisa contar. Filme indicado para os que vêem fantasmas e mensagens do além por todo lado e que se deixam levar pelo nariz por todos os tipos de crenças e crendices, nutrindo-se de ilusões para viver. Enquanto uns poucos, mais espertos explicarão sinais, vultos, ruídos, levitações, comunicados do além como simples truques de mágica. E ainda outros utilizarão das ilusões e dos crédulos como seu ganha pão esotérico.

Jean-Claude Brisseau quis também provar ser possível se fazer um filme com pouco dinheiro e que muitos caros efeitos especiais, usados nas superproduções sequer são percebidos pelos espectadores. Puro luxo desnecessário. Mas sem as ilusões poucos podem sobreviver.

Rui Martins

 
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