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Uma Mulher da Terra

08.03.2009 | Fonte de informações:

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♦ 19:00h – LANÇAMENTO DO LIVRO Elizabeth Teixeira: uma mulher da terra , de Ayala Rocha

Local: Residência Universitária Feminina Elizabeth Teixeira (Centro) Coordenação: Residência Feminina.

João pessoa- PB

Prefácio de Frei Betto

Pósfácio da professora Rosa Godoy

Trajetórias Reencontradas

Depois tudo, de todos, escrever este posfácio é uma honra espinhosa.

Pois que, de um lado, se você é chamada para escrevê-lo, talvez haja a expectativa de que você fale alguma coisa nova sobre a obra que é posfaciada; e, por outro lado, provavelmente, a obra já tenha dito tudo e resta pouco a dizer.

Mas, pensemos, de um outro ângulo, nenhum texto se encerra no ponto final ortográfico: lançado ao mundo, percorre trajetórias insuspeitas ao(à) autor(a), construídas pelos leitores, que dele se apropriam, cruzando com as suas vidas. Um(a) posfaciador(a) é um(a) leitor(a) privilegiado, antes dos demais leitores, mas essa intencionalidade do seu ato pode, por vezes, limitar a sua visão

No entanto, penso ter vislumbrado um novo, muitos novos, a apontar, em:

Elizabeth Teixeira, com a sua saga fabulosa, de certo modo, conhecida em certos espaços de militância política e acadêmica, mas ainda a ser conhecida por um público maior e por segmentos de camponeses;

Ayala Rocha, a militante tenaz, cujos ouvidos recolheram o relato de Elizabeth e cujas mãos o lavraram com os sentimentos de uma intelectual comprometida com as causas populares;

Frei Betto, que, na concisão do seu Prefácio, mantém a coerência política e ética como poucos;

Euzébio Rocha, cuja carta de pai transmite o orgulho pelo empreendimento da filha e a admiração pela figura de Elizabeth;

sobretudo, uma ausência [formal] presente [como inspiração e ação]: Vanderley Caixe.

O que junta estas pessoas, nascidas em diferentes lugares deste país? Por que me junto a elas? E, embora falemos de maneiras diversas, estamos na mesma trama e há um discurso comum que proferimos? "

"Novo salto no tempo. Em 2007, a companheira Wilma Mendonça, docente do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba, oriunda da militância na CPT, e, portanto, aprendiz e companheira na convivência com D. José, Vanderley, Ayala, Elizabeth, possibilita meu reencontro com Ayala, então em visita a João Pessoa. Em 2008, Ayala decide, finalmente, trazer à luz a sua sistematização dos depoimentos de Elizabeth Teixeira. E sou, honrosamente para mim, convidada para escrever este Posfácio.

As pedras se reencontram nos percursos, depois de mais de três décadas.

O que transmite o relato de Elizabeth, convertido em letras impressas, por Ayala? O que significa este reencontro de trajetórias, incluídas aquelas pessoas que já se passaram desta vida, corporificado no livro?

De um lado, uma memória do medo, registro do medo e da barbárie que se instalou neste país com a ditadura militar: censura, amordaçamento político, repressão ideológica e física.

Mas memória, também, de lutas: de João Pedro Teixeira, Euzébio Rocha, Elizabeth, Frei Betto, D. José Maria Pires, Margarida Alves, Penha, Vanderley, Ayala, Wilma, de muitas e muitas pessoas que resistiram e não desistiram; e, lá no meu pequeno e contraditório espaço universitário, acho que um pouco a minha também. E, sobretudo, os trabalhadores brasileiros.

Mas, acima de tudo, memória da esperança, de superação do medo, de saber que vale a pena a luta, do sentido do presente, fundado na retrospectiva de um passado iníquo que precisa ser banido, em direção a um futuro que precisa ser atalhado e construído de outra forma.

Como uma fênix, Euzébio Rocha. Com muitas fênix. Renascidas das próprias cinzas dos momentos difíceis, e das cinzas concretas dos que, efetivamente, morreram pela causa da justiça social, contra o arbítrio, a impunidade, a censura, a tortura, a repressão. Um sentido do tempo, das mudanças necessárias e possíveis, poetizadas pelo próprio Vanderley Caixe: "

Quando a primavera chegar
QUANDO a primavera chegar, eu olharei as rosas,
mas os meus olhos estarão obnubilados
/pelos grilhões do inverno passado.


Minha mente estará demasiadamente sombria
para receber a claridade do novo sol.
Minha alma estará triste e dolorida
da última noite passada.
NÃO me lembrarei que a nova estação em flores
estará nascendo.


Recordarei as noites de insônia,
os homens no cárcere padecendo.
QUANDO o dia voltar, eu direi dessas noites
de iniqüidades .
Falarei dos que sofreram o flagelo em celas,
dos que gemeram nus as noites frias
/nas celas-fortes;


do inverno queimando o corpo e a alma
/dos prisioneiros castigados;
da auto-mutilação; dos braços retalhados.
Falarei da demência de homens sobre homens;
da tortura abafada atrás das muralhas.


QUANDO a primavera chegar, eu
quero ter presente o inverno passado.
Não esquecer essas noites que haveremos de impedir;
do homem-besta sobre o homem.

Do livro “19 Poemas da Prisão e Um Canto da Terra”

 
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