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Entrevista com Claudia Santiago para o Informativo dos Comerciários de Ipatinga

07.06.2016 | Fonte de informações:

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Essa semana, a jornalista Helenice Viana do Sindicato dos Empregados no Comércio e Serviços de Ipatinga (SECI) entrevistou a historiadora e coordenadora do Núcleo Piratininga de Comunicação, Claudia Santiago Giannotti. Mídia, imprensa e liberdade de imprensa foram alguns dos temas dessa conversa. Leia a entrevista.

Helenice Viana: Qual é o papel da imprensa? Ela tem cumprido esse papel?

Claudia Santiago Giannotti: O professor Venício Lima, em seu livro "Liberdade de Imprensa X Liberdade de Expressão" nos ensina que, de acordo com a visão liberal expressa no trabalho da Comissão Hutchins que produziu o relatório Uma Imprensa Livre e Responsável, em 1947, os meios de comunicação teriam de cumprir alguns pontos básicos, que acho importante destacar:

(1) propiciar relatos fiéis e exatos, separando notícias (reportagens objetivas) das opiniões (que deveriam ser restritas às páginas de opinião);

(2) servir como fórum para intercâmbio de comentários e críticas, dando espaço para que pontos de vista contrários sejam publicados;

(3) retratar a imagem dos vários grupos com exatidão, registrando uma imagem representativa da sociedade, sem perpetuar os estereótipos;

(4) apresentar e clarificar os objetivos e valores da sociedade, assumindo um papel educativo; e por fim,

(5) distribuir amplamente o maior número de informações possíveis.

De acordo com Venício, esses cinco pontos se tornariam a origem dos critérios profissionais do chamado 'bom jornalismo' - objetividade, exatidão, isenção, diversidade de opiniões, interesse público. Eu concordo com ele.

 

Helenice Viana: Há distorções na imprensa sobre a definição de liberdade de imprensa?

Claudia Santiago Giannotti: Sim. E novamente volto a citar meu mestre Venício Lima, que diz que há uma confusão deliberada entre os dois conceitos. Liberdade de expressão (speech) é uma liberdade fundamental do indivíduo. Liberdade de imprensa é a liberdade de propiciar relatos fiéis e exatos, separando notícias (reportagens objetivas) das opiniões (que deveriam ser restritas às páginas de opinião), como dito a acima. Propositadamente, os meios de comunicação associam qualquer forma de verificação se a mídia está ou não cumprindo este papel, como censura.

Helenice Viana: A grande mídia tem influenciado as decisões políticas e econômicas no Brasil?

Claudia Santiago Giannotti: Sem dúvida. O editorial online publicado pelo jornal O Globo, às 14h41, no dia 23 de maio, após o vazamento de uma conversa entre dois políticos do PMDB que explicitava o golpe contra a presidenta Dilma, foi claramente um aviso. Tirem o Romero Jucá ou vocês vão perder nosso apoio. E assim tem sido sempre. A mídia tenta forçar os governos a implementarem a sua pauta política e econômica. Se os governos fazem isso, eles aplaudem; se não fazem todos os expedientes são usados para derrubá-los.

Helenice Viana: Se sim, qual o seu interesse ao exercer essa influência?

Claudia Santiago Giannotti: Os interesses são econômicos. Puramente econômicos. Só que a economia ainda depende em certo grau da política para se realizar. Então os meios de comunicação pressionam os políticos. E esses interesses já estão colocados para nós há 20 anos. É a diminuição do papel do Estado, a privatização das estatais, a privatização dos serviços públicos como saúde e educação. É a entrega das riquezas do Brasil à livre exploração internacional, como é o caso do pré-sal.

 Helenice Viana: A forma como a imprensa e a mídia têm se comportado traz prejuízos para a sociedade brasileira?

Claudia Santiago Giannotti: Sim, porque eles não defendem os interesses da nação. E muito menos do povo brasileiro. Fazem parte da elite econômica do país e defendem os interesses deste grupo, aliados aos conglomerados internacionais, empresas petrolíferas, bancos, indústria do entretenimento.

Helenice Viana: A imprensa e a mídia hegemônicas têm sido aliadas ou adversárias da classe trabalhadora?

Claudia Santiago Giannotti: Os grandes meios de comunicação deveriam ser aliados dos trabalhadores, na medida em que deveriam defender os interesses da sociedade. Caso distribuíssem amplamente o maior número de informações possíveis, os trabalhadores seriam beneficiados porque teriam acesso aos motivos que levam às tomadas de decisões que definem os destinos do país. Também porque teriam suas reivindicações ampliadas com seriedade para toda a sociedade, mas nada disso acontece. Então aos trabalhadores cabe a tarefa de produzir a sua própria mídia.

Helenice Viana: É possível controlar a forma como a grande mídia e a imprensa se comportam ou isso, como é dito, seria censura?

Claudia Santiago Giannotti: O Movimento pela democratização da comunicação defende um marco regulatório amplo que contemple as novidades que a tecnologia digital trouxe, que proíba a propriedade cruzada, que garanta o direito de resposta, que regule as concessões de radiodifusão impedindo o vínculo com políticos profissionais, que promova as rádios e TV comunitárias, que garanta a complementaridade dos sistemas público, privado e estatal, dentre outros pontos.

Helenice Viana: Como os trabalhadores podem se contrapor a essa grande mídia?

Claudia Santiago Giannotti: Lutando para que se implementem as questões levantadas pelo movimento pela democratização da Comunicação e fazendo a sua própria comunicação.

Helenice Viana: No mês de junho, celebramos o Dia da Imprensa (1º/06), o Dia da Liberdade de Imprensa (07/06) e o Dia da Mídia (21/06). Você acha que a sociedade brasileira deveria comemorar essas datas?

Claudia Santiago Giannotti: Meu Deus, que pergunta difícil. Estou muito envergonhada com o papel que a mídia brasileira cumpriu e vem cumprindo no caso do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Com extrema hipocrisia e cinismo eles mentem, omitem, difamam, escondem os fatos. Mas, ao mesmo tempo jornalistas corajosos cumprem papel fundamental na denúncia do golpe, seja na mídia internacional seja nas redes sociais.  Então eu separa a mídia deles, dos patrões; e a nossa mídia, dos trabalhadores. Vamos comemorar a liberdade de expressão, a pluralidade de ideias. Façamos o seguinte, vamos celebrar as inúmeras possibilidades que a imprensa nos permite na construção de uma vida justa e igualitária.

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