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O império colhe a tempestade do jihadismo

23.08.2014 | Fonte de informações:

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A ascensão do Califato Islâmico no Iraque e na Síria desmontou o roteiro das políticas de guerras por procuração dos EUA na região, e pode acabar por derrubar as monarquias do petróleo cuja sobrevivência é indispensável à hegemonia dos EUA no mundo.

 13/8/2014, Glen Ford, Black Agenda Report - http://www.blackagendareport.com/ 


O problema é que os procuradores-fantoches do Pentágono estão evaporando.


No nível de coturnos em solo, a estratégia imperial por procuração já entrou em colapso, com a desintegração da (sempre efêmera) oposição armada 'moderada' ao governo sírio e a defecção para as hostes do Califato de combatentes sunitas que os EUA cevaram no Iraque.


Os 500 milhões que o presidente Obama requereu para usar contra a Síria já viraram pó, depois das espantosas vitórias políticas e militares do Califato; não há dinheiro que crie um exército, se à volta só há fantasmas. Os insurgentes sírios mais ativos já voaram para o autoproclamado Estado Islâmico, antes chamado ISIL, cujo líder, Abu Bakr al-Baghdadi, mandou recado a Washington: "Fiquem sabendo, defensores da cruz, que mandar outros lutarem por vocês de nada lhes serviu na Síria e de nada lhes servirá no Iraque."


A imprensa-empresa corporativa norte-americana interessou-se mais por outras partes da mensagem de al-Baghdadi, na qual avisava Washington de que "antes do que esperam, vocês estarão, vocês mesmos, em confronto direto - forçados a lutar - se Deus quiser. E os filhos do Islã já se prepararam para esse dia. Portanto, aguardem, que nós também estaremos à espera." Para os norte-americanos mais obcecados com a própria segurança, foi como uma ameaça de ataque direto à "pátria-mãe". Mas o centro de Manhattan não está no mapa do líder do Califato. Al-Baghdadi referia-se à evidência de que a estratégia de os EUA financiarem fantoches muçulmanos para combater nas guerras do imperialismo está morta, e que, em breve, o Pentágono terá de fazer ele mesmo o seu serviço sujo, metido no uniforme de 'Cruzado'.


Nessa linha que o Califato denuncia, os EUA estão mandando mais centenas de agentes "não combatentes" para o norte do Iraque - como se Marines e Forças Especiais não fossem soldados combatentes - para somarem-se aos mil e tantos elementos militares e de segurança dos EUA que, pelas contas oficiais divulgadas, já estão lá. Ao contrário de que muitos na esquerda norte-americana acreditam, os políticos e estrategistas dos EUA não morrem de desejo de mandar grandes legiões norte-americanas para terras árabes (curdos não são árabes), porque a presença de soldados norte-americanos é extremamente contraproducente. O problema é que os procuradores-fantoches do Pentágono estão evaporando, estão em fuga desabalada ou - no caso do Iraque árabe - confiam cada vez mais no Irã e (quem poderia prever?!) na Rússia, que colaboram para reconstituir a força aérea iraquiana.


O centro de Manhattan não está no mapa do líder do Califato.
Parte da esquerda nos EUA imagina até que Washington teria alcançado alguma espécie de vitória, com a iminente saída do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, o veterano serviçal dos EUA. Mas a saída de Maliki também foi apoiada pelo Irã, pelo grande aiatolá do Iraque Ali al-Husayni al-Sistani (que mobilizou milhões exigindo o fim da ocupação dos EUA), por Muqtada al-Sadr (cuja milícia já combateu duas guerras contra a ocupação) e até por grande parte do próprio partido Dawa, de Maliki. 


Só os curdos permanecem na gaveta de Washington e de Israel - e também essa questão de conveniência pode mudar, conformem mudem os arranjos em torno do Curdistão.


Mas essa região, quero dizer, essa grande vizinhança mais ampla, inclui Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes, Turquia e Jordânia. Al-Baghdadi do Califato mandou recado-resposta para eles, seus financiadores anteriores, no final de junho: "A legalidade de todos os emirados, grupos, estados e organizações torna-se nula pela expansão da autoridade do califa e a chegada de suas tropas àquelas áreas." Milhares de combatentes do Estado Islâmico - e, igualmente decisivamente importante, a sua visão de mundo wahhabista fundamentalista - são indígenas, nativos da península árabe. Por isso o jornalista Patrick Cockburn, em seu novo livro, do qual Counterpunch publicou um capítulo [em tradução] diz que "Para EUA, Grã-Bretanha e potências ocidentais, a ascensão do ISIL e do Califato é a pior das calamidades (...)"


As vitórias do Califato ressoam muito além da população árabe sunita de Iraque e Síria. A legitimidade política da Arábia Saudita repousa no papel que o reino tem, como protetor dos locais sagrados de Meca e Medina - e da Religião Antiga. Mas essa família real, como o resto dos potentatos hereditários da região, está corroída e infinitamente corrompida pela riqueza. Os sauditas (e em modalidade não menos letal, também os Qataris) exportam Jihad contra os xiitas e os secularistas, sempre na esperança de controlar a Jihad dentro de casa. O Califato levou a ideologia até a sua mais lógica e aterradora conclusão, e atreve-se a desafiar a legitimidade dos antigos fundadores, hoje declarados aliados do "Cruzado". 


Nas palavras do próprio Cockburn:
"A ressurgência de grupos de tipo al-Qa'eda não é ameaça limitada à Síria, Iraque e seus vizinhos. O que está acontecendo naqueles países, combinado com a intolerância cada dia mais dominante e as crenças exclusivistas do wahhabismo dentro da comunidade sunita mundial, implica que todos os 1,6 bilhão de de muçulmanos, quase um quarto da população do planeta, serão cada dia mais afetados. Além disso, parece pouco provável que população de não muçulmanos, inclusive muitos no ocidente, permaneçam sem ser tocadas pelo conflito. O jihadismo que vemos ressurgir hoje, que já mudou o terreno político no Iraque e na Síria, já está tendo efeitos de longo alcance sobre a política global, com consequências terríveis para nós todos."


Todos os 1,6 bilhão de muçulmanos, quase um quarto da população do planeta, serão cada dia mais afetados.


As consequências são, é claro, piores para aqueles muçulmanos (que incluem, mas não se limitam aos xiitas) rotulados de heréticos pelos takfiris do Califato em expansão, e por todas as minorias religiosas e forças seculares dentro de cada setor. Mas as galinhas salafistas estão já começando a voltar para seus poleiros nativos da península - motivo pelo qual os sauditas estão até hoje, tentando freneticamente re-enfiar para dentro da garrafa o gênio jihadista. Nas palavras de Cockburn, "Com medo do que ajudaram a criar, os sauditas agora tentam freneticamente remar na direção oposta, prendendo voluntários jihadi, em vez de fingir que não viam quando embarcavam para Síria e Iraque; mas pode já ser tarde demais."
É com certeza tarde demais para os EUA tentarem salvar um elemento criticamente decisivo de sua política externa para o mundo muçulmano: a guerra por procuração. Foi percurso longo e sangrento desde quando, no final dos anos 1970s, a CIA, a Arábia Saudita e o Paquistão inventaram a rede jihadista global, praticamente criada do nada, para que acertassem um direto no olho dos soviéticos no Afeganistão. Os islamistas forneceram toda a infantaria - 'coturnos em solo', como se diz hoje - de que a própria jihad imperial dos EUA tanto precisava em terras muçulmanas.


Em 2011, quando jihadistas partiram em apoio dos levantes populares na Tunísia e no Egito, a matilha imperial entrou em pânico. Os EUA e seus aliados na OTAN montaram monstruoso assalto contra a Líbia - uma espécie de 'Choque e Pavor' -, assegurando cobertura aérea para um exército de jihadistas amplamente financiado pelas monarquias árabes do petróleo. Quando o golpe de mudança de regime afinal se completou, os milicianos líbios uniram-se aos camaradas salafistas para saquear a Síria, saque que ainda está em  andamento.


Hoje, com a Líbia em absoluto caos, e com o governo Assad ainda firme na Síria, o Califato declarou-se independente dos padrinhos ocidentais e monárquicos - precisamente o que esse nosso Black Agenda Report (BAR) previra há três anos.


O imperialismo libertou sobre o mundo uma praga que - antes do que se suspeita - consumirá os reis, os emires e os sultões dos quais os EUA dependem para manter seguro seu império de petróleo. O trote do declínio do império acelerou-se. *****

 
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