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Trump : o negócio em vez da guerra

20.02.2017 | Fonte de informações:

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Trump : o negócio em vez da guerra

Thierry Meyssan convida-nos a analisar Donald Trump sem o julgar pelos critérios dos seus predecessores, antes tentando compreender a sua própria lógica. Ele observa que o Presidente norte-americano tenta restaurar a paz e relançar o comércio mundial mas sobre uma base nova, totalmente diferente da actual globalização.

Thierry Meyssan

 

Buscando derrubar o poder que o precedeu e que tenta manter-se apesar dele, o Presidente Trump não pôde compor a sua administração apoiando-se. para isso, na classe política ou sobre os altos funcionários. Solicitou, pois, outras pessoas, empreendedores como ele, apesar do risco que esta confusão de géneros comporta.

De acordo com a ideologia puritana, em voga depois da dissolução da União Soviética, confundir a política de um Estado e os seus negócios pessoais é um crime; razão pela qual se instaurou uma estrita separação entre estes dois mundos. Pelo contrário, durante os séculos passados não se abordava a política sob um ângulo moral, mas sob o da eficácia. Considerava-se então normal associar empreendedores à política. Não se qualificava o seu enriquecimento pessoal de «corrupção» senão quando eles se enchiam em detrimento da Nação, e não quando a desenvolviam.

No concernente às suas relações com os dois Grandes, o Presidente Trump aborda a Rússia no plano político e a China no plano comercial. Ele apoia-se assim em Rex Tillerson (antigo patrão da ExxonMobil), um amigo pessoal de Vladimir Putin, para Secretário de Estado; e em Stephen Schwarzman (o patrão da sociedade de capital-investimento Blackstone), um amigo pessoal do presidente Xi Jinping, como presidente do novo órgão consultivo encarregue de propôr a nova política comercial: o Fórum Estratégico e Político (Strategy and Policy Forum) que foi inaugurado pelo Presidente Trump, a 3 de Fevereiro na Casa Branca [1]. Tal Fórum reune 19 empreendedores do mais alto nível. Contrariamente às práticas precedentes, estes conselheiros não foram escolhidos sob o critério de saber se tinham apoiado ou não o Presidente durante a sua campanha eleitoral, nem em função das empresas que dirigem, do seu tamanho e da sua influência, mas, antes, das suas capacidades pessoais para liderar.

Rex Tillerson

Enquanto director da ExxonMobil, Rex Tillerson concebeu uma forma de parceria com os seus homólogos russos. A Gazprom e, depois, a Rosneft autorizaram os Norte-americanos a vir trabalhar com eles, na Rússia, na condição de que estes os autorizassem a cooperar com eles em outros lados. Os Russos investiram assim, em cerca de um terço, nas operações da ExxonMobil do Golfo do México, enquanto a multinacional participou nas sondagens do gigantesco campo de hidrocarbonetos no Mar de Kara [2].

É este sucesso partilhado que fez Rex Tillerson receber a Medalha da Amizade das mãos do Presidente Vladimir Putin.

A imprensa destacou os laços pessoais que ele desenvolveu com o presidente russo, assim como com Igor Sechin, o seu homem de confiança.

À cabeça da ExxonMobil, ele enfrentou a família Rockefeller, fundadora da empresa. No fim, ele impôs o seu ponto de vista e os Rockefeller começaram a vender as suas ações tendo em vista deixar a companhia [3].

Segundo os Rockefeller, o petróleo e o gás são recursos finitos que em breve chegarão ao fim (a teoria vulgarizada nos anos 70 pelo Clube de Roma). A sua utilização liberta carbono para a atmosfera e provoca, assim, o aquecimento climático (teoria popularizado nos anos 2000 pelo GIEC e por Al Gore) [4]. É hora de mudar para fontes de energia renováveis. Pelo contrário, segundo Rex Tillerson, nada permite validar a ideia de que os hidrocarbonetos são um espécie de composto de resíduos orgânicos. Não pára de se descobrir novas jazidas em zonas desprovidas de rochas-fonte e a profundidades cada vez maiores. Nada prova que os hidrocarbonetos vão esgotar nos próximos séculos. Nada prova, ainda mais, que o carbono libertado pelo homem para a atmosfera seja a causa das evoluções climáticas. Neste debate, cada um dos campos financiou um intenso lóbing [5].

Ora, os dois campos defendem, além disso, posições diametralmente opostas em política externa. É por isso que a luta entre os Rockefeller e Tillerson certamente teve um impacto na política internacional. Assim, em 2005, os Rockefeller aconselharam o Catar -cujas receitas provêm da ExxonMobil- a apoiar os Irmãos Muçulmanos, depois, em 2011, a investir na guerra contra a Síria. O emirado aí derramou dezenas de milhares de milhões(bilhões-br) de dólares para apoiar os grupos jiadistas. Ao contrário, Tillerson considerou que se a guerra clandestina é boa para a política imperial, ela não faz avançar os negócios. Após a derrota dos Rockefeller, o Catar retira-se progressivamente da guerra e consagra as seus gastos à preparação do Mundial de Futebol (Copa do Mundo-br).

Seja como fôr, de momento, a Administração Trump não tomou nenhuma decisão face à Rússia, além da revogação das sanções tomadas em resposta a uma, suposta, ingerência russa na campanha eleitoral presidencial que teria sido observada pela CIA.

Stephen Schwarzman

O Presidente Trump primeiro chocou a China Popular ao aceitar uma chamada telefónica da Presidente de Taïwan, apesar do principio «Uma China, dois sistemas». Depois desculpou-se junto de Xi desejando-lhe calorosamente «Bom Ano do Galo de Fogo».

Simultaneamente, concedeu-lhe um presente sumptuoso anulando o Tratado Trans-Pacífico. Este acordo, que ainda não tinha sido assinado, fora concebido como a resultante da globalização dos últimos quinze anos para excluir a China do poder de decisão.

O Presidente Trump abriu um canal de negociação com as principais autoridades comerciais e financeiras chinesas, através dos membros do seu Fórum Estratégico e Político. A empresa de Stephen Schwarzman, Blackstone, é detida desde 2007 em cerca de 9,3% pelo fundo soberano da República Popular, a China Investment Corp. [6], cujo director à época, Lou Jiwei, é hoje em dia ministro das Finanças do seu país.

Schwarzman faz parte do Conselho Consultivo da Escola de Economia e de Gestão da Universidade de Tsinghua [7]. Ora, este Conselho, colocado sob a presidência do antigo Primeiro-ministro Zhu Rongji, reúne personalidades chinesas e ocidentais das mais importantes. Entre elas: Mary Barra da General Motors, Jamie Dimon do JPMorgan Chase, Doug McMillon da Wal-Mart Stores, Elon Musk da Tesla Motors e Indra K. Nooyi da PepsiCo, os quais também são membros do novo Fórum Estratégico e Político da Casa Branca.

Num artigo precedente, eu indiquei que desde o seu encontro com Jack Ma, da Alibaba (também membro do Conselho Consultivo da Universidade de Tsinghua), Donald Trump está considerando a possível adesão ao Banco Asiático de Investimento para as Infra-estruturas. Se tal se viesse a dar, os Estados Unidos deixariam de conter a China e se envolveriam numa verdadeira cooperação para desenvolver as «Rotas das Seda», tornando, assim, inúteis os conflitos na Ucrânia e na Síria [8].

A cooperação pelo comércio

Após a dissolução da URSS, a política dos Estados Unidos era guiada pela «doutrina Wolfowitz». Para fazer do seu país «o primeiro», as sucessivas administrações não hesitaram em desencadear, conscientemente, uma quantidade de guerras que os empobreceram [9].

Bem entendido, este empobrecimento não tocou a todos. Assistiu-se, pois, a um conflito interno no capitalismo entre as sociedades com interesse na guerra (diga-se a BAE, Caterpillar, KKR, LafargeHolcim, Lockheed Martin, Raytheon, etc.) e as que têm um interesse na paz.

A Administração Trump pretende relançar o desenvolvimento do país rompendo com o ideal «do primeiro» e tornando-se «o melhor». Isso pressupõe agir rápido. Levará anos para abrir as Rotas da Seda, mesmo se a sua construção está bem encaminhada. Por conseguinte, os Estados Unidos não têm tempo para renegociar os grandes Tratados comerciais multilaterais actuais. Eles têm de concluir sem demora acordos bilaterais de modo a que os contratos sejam imediatamente implementados.

Sabendo da extrema dificuldade em reconverter uma economia de guerra numa economia de paz, Donald Trump associou ao seu Fórum Estratégico e Político um empreendedor de uma das sociedades capaz de desenvolver-se tanto em tempo de paz como no de guerra: Jim McNerney (Boeing).

Thierry Meyssan

Tradução 
Alva

Fonte : "Trump : o negócio em vez da guerra", Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 15 de Fevereiro de 2017, www.voltairenet.org/article195287.html

 

 
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