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O Ultimato da Arrogância

18.03.2003 | Fonte de informações:

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O ultimato entregue pelo Presidente George Bush ao Presidente Saddam Hussein hoje é um acto de incrível arrogância que só esta administração ousaria perpetrar.

O Presidente Saddam Hussein é o Presidente do Iraque, constituído legalmente de acordo com as normas do seu país. É no Iraque onde o presidente e o modelo de governo são escolhidos, não em Washington nem em Texas. O ultimato, que dá um prazo de 48 horas para Saddam Hussein e os seus familiares mais próximos deixarem o país, foi recebido com tristeza em Moscovo, um sentimento já comunicado a George Bush por Vladimir Putin.

Embora não surpreende ninguém que esta administração em Washington possa decidir na mudança dum regime para ir ao encontro dos seus interesses geo-estratégicos e depois prosseguir uma linha de acção que contraria o direito internacional e que destrói a credibilidade das Nações Unidas, é o início dum erro gravíssimo.

Num instante, Washington consegue destruir a boa vontade internacional que seguiu aos horrores do 11 de Setembro, tornando-se num estado que perpetra actos de terrorismo: um acto bélico fora da autoridade da ONU é ilegal porque as resoluções 678, 687 e 1441 requerem uma segunda resolução que autorize o uso de força. Washington decidiu não pedir esta resolução porque sabia que nunca iria conseguir o consenso de 9 votos a favor da sua proposta e sabia que teria de encarar o uso do veto por França e pela Federação Russa.

Em vez de escutar a opinião pública mundial, a administração Bush continuou cegamente, instigado pelo protagonista britânico, Anthony Blair. Num instante, Washington destrói a noção de que a ONU é qualquer coisa mais do que uma instituição global de caridade e num instante, a administração Bush reacendeu o ódio anti-americano (que é errado, porque os “americanos” são tantos indivíduos).

Num instante, a administração Bush dá a luz verde para todos os aspirantes a terroristas que seguem a linha “vamos lá tentar” porque países como o Irão, a Síria e a Líbia sabem que estão na lista negra, para não mencionar os países da Ásia Central e quem sabe, no médio prazo, até a Sibéria?

Os pretextos serão talhados à necessidade da época. Que o George Bush não consegue pronunciar a palavra “dictator” correctamente em inglês, pondo o acento tónico na primeira sílaba e não a segunda, deve-se sem dúvida ao facto que é o Dick (Cheney) a gerir o circo. Porém, se o Saddam Hussein é ditator ou não, pouco importa. Washington, ou seja o grupo de pressão liderado por Cheney, teve óptimas relações com a Indonésia de Suharto, que massacrou centenas de milhares de pessoas. General Wiranto, o Chefe das Forças Armadas da Indonésia, até tinha uma reunião semanal com agentes da CIA, durante os anos 1990. O que importa nesta questão é o facto de Washington querer punir o Iraque por ter adoptado o Euro como moeda de troca em Novembro de 2000, um acto que poderia ser ruinoso para a economia dos EUA.

Washington desta vez falhou rotundamente na sua interpretação do clima internacional, indo longe demais e depressa demais depois da onda de simpatia que seguiu ao 11 de Setembro, quando o mundo ficou sem falar enquanto a aliança EUA/Reino Unido atacou o Afeganistão, também fora da autoridade da ONU mas sob o pretexto que o Afeganistão tinha violado o direito internacional por abrigar terroristas, que por sua vez tinham perpetrados actos de bárbaras proporções.

Não foi um acto de auto-defesa, foi um acto de retaliação, que não está coberta por qualquer Estatuto da ONU, porém, o clima na altura estava favorável ou pelo menos neutro, no evento.

Convencido que o mundo iria engolir a lenda ligando Saddam Hussein ao terrorismo, que nunca foi provado porque simplesmente não é verdade, Washington seguiu a sua linha de acção, em primeiro lugar pedindo um recomeço das inspecções, nunca imaginando que o Iraque iria permiti-las, e Saddam as permitiu. Quase se ouvia as palavras “E agora?” no silêncio que rodeou de repente a Casa Branca e o Pentágono. Imaginando que, porque ninguém se tinha queixado sobre o ataque contra o Afeganistão, onde o regime dos Talebã ganharam poucos amigos, a mesma reacção firmar-se-ia enquanto Washington usasse uma mistura de chantagem e força bruta no prosseguimento do seu objectivo de se apoderar dos 10.7% dos recursos mundiais de petróleo que o Iraque detém. Agora George Bush repara que ultrapassou o ponto de retorno e que está prestes a cometer o maior erro que qualquer presidente na história do seu país alguma vez cometeu.

Por enquanto, só se ouve mensagens de choque e horror, exprimidas e escondidas na língua “diplomês”: “lamentamos”, “estamos preocupados”, até “seriamente”. Estas expressões infelizmente irão cristalizar-se nas mentes de inúmeras milhões de pessoas a volta do globo que são agora os novos inimigos de Washington, em imagens de retaliação.

Nas mentes da maioria, a noção que os terroristas são fanáticos loucos se desvanece e fica a ideia de que estão a lutar desesperadamente pela sua liberdade contra o opressor. A noção que os EUA é um país que respeita o direito e a democracia se desfaz, porque este país desrespeita totalmente o direito internacional e os seus métodos no Conselho de Segurança na ONU mais parecem chantagem do que democracia.

Esta administração iniciou um ciclo perigosíssimo de eventos que infelizmente irá causar o massacre de centenas de milhar de cidadãos inocentes pelo mundo fora, num espiral de violência sem precedentes que irá durar por muitos anos.

Os Estados Unidos da América, atacando o Iraque fora da autoridade da ONU, está a cometer um acto ilegal de guerra. George Bush está prestes a cometer crimes de guerra. Ele pode escapar o indiciamento no Tribunal Penal Internacional porque o seu país não ratificou o acto reconhecendo este tribunal mas quem não irá escapar é Tony Blair e os que o apoiam neste acto ilegal. Estes, sim, irão ser indiciados e levados a este tribunal.

Que comentário deprimente sobre o estado colectivo da Humanidade, que o único fórum para a discussão é violado só porque não iria votar a favor das ambições unilaterais de Washington.

Timothy BANCROFT-HINCHEY PRAVDA.Ru

 
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