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A Grande Guerra da Pátria II

10.05.2005 | Fonte de informações:

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A União Soviética foi a principal responsável pela derrota do nazismo na Europa, apesar de quase ter sido derrotada por Hitler. Se a URSS tivesse sido conquistada, a Alemanha teria acesso a imensos territórios e recursos naturais (que eram as suas principais limitações), o que a tornaria invencível. Além disso, os maiores e mais decisivos combates ocorreram no fronte oriental: as imensas batalhas de Stalingrad e Kursk fazem com que a invasão da Normandia e a batalha do Bulge pareçam pequenos conflitos de pouca importância no curso da guerra.

Iosif Vissarionovitch Djugashvili (mais conhecido como Stalin) habilmente usou a vitória soviética como auto-propaganda, mostrando a si mesmo como um líder genial que soube conduzir seu povo à vitória. Esta é uma das principais características da ditadura stalinista: o culto à personalidade, que o mostra como um ser iluminado que controla todas as esferas do país (e não apenas as que se referem à administração do estado).

Stalin gostava de imiscuir-se em várias setores. Impunha suas idéias sobre estratégia, embora não tivesse formação ou experiência militar; dava sugestões sobre novos projetos de aviões e tanques, mas não era engenheiro; acusava várias obras do compositor Shostakovitch e do cineasta Eisenstein de serem contrárias ao “realismo socialista”, conquanto não fosse artista; criticava as pesquisas genéticas de Vavilov, considerando-as contrárias ao materialismo histórico, porém ele não era nem biólogo nem especialista em filosofia marxista. Seu governo, que procurava entrar e controlar toda os aspectos da vida de seus cidadãos, é uma das expressões máximas do totalitarismo.

Stalin não tem nenhum mérito na vitória soviética na Segunda Guerra Mundial. Pelo contrário, quase tudo o que ele fez foi causar problemas, com suas intromissões. Se não fosse por ele, a vitória soviética teria sido muito mais rápida e fácil. Enumeraremos seus principais erros na condução da guerra.

Na década de 30, Stalin começou a eliminar todos aqueles que pudessem ameaçar seu poder absoluto sobre a União Soviética. Quase toda a antiga liderança do partido comunista foi eliminada ­– inclusive Trotski, que se encontrava no México, foi assassinado. Os expurgos stalinistas não vitimaram apenas a liderança política, mas também a militar: oficiais experientes, que haviam participado da Primeira Guerra Mundial e da guerra civil do lado bolchevique, também foram exterminados. E esses oficiais fizeram muita falta à URSS quando do ataque nazista em 1941.

O caso mais emblemático é o do marechal Mikhail Tukhatchevski. Ele foi oficial da Rússia tsarista na Primeira Guerra Mundial, e depois da revolução de 1917 passou para o lado dos bolcheviques. Ele foi o líder militar que, junto com a liderança política de Trotski, transformou um grupo de campesinos e operários no vitorioso Exército Vermelho, que derrotou as forças pró-tsaristas na guerra civil e expulsou os exércitos estrangeiros que tentaram derrubar a jovem Rússia Soviética. Na década de 30, ele escreveu importantes livros sobre estratégia, onde recomendava o uso em larga escala da aviação e de veículos blindados em uma guerra móvel e rápida: conceito que depois se tornaria famoso com o nome de “Blitzkrieg” (guerra relâmpago), amplamente usado pelas tropas nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Porém, dada a sua antiga ligação com Trotski, sua popularidade e suas idéias sobre estratégia (que entravam em conflito com as de Stalin, que achava que as guerras ainda seriam de trincheiras, como a Primeira Guerra Mundial), Tukhatchevski foi injustamente acusado de conspirar com a Alemanha, e morto em 1937. Um marechal com ampla experiência e conhecimentos sobre as novas táticas seria essencial para liderar as forças soviéticas contra os nazistas, e seria considerada por qualquer governante sensato como um chefe militar insubstituível.

Além disso, os expurgos stalinistas também atingiram cientistas, engenheiros e técnicos que desenvolviam novos armamentos para as forças soviéticas. Stalin valorizava os recursos intelectuais do país, e por isso não chegou a matá-los, mas prendeu muitos deles também com base em acusações falsas. Por isso, vários programas estavam atrasados, outro fator que deixou a URSS despreparada diante das forças armadas alemãs, na época as mais modernas do mundo.

Por fim, Stalin ignorou as informações passadas por Richard Sorge, espião alemão a serviço da União Soviética, consideradas como o maior golpe de espionagem de todos os tempos. Sorge era um jornalista alemão, comunista, que, depois da ascensão de Hitler, alistou-se no partido nazista apenas para conseguir a confiança das autoridades, e foi enviado como funcionário da embaixada alemã em Tóquio. Como aliado dos alemães, os japoneses receberam os dados completos sobre a Operação Barbarossa – a invasão nazista da URSS. Richard Sorge teve acesso aos planos, e conseguiu passá-los à União Soviética, mas foi em vão. Stalin confiava no pacto de não-agressão firmado com a Alemanha em 1939, e acreditava que seria o Japão que atacaria a URSS.

Havia outras indicações do iminente ataque nazista – além dos dados passados por Sorge, os soviéticos também sabiam da grande concentração de tropas e armamentos alemães próximos à fronteira (como a Alemanha havia ocupado a Polônia em 1939, na época ela tinha fronteiras com a União Soviética). Mas Stalin ignorou tudo isso, e manteve a maioria de suas tropas no Extremo Oriente, aguardando uma invasão japonesa que nunca aconteceu. Quando Hitler atacou no dia 22 de junho de 1941, exatamente como Sorge havia avisado, basicamente o que as tropas alemãs tiveram que fazer foi matar policiais de fronteira e destruir aviões estacionados em seus aeroportos - as forças soviéticas estavam completamente desprevenidas.

Os japoneses começaram a desconfiar de Sorge, e no final de 1941 o prenderam. Stalin recusou-se a negociar uma troca de prisioneiros para conseguir a libertação do espião, e Sorge foi enforcado em 1944. O espião, que prestou um imenso serviço à URSS que lhe custou a vida, nunca recebeu nenhum tipo de reconhecimento, pois isso equivaleria a admitir o erro de Stalin ao ignorar as informações. Apenas em 1964, depois de Khruschov haver denunciado o stalinismo, Sorge recebeu postumamente a medalha de Herói da União Soviética.

Todos esses erros não impediram que a União Soviética ganhasse a Segunda Guerra Mundial, mas implicaram em um imenso sacrifício de vidas. É impossível calcular o número de mortos soviéticos na Segunda Guerra Mundial, mas sabe-se que foi entre 20 a 27 milhões de pessoas. Nenhum país jamais perdeu tantas vidas em uma guerra.

Se não fosse por Stalin, se o país fosse governado por qualquer outro líder minimamente sensato, a URSS teria forças armadas modernas e preparadas, comandadas por oficiais experientes e conhecedores das novas táticas, e estaria preparada para o ataque. Sem dúvida, tudo isso faria com que a URSS (um país muito maior e mais rico que a Alemanha) pudesse derrotar os nazistas mais rapidamente e, o mais importante de tudo, com menor perda de vidas. A vitória se deve unicamente ao empenho e sacrifício dos povos da URSS, e não à liderança equivocada e tacanha de Stalin.

Carlo MOIANA Pravda.ru Buenos Aires

 
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