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A Dupla Dinâmica

28.03.2003 | Fonte de informações:

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George W. Bush e Tony Blair são homens confiantes. O seu plano relâmpago para derrotar o “regime de Saddam” falhou rotundamente, o avanço sobre Bagdade prossegue a passo de caracol, foram assassinados centenas de civis pelas suas forças militares e o crescente clima de horror a volta do mundo por causa das suas acções se torna um clamor ensurdecedor para que parem. Cegos na sua arrogância, continuam como se nada tivesse acontecido.

Bush e Blair apresentam uma série de razões para explicar porque eles estão certos e o resto do mundo, errado. Tentam dizer que há uma coligação internacional de trinta e tal países que apoia esta violação da lei internacional, este ataque ilegal contra uma nação soberana. Se pagar a prostituta o que ela pede, faz tudo, e mais uma coisa.

Começaram a dizer que o Iraque tinha desrespeitado as resoluções da ONU por não deixar que as equipas de inspecção entrassem no país para procurar o que eles afirmarem ser quantidades enormes de Armas de Destruição Maciça. O Iraque respondeu por deixar entrar os inspetores e não encontraram nada. Muito do material biológico que o Iraque tinha, era duma duração de vida muito curta e se o Iraque tivesse armas químicas, os EUA, em especial, nunca teria atacado. Pois, afinal este é um país cuja regra número um é nunca entrar numa guerra a não ser que se tenha uma superioridade total do tipo mil homens armados até os dentes contra um rapaz de quinze anos, descalço, armado com uma fisga. A regra número dois é pedir aos britânicos que efectuem os vôos de baixa altitude e de alto risco.

As equipas da UNMOVIC e da IAEA estavam a fazer bom progresso no seu trabalho, num clima de crescente cooperação com as autoridades de Bagdade. Não encontraram nada. A coligação também não.

O povo iraquiano era suposto estar subjugado por um tirano. Era suposto sublevar-se e dar as boas-vindas aos seus libertadores norte-americanos. Bom material para consumo interno nos EUA mas a democracia baseia-se em diálogo, discussão de ideias e debate. Infelizmente, estes são conceitos totalmente fora da compreensão desta administração odiosa de Bush.

A atitude no edifício da ONU em Nova Iorque há muito tempo tem sido a da lei da selva e chantagem. Quando os membros do Conselho de Segurança da ONU recebem um convite para um “pequeno-almoço de negócios”, não é para saborear o café ou comer o pão com manteiga.

A região geográfica do Golfo não usa o modelo ocidental de democracia, ponto final. O regime saudita, os grandes amigos de Washington, não foi eleito democraticamente, nem o de Kuwait, apesar das promessas de George S. Bush, que os EUA iriam trabalhar para garantir um Kuwait democrático (alguém se lembra?)

Se fosse o “Saddam” o tirano, se fosse o demónio que é suposto ser, como é que Bush e Blair podem explicar o facto que há milhares, não centenas, de iraquianos que querem entrar no seu país para combater os americanos e defender o seu presidente? Como é que Bush e Blair explicam o facto que o Sul Xi’ita do Iraque não se levantou contra o regime? A cámera não mente. O povo iraquiano apoia o seu Presidente de viva voz.

Bush e Blair culpam o “Saddam” por ter iniciado esta guerra. O termo “Saddam” é derrogatório, outra acha na fogueira de demonologia, mais um elemento de “operações psicológicas” contra o regime que teimou em defender os seus recursos contra os abutres estrangeiros. É este o grande crime do “Saddam”. Ou se refere a ele como Sua Excelência o Presidente Saddam Hussein do Iraque ou então se refere a George W. Bush como “Jorginho” e o Primeiro Ministro do Reino Unido como “Tonito”.

A ver se gostam...Jorginho e Tonito culpam a Sua Excelência o Presidente Saddam Hussein do Iraque por iniciar esta guerra porque ele poderia ter destruído o seu armamento. Porém, Bagdade afirma que não tem este armamento e até hoje, onde está? Jorginho e Tonito afirmam que a Sua Excelência o Presidente Saddam Hussein do Iraque poderia ter abandonado o seu país. É risível a arrogância. Contudo, a administração Bush foi suficientemente estúpido em dizer que mesmo que a Sua Excelência o Presidente Saddam Hussein do Iraque tivesse abandonado o país, invadiriam na mesma, assim dando um tiro no pé do seu argumento.

Bush e Blair dizem que vão ajudar o povo empobrecido que tanto sofreu sob o regime Ba’ath. Sofreu tanto por causa dos 12 anos de sanções mantidas pela ONU, estrangulada por Washington e a dívida deste à Organização. Bush e Blair dizem que vão reconstruir o Iraque...depois de o ter destruído.

Bush e Blair falam de violações da ONU e de crimes de guerra. Se o CNN e o BBC podem mostrar imagens dos prisioneiros de guerra iraquianos, porquê não pode a TV Estatal iraquiana mostrar as imagens dos soldados da coligação capturados? Se o CNN e BBC podem mostrar imagens dos soldados iraquianos mortos em batalha, porquê é que o Blair tem quase um ataque público e melodramático de choro quando se refere aos seus dois soldados mortos em acção e mostrados na TV iraquiana? Desafia a lógica a maneira como Bush e Blair falam de violações da ONU quando foram estes dois senhores que cometeram o maior erro na história da diplomacia, destruindo a organização como foro de debate e como o único organismo vinculativo legal no mundo.

É crime de guerra atacar um estado soberano fora da autoridade da ONU e matar centenas de civis, milhares de soldados e ferir inúmeros outros milhares de pessoas. É crime de guerra destruir a propriedade particular. É crime de guerra atacar alvos não-militares. É crime de guerra cortar o fornecimento de água e electricidade duma cidade (Basra, neste caso). Senhores Bush e Blair, a água é um alvo militar desde quando?

Bush e Blair julgaram mal, fizeram um erro enorme, enganaram-se integralmente. Convencidos na sua arrogância, continuam a afirmar que eles é que têm razão e o resto do mundo não. “Vai durar o tempo que for necessário”. A que custo humano, Senhores Bush e Blair?

Esta dupla dinâmica tem todas as qualidades indispensáveis para entrarem num filme de Batman. Estão todos aí, desde a Mulher Gato (Condoleeza Rice), Cheney, o Coringa, Powell, o Pinguim... Contudo, Bagdade não é o Gotham City. É real. Bush e Blair não são reais. Vivem num mundo paralelo, totalmente a parte da realidade do planeta em que o resto da humanidade vive. Resta saber só... no mundo deles, qual deles é o Batman e qual é o Menino-Prodígio.

Timothy BANCROFT-HINCHEY PRAVDA.Ru

 
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