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Iraque: O Perigo de uma Solução Militar Permanece

27.11.2002 | Fonte de informações:

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"Saddam Hussein acabou, ao fim e ao cabo, por aceitar na totalidade a Resolução do Conselho de Segurança da ONU para o Iraque. Os inspectores internacionais partiram para Bagdad e ao longo de três meses serão inspeccionados todas as instalações que suscitam suspeitas da comunidade internacional por serem, eventualmente, locais de produção de armas de extermínio em massa.

"O Iraque enfrentava várias opções. Primeira, ser atacado pelos Estados Unidos. Ainda antes da intervenção do Presidente norte-americano na Assembleia-Geral da ONU, Washington adoptara uma linha intransigente e unilateral, preconizando uma acção militar contra o Iraque, mesmo sem esperar por uma sanção da Organização das Nações Unidas. Quando os Estados Unidos se aperceberam do isolamento, quase total, nesta questão, o Presidente George Bush sugeriu a seguinte sequência: para começar, levar a Resolução ao debate do Conselho de Segurança da ONU e, depois, se a iniciativa falhar, os EUA ficavam com as mãos livres em relação ao Iraque.

Foi então que as diplomacias russa, francesa e chinesa - quero aqui assinalar em especial a acção dos diplomatas destes três países como membros permanentes do CS da ONU - começaram a quebrar a cabeça sobre o projecto de uma nova edição da resolução do Conselho de Segurança, juntamente com os Ingleses e os Americanos. Em resultado deste esforço, da variante inicial da Resolução foi excluída a ideia do uso automático da força contra o Iraque. E acho que isto foi o principal.

"E de seguida, Saddam Hussein encarou a segunda opção, ou seja, conformar-se com a nova edição da Resolução do CS da ONU, ou declarar-se em oposição a toda a comunidade internacional, uma vez que o documento em questão foi votado por unanimidade, incluindo até a Síria. A Liga dos Países árabes também concordou com a nova Resolução. Enfim, mesmo contrariado, Saddam Hussein teve que solidarizar-se com a comunidade das nações. E, afinal, isto é natural. Pois agora tem que fazer tudo para que os inspectores e observadores internacionais não tenham o mínimo impedimento ou obstáculo para desenvolver o trabalho que lhes compete ".

"Mas, quanto a mim, eu tenho algo que não me deixa tranquilo em toda esta situação. Tenho a impressão de que o perigo da aplicação da força militar continua a pairar no ar. Posso a dizer por quê. Por um lado, para os Estados Unidos foi um certo dissabor o facto de Hussein ter aceito tão rapidamente a nova resolução do CS da ONU. Por outro, deixa-me de sobreaviso a decisão do Parlamento do Iraque, que condenou a proposta da ONU. E não só porque a intriga é dirigida por Saddam Hussein, tal como já era anteriormente. O que é mais importante é que o posicionamento explícito do Parlamento iraquiano espelha duma forma mais verídica os estados de ânimos da sociedade iraquiana. E isto em qualquer momento ameaça vir a resultar num qualquer obstáculo para os inspectores da ONU. Se algo parecido acontecer e a comissão internacional não encontrar as atitudes e as condições para o seu trabalho, a iminência duma acção militar tornar-se-á realidade.

Não posso concordar com o ponto de vista que acentua a inevitabilidade da operação norte-americana e que esta acção será efectuada a despeito da opinião pública mundial, inclusive da dos EUA.

Creio que seria mais correcto ver a política dos EUA em relação ao Iraque sob o ângulo da evolução, sem negar de modo algum a eventualidade do ataque. Não me parece fundamentado e racional o postulado sobre a inevitabilidade de um golpe dos Estados Unidos contra o Iraque.

A propósito, mesmo admitindo que a campanha militar venha a ser uma realidade - e isto parece ser mais uma causa que indica de modo indirecto a dúvida que os Americanos têm a este respeito - as consequências desta acção serão demasiado importantes. O que está aqui em jogo são as circunstâncias concretas que propiciam ou não o golpe.

Agora como hipótese: se o Iraque se permitir impedir as actividades da comissão internacional, temos de certo modo essas circunstâncias. Se tudo correr bem e a comissão internacional puder executar as missões de que foi incumbida - isto é, encontrar ou não no Iraque o que se procura - e depois de tudo isso os Estados Unidos desencadearem, mesmo assim, uma acção militar, o mesmo problema terá outro prisma, terá outra óptica. Acho que nesta última variante será patente a divisão do mundo por critérios de civilização e religião, o que é absolutamente inadmissível. Com tal cenário dos acontecimentos, todos os que pertencem а raça árabe nos países muçulmanos agitar-se-ão, insurgir-se-ão, opor-se-ão, ameaçando com o derrubamento dos chamados "regimes moderados" nestes países.

A acção dos Estados Unidos não poderá contar com o consentimento unânime na Rússia, o que irá criar dificuldades para a liderança russa. Admito que nos Estados Unidos não faltem "cabeças quentes" que votam pelo ataque contra o Iraque, mas os políticos que "têm a cabeça no lugar" não podem deixar de ter em conta as consequências.

Os Estados Unidos têm temporariamente o apoio e solidariedade de muitos países, única e exclusivamente por causa da operação antiterrorista desencadeada no Afeganistão. será que poderão contar com o mesmo no caso de hostilidades militares contra o Iraque? será que as suas iniciativas serão apoiadas por unanimidade?

RIA "Novosti"

 
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