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Entrevista a Miguel Urbano sobre a situação na Colômbia

27.04.2004 | Fonte de informações:

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Pergunta:Miguel Urbano é jornalista, escritor e militante do Partido Comunista de Portugal. Desde México percebemos que existe um forte cerco informativo em torno do conflito social e armado que vive a Colômbia. Atualmente, inclusive pessoas que analisam a realidade e os conflitos que vivem distintos países do mundo não voltam o olhar para a realidade colombiana. Qual é sua opinião a respeito?

Resposta:

Na atualidade há um fenômeno mundial: o controle dos meios massivos de informação por parte dos grandes grupos. Este é um problema que se dá em todo o mundo, porém não vou me aprofundar no tema, pois se trata de um assunto que vêm estudando já amplamente especialistas como Noam Chomsky e Ignácio Ramonet em vários livros que são do conhecimento público, porém, no caso particular da Colômbia há que dizer que o tipo de cerco imposto é total, devido a que naquele país existe um movimento revolucionário que ameaça o sistema. É por isto que se fecham completamente as portas dos meios de informação ao assunto colombiano.

As FARC, uma guerrilha que existe desde há 40 anos, que resiste, é uma verdadeira ameaça para o Estado colombiano que, com todo o apoio do imperialismo, com um tipo de intervenção não ostensiva – porque, na realidade, sim, há uma intervenção –, dá como resultado uma união sagrada de esforços a nível nacional e internacional para silenciar a história da guerrilha e confundi-la com a do narcotráfico. É bem conhecido que foi um ex-embaixador dos Estados Unidos na Colômbia, Luis Stamb, titular dos serviços de inteligência, o que inventou a frase da narcoguerrilha para tirar a credibilidade das FARC.

Eu conheço muita gente séria, inclusive na esquerda, na Europa, que segue acreditando no conto da “guerrilha do narcotráfico”, ainda não saiba nada da Colômbia. Isso funcionou.

Pergunta:

A segunda questão sobre a qual nos interessa sua opinião é acerca do atual presidente colombiano Álvaro Uribe Vélez (AUV). Queremos que nos diga quem é, qual é sua ideologia, quais são os estratos e grupos de poder que o sustentam e que representa para a Colômbia e América Latina.

Resposta:

Em vários artigos já expressei minha opinião sobre isto. Uribe é um fascista que não pode assumir-se como tal porque na Colômbia há uma fachada democrática, há uma fachada institucional no Estado, há aspectos formais, um congresso que está supostamente aberto, é por isto que não pode declarar-se fascista, porém, sem dúvida, AUV é um fascista.

Em outro contexto, na Espanha de Franco, por exemplo, na Itália de Mussolini, na Alemanha de Hitler, no Portugal de Salazar, Uribe seria um alto quadro do sistema fascista, porque toda sua ideologia e todo seu discurso político é o discurso do fascismo.

Na Europa, por exemplo, sua viagem foi um desastre. Estive muitas vezes na sala do parlamento – fui deputado europeu. De um total de 630 eurodeputados, boa parte o saudou com cartazes onde lhe diziam que era um fascista, porque verdadeiramente nenhum deputado aceitou seu discurso e sua teoria da Segurança Democrática, discurso que inclusive para as burguesias européias é muito duro, porque cheira evidentemente a fascismo.

Sua concepção do milhão de “sapos” – como chamam na Colômbia aos delatores – tem muita semelhança com o que os europeus conhecemos como fascismo; de igual maneira, sua falta de respeito pelas instituições é evidente, como no caso do referendo que perdeu. Imediatamente depois de conhecidos os resultados do referendo, Uribe começou a fazer alianças com os partidos políticos por fora do parlamento para impor os resultados que não pôde obter mediante o referendo. Sua concepção sobre a segurança, que não é outra coisa que mais repressão, o configura como um fascista.

Perguinta:

Temos lido em seus artigos sobre a experiência que teve você de conviver com as FARC-EP em seus acampamentos, assim como de sua presença em San Vicente del Caguán durante os diálogos que sustentaram as FARC-EP com o governo de Pastrana. Digamos, tem uma experiência direta e, por isso, seu testemunho nos parece muito importante sobre o que tem sucedido atualmente na Colômbia.

Queremos perguntar-lhe sobre a importância que tem atualmente a luta que travam as FARC-EP e, desde seu ponto de vista, qual é a perspectiva desta luta?

Resposta:

Eu emprego, às vezes, a palavra resistir, melhor dizendo, a emprego com muita freqüência. Neste momento, quando o poder econômico e midiático (e sua capacidade de controlar a informação) levou o pessimismo a nível mundial – tanto que fez crer que o imperialismo era invencível, e que não se podia lutar contra ele – fez-se presente o reformismo. Neste contexto se fizeram presentes forças políticas, inclusive de esquerda, que dizem querer humanizar ao capitalismo, coisa que evidentemente não é possível e que pareceria dizer: “vamos fazer um capitalismo menos mau, reformá-lo”. No entanto, há outras tendências na esquerda, das quais compartilho sua opinião, que dizem que o capitalismo não é humanizável por essência, senão desumanizador, e que o que fica, então, é lutar.

A luta das FARC na Colômbia é um exemplo de que é possível resistir. Na Colômbia está a prova de que, em determinadas circunstâncias históricas, geográficas, econômicas etc. se pode resistir por meio das armas.

Na Colômbia, depois de 40 anos de luta, as FARC resistem e seguem sendo uma ameaça que pode reproduzir uma força combatente do tipo das FARC em outro país, ainda que há que esclarecer que não transposições mecânicas.

Para toda a humanidade progressista o exemplo das FARC, como o exemplo de Cuba, como neste momento – ainda que seja completamente distinto, já que, neste caso, se tentam fazer transformações conquistando os espaços institucionais – o exemplo da Venezuela Bolivariana, são de suma importância, já que conformam um triângulo de resistência na América latina.

As FARC são um desafio insuportável para o imperialismo.

Pergunta:

Há setores de intelectuais e movimentos progressistas que asseguram que as FARC são uma organização que perdeu a perspectiva política e insistem em que se trata só de uma questão militar. Qual é sua opinião a respeito?

Resposta:

Eu tive a oportunidade, como te disse antes, de passar três semanas em um acampamento das FARC. Para mim foi uma experiência de uma riqueza total em todos os aspectos, e posso assegurar-lhe que poucas vezes na vida encontrei revolucionários como estes, desde os Comandantes – já que tive a oportunidade de conhecer membros do Estado Maior Central e do Secretariado, como o Comandante Raúl Reyes – até os combatentes, a base. E, todas as noites, tinha com eles bate-papos sobre história – história contemporânea e história antiga de América Latina – e sobre isto escrevi vários artigos que foram publicados só no Brasil e em Portugal.

Posso dizer-te que as FARC são uma organização que combate por ideais, são uma organização político-militar que combate em circunstâncias muito especiais, porém têm a estrutura também de um Partido Comunista armado ideologicamente, são um partido que assumem a herança marxista, o pensamento de Lênin e o pensamento Bolivariano. A mim me impressionou muito ver a combatentes do mais simples que há, que apenas estão alfabetizando-se, dissertar sobre as guerrilhas peruanas dos anos 1960, sobre a guerrilha do Ñancahuazú, sobre as guerrilhas urbanas etc. Isto me parece que comprova que, para ser marxista, não se necessita haver lido O Capital ou ser acadêmico, senão atuar como marxista.

Nestes combatentes havia uma assimilação interessantíssima da prática do marxismo. Igualmente, me parece importante essa consciência revolucionária que vai acompanhada de uma forte consciência de classe, compartida por gente de várias origens sociais. Falando com alguns combatentes e com alguns amigos que vivem por aqui e por lá na vida clandestina e que acorrem a eventos internacionais, quando tomava a palavra algum dirigente das FARC – com pseudônimos – coincidíamos sempre em que eram as melhores intervenções, as melhor estruturadas ideologicamente, já que demonstravam ser um partido com uma sólida concepção da transformação da vida e da história.

Tudo isto podia ser visto quando existia a mesa de diálogo no nível que havia nas participações das FARC. Foi no fundo a hipocrisia do governo de Pastrana a que terminou com o diálogo, já que se sentava à mesa com os acordos que o governo havia tomado previamente para deter a discussão. Assim que a culpa do fracasso dos diálogos não é das FARC, como costumam repetir até o cansaço os meios, senão que do Estado colombiano, representado neste caso pelo Alto Comissariado para a Paz, quem atuava conforme as diretrizes dadas pelo ex-presidente Pastrana.

Por isso me parece uma mentira grosseira dizer que as FARC são uma organização militar sem ideologia. É uma organização que atua sob o conceito de lograr uma sociedade e um projeto; que busca uma sociedade colombiana onde as mais diversas forças progressistas atuem pela transformação e por construir uma Colômbia democrática possível de um determinado conceito.

Pergunta:

Para finalizar, queremos que nos fale um pouco sobre a questão do intercâmbio de prisioneiros proposto pelas FARC-EP ao governo colombiano, tema que atualmente tem especial relevância na Colômbia. Crê você necessário tal intercâmbio de prisioneiros?

resposta:

Eu creio que se há algo de que Uribe tem medo é justamente do intercâmbio.

Inclusive, cometeu erros grosseiros, como, por exemplo, permitir que a Igreja e alguns ex-presidentes – particularmente López Michelsen – fizessem contatos com as FARC para, depois, dar marcha a ré e não aceitar o que ele mesmo havia propiciado. Eu creio que sua hipocrisia não mais que medo a um processo de intercâmbio transparente.

Este é um ponto muito débil de Uribe, já que, por um lado, tem setores muito significativos como a igreja católica, que está pelo intercâmbio e que puderam ver sua hipócrita posição. Os governos estrangeiros também conheceram esta hipocrisia, como no caso da França e a mediação deste governo por Ingrid Betancourt; e, sobretudo, hipocrisia para com as famílias dos prisioneiros de guerra em poder das FARC. A nível internacional há uma opinião majoritária a favor do intercâmbio.

Eu estava em La Macarena quando as FARC, unilateralmente, libertaram a mais de 400 prisioneiros. Aquilo foi uma demonstração dolorosa, onde jornalistas e embaixadores da comissão facilitadora se deram conta da vontade da guerrilha.

Dizem que as FARC são frágeis, como é então que as FARC podem concentrar a mais de 300 prisioneiros frente a pessoas vindas de todas as regiões do país (algumas, inclusive, tiveram que atravessar todo o país para chegar)? Isto é sintoma da capacidade das FARC e da incapacidade das Forças Militares da Colômbia para resolver o problema. E, cada vez que o governo tentou o que fazem chamar “libertar seqüestrados” (resgate a sangue e fogo), os resultados foram muito negativos, como no recente caso do ex-governador de Antioquia Gilberto Echeverri.

Há uma pressão cada vez maior por parte das famílias e, ao ser escutadas, aparece uma prova mais de que Uribe é um fascista. Sua negativa à troca é uma prova mais da estrutura fascista de seu pensamento. Desde logo, ressalta sua hipocrisia e seu fascismo ao dialogar com os paramilitares, diálogos que lhe valeram agora, inclusive, a censura do Comissário Europeu Chiris Patterson, em sua recente visita à Europa. Sua intransigência na questão da troca contribuiu, a meu ver, decisivamente para o fracasso de sua visita à Europa. Fica demonstrado, como isto, seu caráter, digo eu, intrinsecamente fascista.

Cidade do México, fevereiro 2004 FARC-EP

 
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