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Aleksei Yablokov sobre as consequências ecológicas duma guerra no Iraque

18.03.2003 | Fonte de informações:

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YABLOKOV: Uma eventual operação militar dos EUA contra o Iraque encerra duas consequências ecológicas extremamente perigosas, além de incêndios nos poços e reservatórios de petróleo continuamente citados. Aqui vale notar que, pela experiência da "Guerra no Golfo". De 1991, os problemas ecológicos de origem petrolífera foram muito exagerados: não houve nuvens de fuligem que pudessem alterar o clima da terra, o petróleo vazado foi recolhido ou recolheu-se e os territórios e águas poluídos ficaram novamente limpos. O principal perigo de uma guerra no Iraque reside na possibilidade de os EUA poderem usar munições penetrantes à base de urânio empobrecido, o qual, contrariamente ao urânio natural constituído a 99,3% por urânio de 238, contém menos isótopos de urânio-235.

O urânio-235 é extraído do urânio natural e é usado para a construção de armas nucleares e combustível para centrais atómicas. O urânio é 1,7 vezes mais pesado do que o chumbo e 2,5 vezes mais pesado do que o aço, o que permite elevar a precisão dos projécteis à base de urânio. Uma munição à base de urânio fura facilmente uma blindagem de vários centímetros de espessura resistente aos outros projecteis convencionais. Do contacto com a blindagem ocorre o aquecimento e o aumento da pressão até 70% da massa do urânio e, como resultado, a evaporização e a formação de um óxido do urânio. Os óxidos do urânio em forma de aerossol poderão ser levados pelo vento a centenas de quilómetros do local de explosão, embora se sedimentem geralmente num raio de centenas de metros.

O urânio é um elemento de radiação alfa, beta e gama de pouca intensidade. Quando penetra no organismo pode provocar nomeadamente doenças cancerígenas. O peso de uma pequena carga à base de urânio é de 75 gramas. O projéctil de artilharia à base de urânio pesa cerca de 2,5 kg. As pesquisas realizadas por um grupo de peritos independentes no Kosovo mostram que nos locais de combates foi descoberto urânio U-236, além do U-238.

Este facto altera completamente o quadro. Se o urânio empobrecido não tem origem natural, mas sim origem nos reactores nucleares, nestas munições deverão estar presentes outros isótopos de urânio e o plutónio de toxicidade centenas e até milhares de vezes superior à do urânio U-238 natural.

Em milhares de soldados dos EUA e da Grã-Bretanha foram detectados, após a operação de 1991 no Golfo Pérsico, disfunções do fígado e dos rins, baixa tensão arterial, perdas da memória e o aumento de casos de calafrios e dores de cabeça. Verificou-se ainda que nas regiões iraquianas, sobretudo nos arredores de Basrah, aumentaram três ou quatro vezes os casos de partos prematuros, abortos espontâneos, malformações congénitos nos recém-nascidos, leucemia e diferentes formas de cancro. Várias malformações congénitas como a ausência de olhos, de orelhas, dedos e vasos soldados foram detectadas em 60% das crianças nascidas nas famílias dos veteranos da "guerra no Golfo". A medicina oficial rejeita a relação entre estas malformações e o urânio empobrecido, mas as provas, inclusive cientificamente fundamentadas, tornam-se cada vez mais numerosas. O Parlamento Europeu aprovou recentemente uma resolução sobre a proibição do uso do urânio empobrecido em munições. Anteriormente, uma das comissões para os assuntos humanitários da ONU havia considerado indispensável qualificar as munições à base do urânio empobrecido como armas de extermínio em massa, pois atingem não tanto o alvo como muitas outras pessoas. As áreas contaminadas pelo urânio permanecerão, durante longo tempo, insalubres até as partículas do urânio penetrarem profundamente no solo, o que pode levar entre 10 a 100 anos.

Durante a Guerra no Golfo, foram utilizadas cerca de 300 toneladas de munições. Desta feita, os EUA poderão usar contra o Iraque até 1900 toneladas de munições à base de urânio, com uma taxa de radioactividade de cerca de 60 Tbq. Neste caso, os radionuclidos poderão ser levados pelas correntes de ar a centenas de quilómetros e atingir, por exemplo, Israel.

Podemos referir igualmente outras consequências ecológicas de uma guerra no Iraque: o entre-rios Tigre e Eufrates é uma área de grande concentração de aves de arribação. As operações militares não lhes proporcionarão nada de bom.

PERGUNTA: Quais serão as consequências da aplicação maciça de bombas de penetração profunda no Iraque?

YABLOKOV: O uso maciço de bombas de penetração profunda no Iraque poderá provocar actividades sísmicas em outras regiões do mundo. Tais bombas penetram profundamente e explodem a uma profundidade de dezenas de metros, destruindo bunkers e outras instalações subterrâneas. A crosta terrestre não é tão sólida como se costuma crer, sendo muito sensível a explosões subterrâneas. Depois de tais bombas terem sido usadas em Tora-Bora, no Afeganistão, onde se teria escondido Osama Bin Laden, foram registados abalos sísmicos inesperados longe do local de explosões.

Existem muitas obras científicas sobre a sismicidade induzida por explosões nucleares, inclusive aquelas efectuadas para os fins pacíficos. Tais explosões foram realizadas a uma profundidade muito maior, até várias centenas de metros, e foram certamente mais fortes do que as produzidas por bombas convencionais. Mas cada uma destas explosões provocou até 20090 choques subsequentes a uma distância de milhares de quilómetros do local da explosão. O efeito sísmico provocado pelos choques subsequentes foi, nalguns casos, mais forte do que o produzido pela explosão original.

Tudo isso permite afirmar com boa dose da certeza que o uso maciço de bombas de penetração profunda no Iraque poderá provocar actividades sísmicas em outras regiões. A probabilidade tornar-se-á ainda maior se os EUA se arriscarem a usar, para além do mais, pequenas ogivas nucleares.

RIA NOVOSTI

 
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