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O Fracasso do Plano Patriota

16.05.2005 | Fonte de informações:

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A demissão, no final de abril, de quatro generais colombianos - Jairo Duvan, Luís García, Roberto Pizarro e Hernán Cadavid - abriu uma grave crise nas forças armadas do país. Estes generais, que exerciam comandos importantes, foram separados por terem criticado a estratégia do Plano Patriota imposto pelos Estados Unidos.

O influente jornal El Tiempo, de Bogotá, muito ligado à oligarquia, aproveitou a oportunidade para publicar no primeiro aniversário do Plano Patriota um suplemento em que alguns de seus redatores especializados fazem um balanço do projeto idealizado pelo presidente Álvaro Uribe para destruir as Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia-Exército do Povo (Farc-EP).

A editora-chefe Maria Alejandra Villamizar, depois de recordar que esse Plano "é a operação militar mais ambiciosa da história da Colômbia e foi por alguns meses um dos segredos de Estado melhor guardados", afirmou que "nunca antes havia se mobilizado uma força de 18 mil homens para uma só missão" e que os "EUA nunca tinham se envolvido de maneira tão direta antes na guerra contra a insurreição do país".

O alto comando do Exército reagiu mal à iniciativa do jornal "El Tiempo" por este diário contar com grande prestígio entre a oligarquia, e sobretudo porque o suplemento ilumina o fracasso da estratégia de Uribe, apoiada pela Casa Branca e pelo Pentágono e confirma uma evidência: as Farc, longe de terem sido aniquiladas, mantém intacta a capacidade combativa de suas 60 frentes em que seus 17 mil guerrilheiros combatem.

Surgimento

No principal artigo, assinado por Judith Bedoya Lima, o "El Tiempo" aponta para o público informações inéditas sobre o desenvolvimento do Plano Patriota. Revela, por exemplo, que um dos objetivos da Operação JM – homenagem ao ex-comandante do exército, general Jorge Mora – era a captura do comandante Jorge Briceño, chefe do Bloqueio Oriental das Farc e membro do secretariado do Estado Mayor. O artigo esclarece que Briceño, conhecido como o Mono Jojov, é o grande estrategista das Farc e um guerrilheiro lendário cuja morte já foi anunciada várias vezes por diferentes governos colombianos.

O organograma da Operação, elaborado em atmosfera secreta, esclarece que, numa primeira fase, seria estabelecido um cordão militar instransponível que isolaria uma área de 300 000 km2 (três vezes e meio a de Portugal), englobando os Departamentos de Caquetá, de Meta, de Guaviare e parte de Putumayo, no Oriente do país.

Em três meses foi instalado na Base Militar de Larandia, em Caquetá, um centro de operações sofisticado que recebia informações de satélites dos EUA e de helicópteros Black Hawk. Três centros similares foram montados em San Vicente do Caguan, em Solano e em São José, neste Departamento de Guaviare. Dez brigadas móveis, sob o comando do general Castellanos, apoiadas por unidades de elite da Marinha e da força Aérea, começaram a fechar o cerco. Sucessivamente foram ocupados Miraflores, em Guaviare, e Puerto Cachicamo, em Caquetá e municípios de Meta onde elementos das Farc apareceriam com freqüência.

Houve combates, mas as Farc não desistiram. As perdas do Exército foram pesadas, apesar da enorme superioridade de seu armamento. A guerrilha dispunha apenas de uns fuzis comuns, de metralhadoras e utilizou cilindros explosivos montados com material de oleodutos, minas e armadilhas rústicas do tipo vietnamita.

Marco falacioso

Em junho de 2004, o presidente Uribe recebeu a informação, logo comunicada a Washington, de que estava iminente uma grande vitória, um golpe suscetível de quebrar a coluna vertebral das Farc. Os helicópteros dos serviços de inteligência com a cooperação de satélites estadunidenses tinham localizado o acampamento de Jorge Briceño na mais densa selva impenetrável. Uma força de elite poderosamente armada entrou nas grandes matas rumo ao local cuja latitude e longitude era conhecida com precisão de minutos e segundos. O acampamento foi bombardeado e depois ocupado. Mas o resultado foi decepcionante.

El Mono Jojov, a frente de 70 guerrilheiros – outros tomaram direções diferentes – deixaram o lugar a tempo. A tropa invasora chegou a estar a 12 metros de seu esconderijo, a margem de um rio. "Será que Deus também é comunista?", vociferavam alguns militares, segundo "El Tiempo" O governo e o Exército apresentaram a ocupação do acampamento como um grande êxito, mas os comunicados oficiais omitiram que El Mono Jojov não foi sequer localizado.

A segunda fase da Operação JM teve início em setembro, transcorridos três meses. Objetivo: perseguir e capturar os comandantes das Farc em uma área mais reduzida de 150.600 km2, de pura selva, de acordo com o Exército. A ofensiva, que ainda prossegue, foi desde o começo um fracasso. A moral das tropas é baixíssima. "El Tiempo" revela episódios esclarecedores do estado do espírito dos soldados lançados para o inferno amazônico.

Um exemplo: 18 militares da 5a Brigada, depois de dois meses de combate em El Billar, em Caquetá contra um inimigo quase sempre invisível, seqüestraram um helicóptero que chegava abastecimentos. Apreenderam aos pilotos e os obrigaram a transportar o grupo a San Vicente Del Caguan ao Batalhão de Cazadores. Aí, declararam à psicóloga daquela unidade: "não queremos permanecer ali mais tempo, a selva esta nos enlouquecendo!".

O general Ospina, comandante em chefe, comentou que a metade dos militares empenhados na Operação JM está exigindo o regresso. Em dezembro passado, a Brigada Móvel 10 tinha já fora de combate 884 homens, ou seja, 76% de seus efetivos. Somente de Guaviare foram evacuados 671 soldados vítimas de malária. A lista oficial de baixas, para não alarmar a população, é falsificada todos os meses. O general Castellano foi também substituído no comando da fracassada Operação pelo general Carlos Fracica. Castellano responde agora a acusações de "extorsão e seqüestro" no Departamento de Huila.

A intervenção dos EUA

No contexto da estratégia que contempla o controle da Amazônia pelos EUA, o Plano Colômbia foi concebido como instrumento indispensável para o financiamento da luta contra a insurreição armada.

Oficialmente, esse Plano – cujo texto em castellano é uma tradução do original inglês, redatado em Washington – foi elaborado para promover o desenvolvimento econômico e social e combater o narcotráfico. Mas o objetivo real era outro. Para o sistema imperial a sobrevivência na Colômbia há décadas de uma organização guerrilheira com uma aura de invencibilidade configuravam um desafio intolerável.

As Farc demonstram que nas condições históricas, geográficas e sociais muito peculiares é possível na América Latina resistir pelas armas ao poder de um Estado oligárquico aliado de Washington. Destruir uma organização guerrilheira que se assume como partido marxista leninista passou a ser uma prioridade primeiro de Clinton e depois de Bush.

A máscara caiu quando o Congresso aprovou a transferência de importantes somas do Plano Colômbia para ações militares de combate à insurreição. As Forças Armadas da Colômbia são hoje, com aproximadamente 300 mil homens, as mais poderosas da América Latina, dispondo de armas e tecnologias que os EUA somente submetem a Israel. O poder de fogo da Força Aérea da Colômbia é superior ao de seus equivalentes do Brasil e do México juntos.

O Plano Patriota apareceu como complemento do Plano Colômbia. No início de 2003, uma missão militar colombiana foi para o Comando Sul dos EUA para pedir ajuda. A visita foi secreta. Tratava-se de acertar "o golpe de misericórdia" nas Farc, atacando e destruindo seus "santuários". O projeto e a linguagem – inspirada nos generais norte-americanos do Vietn㠖 sensibilizaram Washington.

O general James Hill, então chefe do Southcom, informou Bush de que "a situação na Colômbia chegava a um ponto crítico e o Plano Patriota pode ser decisivo na luta contra os narcoterroristas". Segundo "El Tiempo", Washington contribui em uma primeira fase com 100 milhões de dólares para o Patriota, em armas, transportes, material de comunicações e treinamento de pessoal. Posteriormente, o general Bantz Cradock, sucessor de Hill, pediu ao Congresso mais fundos para ajuda aos "aliados colombianos", alegando que o apoio logístico dos EUA era imprescindível para a obtenção de "novas vitórias do Plano Patriota". A próxima leva deve ser de 50 milhões.

Se tornou necessário superar um obstáculo. O alto comando colombiano concluiu que o número de assessores militares dos EUA era insuficiente. Pediu um reforço porque os militares e contratantes cuja presença no país foi autorizada estavam ocupados nas diferentes missões do Plano Colômbia.

O general Hill, em um memorando enviado ao Congresso, solicitou a ampliação do contingente. "Quando me mostraram o Plano (Patriota) e vi como era complexo e grandioso, vi que tínhamos que aumentar nossos equipamentos de planejamento, lhes dar apoio logístico para o planejamento de combates em terra permanentes, em comunicações, inteligência e transportes".

O estilo do general é tosco, mas funcionou. O Congresso autorizou o aumento da presença militar norte-americana na Colômbia no âmbito da Joint Planing Assistance Teams. O eufemismo não engana. No início deste ano, o número de militares dos EUA no país ascendia os 800 – elementos das forças especiais, pilotos, engenheiros – e os contratistas eram 600. "Os pedidos da Colômbia se dispensam quase com a mesma atenção que merecem os do próprio exército dos EUA" – declarou um analista militar entrevistado pelo jornal. O Plano Patriota conta agora com técnicos de que dominam as comunicações via satélite e conseguem obter imagens que permitam localizar acampamentos das Farc e os movimentos de suas colunas. A intervenção militar dos EUA no conflito é inocultável.

O suplemento de "El Tiempo", como era inevitável, teve profundo impacto na opinião pública. Quase coincidiu com a visita a Bogotá da senhorita Condolezza Rice, conhecida na América Latina como a "Bruxa Imperial". A demissão dos quatro generais colombianos não lhes facilitou a missão. Vem a confirmar que a crise nas Forças Armadas resultou do fracasso do Plano Patriota.

As Farc desencadearam no final de abril uma ofensiva no sudoeste do país e a Operação JM na Frente Oriental inspira anedotas em Bogotá. É significativo que até hoje os únicos comandantes das Farc que caíram nas mãos do governo – Simón Trinidad e Rodrigo Granda – tenham sido seqüestrados no estrangeiro com ajuda da CIA.

A solidariedade com a organização revolucionária de Manuel Marulanda é uma exigência internacionalista no combate para a globalização da luta dos povos contra a globalização neoliberal.

Serpa, 10 de maio de 2005

*Jornalista

 
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