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PORQUE OS MUÇULMANOS AFEGÃOS NÃO ACEITAM A FELICIDADE DOADA?

16.02.2004 | Fonte de informações:

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Em outras palavras, "do outro lado do rio", como costumávamos dizer sempre que se falava do Afeganistão, não havia mais um só soldado soviético, a não ser assessores militares que ficaram em Cabul por mais três anos e meio até à queda do regime de Najibullah e à evacuação da embaixada da Rússia.

O autor deste artigo passou aqueles três anos e meio em Cabul como correspondente da Agência de Imprensa "Novosti" e saiu da capital afegã juntamente com o pessoal diplomático russo num avião que levava para a Rússia caixões com os restos mortais de companheiros nossos. Quando o nosso avião levantou voo, disparando continuamente mísseis magnéticos para se proteger contra "stringers", vimos pela vigia na pista de descolagem um outro avião russo "IL-76" atingido por um míssil.

Foi um dia amargo. A primeira coisa que passou pela cabeça foi a de que os políticos responsáveis pelo envio de tropas soviéticas ao Afeganistão não podiam imaginar, nem mesmo num sonho horrível, um final assim.

Entre a retirada das tropas soviéticas e a evacuação do pessoal diplomático decorreram três anos e meio. Foram anos de incessantes ataques a Cabul e explosões no centro da cidade. Algo semelhante ocorre hoje em Bagdad onde os "combatentes da resistência iraquiana" não querem mais, "por razões não claras", os benfeitores americanos na sua terra natal. No Afeganistão a situação não é muito melhor. Não podemos dizer que os americanos tenham controlo sobre muitas regiões do país, a não ser Cabul e as regiões adjacentes. Em outras palavras, a presença militar dos EUA faz muito lembrar a da União Soviética na época e, como no Iraque, não encontra apoio da população local.

Os afegãos com os quais tive a oportunidade de conversar no Paquistão em meados dos anos 90, consideram que a chegada de tropas estrangeiras ao seu o país provocou, em primeiro lugar, o surto de tendências islamistas extremistas. Como me disseram, em Islamabad, os talibãs viam comunista em cada afegão que lia um outro livro senão o Corão. A bem da verdade, os mojahedins não haviam sido melhores, tendo mandado as mulheres encobrirem o rosto com o véu.

Aliás, muitos afegãos simpatizavam com os soviéticos. Eles lembram-se de terem sido os soviéticos a construir muitas empresas industriais e agrícolas, escolas e estabelecimentos de ensino superior no Afeganistão. Tudo isso foi posteriormente destruído pelos mujahedins e, mais tarde, pelos talibãs.

Tive a oportunidade de ver isso com os meus próprios olhos quando estive, em 1995, em Jelalabad, integrado num grupo de jornalistas levado pela missão da ONU de Islamabad para o Afeganistão. Os locais conhecidos apresentavam um quadro muito triste: uma fábrica de tratamento de olivas estava completamente destruída, um sistema de rega construído pelos soviéticos não funcionava, o Instituto Politécnico de Cabul estava em ruínas.

Porque é que os islamistas fizeram isso? Será que não compreendiam que os soviéticos não iriam levar toda essa infra-estrutura consigo? Como me explicaram os refugiados afegãos em Islamabad, os islamistas quiseram destruir todos os sinais da presença estrangeira. Segundo, as pessoas que desceram das montanhas não compreendiam o que tinham na sua frente. Nunca haviam visto um sistema de irrigação nem uma fábrica de tratamento de olivas e, possivelmente, tomaram-nos como algo hostil ao seu espírito.

Do mesmo modo, os islamistas consideram prejudicial e até hostil aos muçulmanos tudo o que trazem os "brancos", sejam os russos ou os americanos. Os soviéticos, dizem alguns afegãos, tentaram construir por força o socialismo no Afeganistão, os americanos estão a impor o seu modo de vida aos iraquianos. Na verdade, tudo isso provoca o aumento das tendências extremistas e empurra pessoas comuns para o lado dos elementos extremistas que exortam a combater os "invasores".

No último dia da nossa estada em Cabul, estávamos num abrigo anti-bombas a discutir como seria o Afeganistão ao fim de dez anos. Alguns diplomatas de idade, formados pela escola diplomática soviética, não duvidavam de que em Cabul estariam os americanos. Os jovens replicavam, assinalando que os americanos eram mais pragmáticos e não iriam repetir os erros alheios.

Como podemos ver, a experiência e a idade ganharam.

O curioso é que tanto a União Soviética como os EUA não duvidavam de que, enviando os seus soldados ao Afeganistão, iriam combater o "mal" e trazer a "felicidade" aos muçulmanos locais, só que estes não quiseram nem querem aceitar este presente.

Andrei Pravov Analista da RIA "Novosti" © RIAN

 
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