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Eleições no Peru

15.03.2006 | Fonte de informações:

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Autoria de Mandato do Deputado Babá (P-SOL/RJ) 10 de Março de 2006

Para interesse de nossos leitores, considerando a importância de acompanhar a rica realidade da América Latina, reproduzimos abaixo texto de Hugo Blanco*, sobre o candidato “nacionalista” peruano Ollanta Humala que disputará as próximas eleições presidenciais.

Humala e o movimento indígena massacrado - Por Hugo Blanco – Cuzco – fevereiro de 2006

(*) Dirigente histórico da esquerda revolucionária e da Confederação Camponesa do Peru (traduzido do site do MAS – Argentina)

Diversas organizações sócias e de direitos humanos estão denunciando que Ollanta Humala esteve envolvido - sob pseudônimo de capitão Carlos – em graves violações dos direitos humanos durante a guerra contra insurgente que massacrou milhares de guerrilheiros e camponeses. Outras fontes acusam a Humala de contar entre seus partidários a antigos colaboradores de Montesinos. Mas, além da veracidade de tais denúncias, um manto de suspeita cai sobre o candidato “nacionalista”. O artigo de Hugo Blanco que publicamos a continuação, não se pronuncia sobre as acusações, mas joga luz em torno a um “fenômeno político” que obteve apoios políticos e eleitorais que vão desde o chavismo até uma boa parte da esquerda peruana (Redação)

Ollanta Humala, que depois de seu justo levante contra Fujimori foi funcionário governamental na França e na Coréia, entrou na política eleitoral propagandeado pelo seu irmão Antauro, quem organizou os reservistas que vendiam seu jornal Ollanta, muito bem confeccionado para a leitura popular e se mostrando anti-sistema. Na sua prédica reivindicou o movimento indígena. Isso atraiu as pessoas pobres que estão fartas do sistema. Por tanto, a corrente “humalista” tem muito de positivo.

Uma coisa é a corrente “humalista” formada por Antauro e outra são os Humala.

Humala se auto denomina apropriadamente “etnocaceristas”. O que é isso? É a reivindicação de Andrés Avelino Cáceres que dirigiu as guerrilhas indígenas de resistência contra as tropas invasoras chilenas e os abusos que elas cometiam. Naturalmente que aplaudimos essa atitude. Mas aqui não termina a historia. Quando os guerrilheiros indígenas continuaram sua luta contra seus inimigos peruanos, os fazendeiros, Cáceres os traiu. Isso eu falei com Antauro, ele me contestou textualmente: “Não somente os traiu, os fez fuzilar”. Perguntei-lhe se sabia que, durante o governo de Cáceres os fazendeiros foram privilegiados e me respondeu que sim, porque “ainda não era tempo de lutar contra eles”.

Na minha opinião, desde o assassinato de Atawallpa já era tempo de lutar contra os invasores e seus herdeiros, como o fizeram Tupac Amaru I, Manco Inca, Juan Santos Atawallpa, Tupac Amaru II. Essas rebeliões foram corretas ainda que não foram exitosas.

O triunfo contra os fazendeiros com a recuperação da terra foi conseguido de forma pacífica pela nossa luta indígena dos anos 1958 em diante, se iniciando na zona semi-tropical do Cuzco. Essa reforma agrária democrática e pacífica foi respondida pela agressão repressiva armada; frente isso decidimos democraticamente praticar a autodefesa, também armada, para defender as conquistas sob o grito de “Terra ou Morte”. Pese que o governo militar de Lindley conseguiu nos dissolver, compreendeu que se os camponeses indígenas tinham resistido de forma armada aos inícios da repressão, a zona pegaria fogo se lhe fosse tirada a terra para obrigar aos camponeses e indígenas a trabalhar novamente para os fazendeiros de forma gratuita, o que já não estava mais fazendo. Para evitar esse levante editaram uma “Lei de Reforma Agrária” só para essa região, legalizando com isso o que o camponês tinha feito. Depois, em várias zonas do Peru aconteceram ocupações de terra por parte dos camponeses; isto foi respondido a bala pelo governo Belaúnde, mas pese aos mortos as ocupações de terra continuaram.

Frente a este panorama, os militares compreenderam que o Peru pegaria fogo se o governo continuava defendendo a bala o regime semifeudal das fazendas. Por tanto decidiram tomar eles o Poder e estender a todo o Peru o que tinham feito na zona semitropical do Cuzco. Entrou Velasco Alvarado e decretou a Lei da Reforma Agrária para todo o país.

Naturalmente nos parece positiva a liquidação do latifúndio, no entanto devemos assinalar os aspectos com os quais não concordou o movimento camponês.

A diferença da reforma agrária feita pelo campesinato na zona do Cuzco, que se fez de forma democrática, a reforma de Velasco se fez ao estilo militar, verticalmente. Isto trouxe conseqüências muito ruins:

- Programou-se um calendário que o campesinato não aceitou; por isso aconteceram ações camponesas que foram violentamente reprimidas, como em Andahuaylas. Em Huanta aconteceu um massacre imortalizado pela canção “Flor de Retama”.

- Não se respeitou a cultura indígena do “ayllu”, ou comunidade camponesa, e em muitas zonas em vez de devolver as terras usurpadas aos ayllus, fabricou-se gigantescas cooperativas super burocratizadas que terminaram beneficiando somente a um grupo de funcionários. O camponês “comunero” indígena levantou-se e pese à repressão recuperou a terra para as comunidades.

- Fazendas da região da costa foram parceladas deixando os poços d’água em mãos de alguns privilegiados e a maioria dos camponeses sem água.

Repito, considero positiva a liquidação das fazendas feitas por Velasco, mas junto com o movimento camponês, lutei contra suas limitações.

Falei bastante sobre isto, porque os Humala não reivindicam o movimento indígena democrático e de ação direta como o de Cuzco, as ocupações de fazendas da época de Belaúnde ou o movimento “comunero” que recuperou as terras das falsas cooperativas criadas por Velasco.

Seus emblemas são Cáceres e Velasco, dois militares que dirigiram aos indígenas e quando eles queriam aplicar sua democracia indígena, contestavam com bala. O comandante dirige aos índios, e quando estes passam “dos limites”, os fuzila.

Por isso não deve nos resultar curioso que o no partido de Humala sejam desconhecidos os dirigentes e os candidatos eleitos pelas bases democraticamente, não se permite que as bases decidam, pois manda o “comandante”. Tem coerência com o etnocacerismo.

Nos estamos pelo movimento indígena democrático, onde o movimento não é guiado por nenhum comandante nem caudilho, mas por si mesmo.

Reivindicamos a luta dos guerrilheiros contra as fazendas, traídos e fuzilados por Cáceres. Reivindicamos a reforma agrária feita pelo próprio campesinato no Cuzco. Reivindicamos as ocupações de terra da época que governava Belaúnde. Reivindicamos aos “comuneros” que na região de Puno recuperaram a terra das cooperativas fabricadas por Velasco. Reivindicamos o movimento indígena de Anta que dirige diretamente seu município.

Não nos chama a atenção que, quando um candidato da direita pediu a anistia para os militares massacradores de grande parte dos 70 mil indígenas assassinados durante a guerra interna, Ollanta Humala indignou, mas não pelo pedido de anistia para os assassinos, mas porque no devia ser tratado de forma eleitoreira esse “assunto tão delicado para a família militar”.

Colocados na balança os milhares de indígenas mortos frente aos seus assassinos da “família militar”, ele está com a família militar. Se assim não for, que declare publicamente que está contra a anistia aos massacradores.

 
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