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Entrevista com Embaixador dos EUA em Moscovo

14.03.2003 | Fonte de informações:

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PERGUNTA: O Sr. Embaixador concorda com o ponto de vista de que os EUA e a Grã-Bretanha tenham como o principal objectivo mudar o regime político no Iraque, assumir controlo sobre os depósitos de petróleo sob o pretexto de desarmar aquele país? Não acha que tal posição contraria as Resoluções do CS da ONU e a Carta Magna?

RESPOSTA: Antes de mais, quero dizer que não posso concordar com tal formulação da pergunta. Desde o início da crise, o nosso maior objectivo foi desarmar o Iraque, fazendo com que Bagdad implementasse as Resoluções do CS da ONU.

Não perdemos a esperança de que o Iraque concorde com a necessidade de se desarmar por via pacífica. Neste caso, não seria necessário recorrer às acções militares. Se Saddam Hussein tomasse tal decisão estratégica, significaria a mudança do regime político no Iraque sem qualquer violência.

Caso Bagdad relute em desarmar-se, procurando induzir em erro a comunidade mundial, as acções militares serão inevitáveis. Neste contexto, não vemos a outra possibilidade de desarmar o Iraque senão mediante a mudança do regime de Hussein.

Não posso aceitar o conhecido argumento de que os EUA pretendam assumir o controlo sobre o petróleo iraquiano. Isso não é verdade. Consideramos que o petróleo iraquiano pertence ao povo daquele país. No entanto, o sector petrolífero deverá contribuir para a estabilidade e a prosperidade do povo iraquiano.

PERGUNTA: O Sr. Embaixador acha que a acção militar contra o Iraque poderia pôr em causa as bases jurídicas do sistema existente das relações internacionais?

Tem-se a impressão de que a Administração dos EUA não se contente com a actual ordem mundial que se formou após a II Guerra Mundial. É patente o desejo dos EUA de tomar, por forma unilateral, decisões importantes na área de segurança internacional, ignorando, ou até às vezes contornando as entidades internacionais, inclusive a ONU. Quer comentar?

RESPOSTA: Somos da opinião que, se as acções militares forem inevitáveis, não valerá a pena adoptar a segunda Resolução da ONU. Já temos o mandato oficial que se assente na Resolução 1441, bem como em outras Resoluções aprovadas pela ONU desde 1991.

Importa não esquecer que em 1991 foi alcançado o acordo sobre o fim das acções militares contra Bagdad em troca de desarmamento. Todavia, o Iraque não cumpriu os compromissos assumidos.

Acho que o maior perigo para o sistema de segurança internacional que se criou após a II Guerra Mundial tem representado o facto de a ONU não ter insistido na implementação incondicional das suas Resoluções. Os Estados membros do Conselho de Segurança que se prontifiquem a aguentar mais o menosprezo de Saddam Hussein em relação à opinião pública mundial, revelado durante 12 anos e não só nos últimos 4 meses, serão responsabilizados pelo abalo do prestígio da ONU.

PERGUNTA: O Sr. Embaixador acha que as ópticas diferentes de Moscovo e Washington quanto às vias de solução da crise iraquiana poderão ter impacto negativo nas relações russo-norte-americanas que, contudo, se caracterizam como a parceira estratégica?

RESPOSTA: Em primeiro lugar, devo dizer que as relações russo-norte-americanas se desenvolvem, nos últimos dois anos, de forma extremamente positiva. Creio que as nossas relações podem ser caracterizadas como a parceria estratégica. A causa da cooperação frutífera em vários domínios reside no facto de os Presidentes russo e norte-americano terem reconhecido que são os interesses comuns que nos unem cada vez mais. Não obstante as divergências no caso do Iraque acredito que as nossas relações venham desenvolver-se com base nos interesses comuns.

Ao mesmo tempo, devo confessar que se não encontrarmos nos próximos dias as vias que permitirão pelo menos aproximar as nossas posições sobre o Iraque, tal poderá repercutir-se negativamente no estado das relações entre a Rússia e os EUA.

Haverá uma grande diferença entre dois eventuais cenários a seguir pela Rússia. Moscovo poderá vetar a próxima Resolução do CS da ONU ou poderá abster-se na votação. Tal Resolução da ONU, no nosso entender, seria uma avaliação objectiva de factos. O povo dos EUA e o Congresso não compreendem por que é que a Rússia não quer chamar as coisas pelo seu verdadeiro nome. Espero que, nos próximos dias, Moscovo e Washington saibam restabelecer "a frente de acção única". Caso contrário, a única pessoa que ganhará com isso será Saddam Hussein.

PERGUNTA: Senhor Embaixador, em caso de êxito da operação militar contra o Iraque não serão remodeladas as fronteiras já existentes no Médio Oriente?

Tenho em vista as mudanças de larga escala do regime estatal de toda uma série de países. Por exemplo, a formação do Curdistão independente. Previu a administração dos EUA este desenvolvimento possível dos acontecimentos?

RESPOSTA: O nosso princípio fundamental visa a estabilização da situação no Iraque e o restabelecimento deste país. Manifestamo-nos pela manutenção da integridade territorial do Iraque sem quaisquer alterações dentro das fronteiras internacionais existentes. Sabemos que podem ser realizadas pressões com o objectivo de mudar a situação no Iraque. Neste plano não excluímos a possibilidade de conflitos entre determinados grupos no Iraque. Na nossa opinião, este cenário é possível depois da queda do regime de Saddam Hussein.

Actualmente estudamos pormenorizadamente diversas variantes do desenvolvimento dos acontecimentos que podem surgir no Iraque. Os EUA farão todo o possível para evitar as divergências internas no país. Estamos também dispostos a cooperar com a comunidade internacional a fim de formar um governo que inclua todos os agrupamentos étnicos e políticos existentes no Iraque. O nosso objectivo consiste em restabelecer a estabilidade e a democracia no Iraque em cuja consequência ganharão todos os países da região.

PERGUNTA: Senhor Embaixador, como se sabe, a parte russa entregou ao Departamento de Estado dos EUA os nomes de 15 organizações terroristas para serem incluídas na "lista negra". Três delas já foram incluídas. Quando, na Sua opinião, serão incluídas nesta lista as demais organizações?

RESPOSTA: Continuamos a estudar a lista das demais organizações chechenas. Com efeito, em conformidade com a lei americana, três agrupamentos de terroristas chechenos já foram incluídas na nossa lista como organizações terroristas estrangeiras. Todos eles estiveram envolvidos no acto terrorista praticado em Dubrovka. No entanto, não posso dizer concretamente quando será tomada a decisão em relação às outras organizações terroristas chechenas. Realizamos contactos com as autoridades russas sobre algumas destas organizações a fim de obter informações suplementares que ajudem a tomar a decisão. Gostaríamos de receber provas absolutamente claras de que estes agrupamentos eram apoiados pela rede terrorista internacional e participaram nos actos terroristas concretos.

PERGUNTA: A Coreia do Norte dispõe da arma nuclear e dos respectivos vectores, em particular, dos mísseis balísticos com um alcance superior a 5 mil quilómetros. No entanto, apesar de a Coreia do Norte ser considerada como um dos chamados países do "eixo do mal", os EUA concentraram os seus esforços político-diplomáticos no derrubamento do regime de Saddam Hussein e não de Kim Jong-il. A que se deve isso?

RESPOSTA: Os EUA procuram resolver ambos os problemas. No entanto, temos atitudes diferentes para com o Iraque e a Coreia do Norte. Estamos preocupados com o facto de a Coreia do Norte ter reiniciado a realização do seu programa nuclear. De acordo com certos dados, este país pode dispor de um ou dois engenhos nucleares. Na nossa opinião, a responsabilidade por esta crise cabe inteiramente à Coreia do Norte. Pyongyang violou os entendimentos obtidos em 1994, assim como o regime do Tratado de não disseminação de armas nucleares.

A Coreia do Norte praticou estas transgressões ainda antes de o Presidente Bush ter ocupado a cadeira presidencial e antes de ele ter incluído este país no "eixo do mal". Apesar de a situação continuar muito complexa, consideramos que existe a possibilidade da solução política deste problema. Na nossa opinião, a decisão política deve ser tomada no âmbito da participação multilateral de países e da comunidade internacional, inclusive dos países que têm fronteira com a Coreia do Norte, pois dela parte uma ameaça directa para eles.

Se a Coreia do Norte estiver disposta a fazer voltar para trás e a rever as decisões tomadas, é possível que toda esta situação seja resolvida pela via política.

PERGUNTA: Qual é a posição dos EUA em relação à realização de conversações directas com a Coreia do Norte e que medidas podem ser tomadas, na Sua opinião, para superar a situação criada na Península da Coreia?

RESPOSTA: As conversações directas são possíveis, mas elas devem realizar-se no âmbito da participação multilateral de países. Não aceitamos a posição da Coreia do Norte de que esta é apenas a nossa disputa bilateral.

PERGUNTA: Qual é o motivo das divergências de posições sobre a regularização da situação em torno do Iraque entre os EUA, a França e a Alemanha?

RESPOSTA: Primeiro, importa lembrar que temos a mesma abordagem da solução do problema iraquiano com uma série de nossos amigos e aliados europeus. Não são apenas a Grã-Bretanha, a Espanha, a Itália e a Polónia, mas também a Dinamarca, a Holanda e toda uma série de outros países que representam tanto a Europa Ocidental como a Europa de Leste. Ao mesmo tempo, lamentamos que actualmente tenhamos sérias divergência com os nossos aliados próximos, isto é, a França e a Alemanha.

Quanto à França, consideramos que este país não nos revelou por completo todas as suas intenções quando votou connosco pela resolução 1441. A discussão desta resolução baseava-se no princípio de que o único meio de conseguir o cumprimento das resoluções anteriormente aprovadas pela ONU só seria possível se fosse reforçado com a ameaça real de usar a força militar.

Até mesmo a cooperação limitada que observamos por parte do Iraque não teria sido obtida sem a ameaça de "sérias consequências" prevista na resolução 1441 e sem a concentração das forças armadas dos EUA e da Grã-Bretanha em torno do Iraque. Gostaria também de indicar que o Presidente Putin confirmou este facto usando da palavra depois do seu recente encontro com o chanceler Schroeder.

Agora, provavelmente, a França e outros nossos aliados não estão dispostos corroborar estas palavras com os actos. Portanto, temos realmente divergências muito sérias. No entanto, como diplomata, não deixo de esperar que seja possível restabelecer a frente unida que entre nós existiu quando foi aprovada a resolução 1441. Se estivermos unidos, teremos a possibilidade de desarmar Saddam Hussein e evitar a guerra até mesmo no último minuto.

O novo projecto de resolução proposto não dá pretexto directo para o início da guerra. Este documento só dá a última hipótese a Saddam Hussein para que cumpra as exigências e se desarme.

RIAN

 
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