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Nem Um Humano, Só Judeus!

06.05.2011 | Fonte de informações:

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Há algum tempo, escutei a apresentação irônica, após as ressalvas politicamente corretas tradicionais, de argumento dos negacionistas dos campos de extermínio nazistas. Eles não existiriam, pois neles não morreram nenhum ser humano, "a não ser seis milhões de judeus"! Na ocasião, lembrei ao colega que a piada inaceitável tornava os seus emissor e receptores positivos de certo modo co-participes da desumanização das populações vitimadas que permitira aquele crime inominável.

 

Mário Maestri

 

            Mesmo como historiador, consciente da construção incessante das consciências, sempre me impactou o consenso construído contra, nesse caso, a população judaica, em enorme parte da Europa civilizada, nos anos anteriores e durante a II Guerra.  Não é simples apreender plenamente o processo de literal banalização da desumanização das comunidades demonizadas, que prosperou solto, durante os anos que procederam ao massacre medonho.

            Sábado passado, pela tarde, assisti o noticiário de grande rede televisiva brasileira, anunciando, com visível satisfação, que ataque aéreo da OTAN havia atingido residência de familiares de Kadafi, sem, no entanto, conseguir matá-lo, segundo fonte "não confirmadas". Enquanto a telinha transmitia celebração de rebeldes de Benghazi, apresentada como ocorrendo em Trípoli, o ancora agregou, lendo o script dos redatores da rede televisiva, que no ataque cirúrgico não havia que se lamentar a morte de civis. Isto por que teriam morrido apenas dois "netos" e o "filho" menor  do "ditador", de 28 anos, que até pouco estudava na Europa.

            Certamente informado pelo serviço secreto russo, Vladimir Putin, em visita à Dinamarca, na última terça-feira, denunciara o plano dos dirigentes da OTAN de assassinar a Muamar Kadafi. Na ocasião, perguntara : "- Quem deu o direito a eles [membros da OTAN] de sentenciar alguém à morte [...]." O primeiro-ministro russo lembrou que a ONU não autorizou - como não poderia autorizar, sob qualquer pretexto - o assassinato do dirigente líbio. 

            Horas após o ataque assassino, porta-voz da OTAN afirmou que as bombas e os mísseis daquela organização não apontam para indivíduos singulares, mas exclusivamente contra objetivos militares. A própria imprensa européia, que mantém a tradicional subserviência às ações imperialistas de seus governos, pergunta-se se isso fosse certo, como é que as bombas terminaram  sobre uma residência, em bairro residencial de Trípoli, onde se encontrava reunida, precisamente, a família Kadafi! Questão à qual os responsáveis da OTAN respondem com o mutismo das hienas que seguem silenciosas à espreita da vítima.

O planejamento da morte de um chefe de Estado, por um outro, é crime de Estado, de extrema gravidade, sancionado penalmente pelo direito internacional.  Uma ordem de ataque direta, tomada inarredavelmente a frio pelos representantes máximos das três grandes nações envolvidas nos fatos, absolutamente despreocupados com as inevitáveis vítimas civis, constitui ato de terrorismo de Estado que passa a pesar sobre os senhores Sarkozy, Obama e Cameron.

Um ato terrorista de Estado que certamente não causará impressão, se não despertar regozijo, entre enorme parte da população européia e estadunidense. Isto porque ele ceifou a vida de um jovem homem e de três crianças certamente árabes e possivelmente muçulmanas. Raça e religião demonizada nas últimas décadas, igualmente a partir das necessidades de rapina do mundo pelo grande capital. Portanto, não há, nos fatos, a lamentar perdas, nem civis, nem humanas.

 

* Mário Maestri, 62, é historiador. E-mail: maestri@via_rs.net

 
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