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Estadia no planeta FARC

02.12.2004 | Fonte de informações:

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Eu tive esta oportunidade de poder fazer uma idéia a partir de minha própria experiência, tive a inesperada sorte de compartir a vida cotidiana de um acampamento guerrilheiro e isso é o que quero contar a todos os que não são ainda presos do pensamento único e que ainda se perguntam, quais são as alternativas?

O que sabia das FARC se pode resumir assim: uma velha guerrilha comunista de 40 anos dirigida por um tal Manuel Marulanda Vélez, aliás, Tiro Fijo. Escutava também que havia perdido sua linha revolucionária e que, longe de querer uma verdadeira transformação social, Marulanda se havia transformado no chefe supremo de um quartel poderoso, utilizando os campesinos para seu próprio enriquecimento; escutava uma e outra versão que justificava o tráfico de drogas como tática e, ao mesmo tempo, como meio de sustentação da “narcoguerrilha”, utilizando os próprios dólares do cliente gringo para comprar as armas que serviriam para sua própria destruição.

Tanta polêmica alimentou meu desejo de ver... pra crer. Desejo que ficou muito tempo como sonho irrealista e que tomou forma num momento inesperado porque não tive que buscar as FARC, senão que elas me encontraram.

Assim que lhes contarei aqui minha viagem para o desconhecido, plena de certa mistura de preocupação e excitação, somente para saber.

Depois de horas de viagem por caóticas estradas de chão, cheguei cansada às duas da manhã a uma pequena propriedade onde me receberam uns rapazes vestidos de civil, armados de fuzis e rádios de comunicação. Sugeriram-me descansar um momento porque “dentro de algumas horas nos iremos a uma longa caminhada”. Assim foi o primeiro contato simples e pragmático.

Caminhando atrás do guia, encontrávamos campesinos que nos saudavam. Entramos na selva, sem quase abrir a boca chegamos, por fim, ao acampamento. Ali, de imediato, senti a tranqüilidade e a beleza do lugar. Uma espécie de vilarejo em meio da selva, sob os braços protetores das grandes árvores, à medida que avançava encontrava olhares amáveis, sorrisos de boas-vindas, caras abertas de homens e mulheres todos vestidos de camuflagem e armados que, ainda que calados, me ofereciam o calor de seu lar.

E soube que não me havia equivocado, porque rapidamente vi que não me encontrava em meio de um bando de bandoleiros sanguinários. Comprovei com meus próprios olhos que esta “rapaziada” estava construindo um sistema social baseado em outros valores e que esta utopia a viviam no dia-a-dia de sua vida.

Meu encontro com os comandos deste Exército confirmou meu sentimento e transformou definitivamente minha visão da autoridade militar. São militares, sim, porém não somente pelas armas e os uniformes, também pela organização e o alto nível de disciplina que têm. Neles se sente a autoridade que surge da capacidade adquirida pela experiência acumulada através dos anos de luta, do dom de comando e da certeza de lutar pelo justo. Encontrei homens e mulheres de uma força, de uma clareza, erudição, jovialidade e simplicidade que não se pode imaginar na sociedade que conhecemos. Aqui nas FARC o homem novo que sonhava o Che existe desde há muito tempo.

Não se terminava meu primeiro dia na selva e já me sentia em casa, tinha a sensação de estar descobrindo um novo mundo. Dormi, na minha barraca (caleta) – suave cama construída com folhas e madeira – mirando as estrelas e dormi um só sono.

Não faz falta descrever o dia de um guerrilheiro. É disciplina, trabalho, estudo, com suas guardas, avançadas, as comissões que saem para diferentes missões e treinamento militar. As ordens se dão com respeito e se cumprem com consciência, cada tarefa se realiza com bom humor porque cada um sabe porque está aqui e se dedica à coletividade.

Cada guerrilheiro te pode explicar muito claramente que, antes de ser militar, é um militante do Partido Comunista Clandestino – que tem muitos militantes civis –, que todas as atividades das FARC-EP são determinadas por princípios marxistas-leninistas e do Libertador Simón Bolívar, cujo pensamento está enraizado em seu povo desde a época da independência e hoje é vida cotidiana, é a realização da sociedade que se propõem criar as FARC.

A organização não forma soldados, mas sim homens e mulheres completos com boa educação e qualidades humanas, ali se encontram todas as camadas sociais, a maioria são campesinos, porém, na mesma tropa compartilham com médicos, universitários, engenheiros, operários, filósofos etc.

As responsabilidades se ganham pelo valor de seus atos e não pelo que fazia na vida civil, assim cada um tem o grau que merece, sem tratamento preferencial, porém sempre respeitando as capacidades próprias de cada um. Nesse ambiente tranqüilo, tinha tendência a esquecer a guerra feroz que se trava, a crueldade dos combates. Sempre o guerrilheiro está pronto para o pior.

Estes homens e mulheres sacrificam tudo para alcançar a paz e a justiça, porém quanto ganham em humanidade! Não tenho palavras para expressar a dor que invade a assembléia quando, reunida na sala central diante de um televisor, se anuncia um novo massacre em Colômbia ou nos povoados do planeta, por conta dos EEUU.

Pensai, a vocês também doem os povos do mundo?

Esperando que esta aventura de uma francesinha sob o imenso mar verde da selva colombiana, ao calor do sol de janeiro possa inspirar a outros na busca da verdade.

Valerie

 
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