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O esquecimento de Kemal Zughayer

02.08.2006 | Fonte de informações:

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As imagens que o Fazendo Media usa nesta série de reportagens sobre os crimes de guerra que ora se cometem no Oriente Médio são fortes, mas poderiam ser piores. Não faltam exemplos de atrocidades israelenses que serão devidamente apagadas e substituídas pela imagem de árabes demonizados e transformados em "monstros", enquanto terroristas de Estado são mostrados como racionais e civilizados e podem até ganhar o Prêmio Nobel da Paz.

O alarde de alguns casos trabalhados com afinco pela imprensa empresarial se transforma em silêncio, dependendo de quem for a vítima.

Na primavera de 2002, por exemplo, o então líder israelense Sharon investiu duramente contra um campo de refugiados em Jenin, deixando um rastro de destruição. Os jornalistas britânicos Justin Hugles e Phil Reeves, do jornal The Independent, descobriram à época "os restos esmagados de uma cadeira de rodas" nas ruínas de um acampamento. "Ela estava totalmente esmagada, achatada como se fosse uma caixa. No meio dos escombros, havia uma bandeira branca esfarrapada", escreveram os jornalistas.

Fatos minimizados


A reportagem, de 25 de abril de 2002, relata que um palestino aleijado, Kemal Zughayer, foi morto à bala enquanto tentava subir a estrada em sua cadeira de rodas. "Os tanques israelenses devem ter passado por cima de seu corpo, porque quando [um amigo] o encontrou, faltavam ao corpo uma perna e os dois braços. O rosto, ele contou, estava partido em dois", escreveram Hugles e Reeves.

"Ainda que noticiado nos Estados Unidos, tal fato seria minimizado como um erro involuntário no curso de uma retaliação justificada", opina Noam Chomsky. "Kemal Zughayer não merece ser incluído nos anais do terrorismo [ao lado de vítimas israelenses]. Seu assassinato não foi comandado por um monstro, mas por um homem da paz [como George W. Bush classifica Ariel Sharon], que mantém relações calorosas com o homem de visão que habita a Casa Branca".

Novamente, em 2006, não faltam atrocidades provocadas por armas de destruição em massa dos Estados Unidos e de Israel. Em um dos mais recentes, uma mulher e seis crianças morreram no vilarejo de Nmeiriya, no sul do Líbano, vítimas de um bombardeio aéreo esta semana. De acordo com o Ministério da Saúde do Líbano, mais de 750 pessoas - em sua maioria civis - morreram em ataques de Israel desde o início do conflito, no início de julho de 2006. Do lado israelense, morreram pelo menos 51 pessoas, sendo 18 civis. Segundo as Nações Unidas, ao menos 30% dos mortos no Líbano são crianças.

"O chicote paira sobre suas cabeças"


Em 2002, em Jenin, Nablus, Ramallah e outros lugares, Sharon tomou de assalto estas cidades, nivelando áreas com escavadeiras e tanques, sitiando a população durante semanas sem comida, água ou acesso à assistência médica, destruindo centros culturais, instituições governamentais e tesouros arqueológicos, deixando absolutamente claro - conforme escreveu Boaz Evron, destacado comentarista da imprensa empresarial israelense - que "o chicote paira sobre suas cabeças". Segundo a lógica de Evron, se opor a isso é sinônimo de antisemitismo.

É comum ouvir na imprensa empresarial brasileira e internacional que, em decorrência destas atrocidades, a "imagem" de Sharon, Bush, Blair e outros líderes identificados com o poder militar foi atingida. A reparação aos acontecimentos é feita a fim de "resgatar a imagem de liderança na região", ao passo que a reparação às famílias das vítimas nem sequer é citada por esta mesma imprensa. Uma visão fácil de ser entendida por executivos da área de marketing, mas incompreensível em uma profissão que tem como imperativo a informação voltada para o interesse público.

[http://www.fazendomedia.com/diaadia/nota010806.htm]

Editorial Fazendo Media

www.fazendomedia.com

A despeito da imbecilidade humana, que avança em progressão geométrica, por exemplo, ao debater “crimes de guerra”, como se a própria guerra não fosse um crime em si, o genocídio promovido por EUA e Israel no Oriente Médio segue avassalador.

Para ser noticiado foi preciso que o massacre adquirisse proporções capazes de tornar impraticável a omissão da imprensa hegemônica, até mesmo para que ela não caísse em descrédito absoluto.

Mas não nos deixemos enganar. Essa mídia, sustentada pelos mesmos interesses que aterrorizam o Oriente Médio, não vai além do superficial, embora, nesse caso, o superficial possa ser confundido com denúncia contundente. Não é. Imagens chocantes têm o poder de chocar, mas não de explicar.

Essa mesma imprensa silenciou durante décadas enquanto terroristas de terno e gravata tomavam de assalto EUA e Israel. Durante anos, enquanto esses dois países oprimiam o resto do mundo, o que se viu foi o silêncio cúmplice dos meios de comunicação de massa. A cada lei sórdida aprovada sem debate, a cada Ato Antipatriótico imposto pelo Império, nada se via além de discussões sobre o aborto ou o casamento gay.

Ou será que um Estado terrorista surge assim, de repente, da noite para o dia?

A verdade é que a mídia hegemônica não está verdadeiramente interessada em salvar vidas no Oriente Médio. Desgraça vende. Além disso, os principais órgãos de imprensa dos EUA pertencem à indústria bélica. E na terminologia das corporações, genocídio vira “guerra”. Assassino de terno e gravata vira “líder”. Resistente vira “terrorista”. E quem não concorda com o coreto vira “anti-semita”.

E assim o controle da produção subjetiva se explica. Porque há sempre o receio de que chefes de outros Estados, amparados pelas massas, cortem relações diplomáticas com os criminosos. E dessa forma ameacem a única preocupação real dos governos terroristas e seus acionistas: o lucro ilimitado.

A propósito, o que fazem os EUA no Iraque enquanto a covardia israelense destrói Líbano e Palestina?

Gustavo Barreto, para o FAZENDO MEDIA, 01.08.2006

 
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