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A nervosa transição da China

01.10.2008 | Fonte de informações:

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A nervosa transição da China

O escândalo do leite em pó e ventos econômicos mundiais gelados estão diminuindo a euforia pós-Jogos Olímpicos e submetendo a um teste novo a liderança política da China, diz Kerry Brown

É uma volta violenta à realidade na China. Os efeitos de uma nova era de turbulência financeira global, e um escândalo local a propósito de leite em pó adulterado, começaram a empurrar os Jogos Olímpicos de Beijing para a história. Uma torrente de desafios políticos e econômicos está à espera da liderança política do país. Talvez mais fundamentalmente, um extraordinário ano de crise e realização entra em seus estágios finais com perguntas novas que vêm à tona a respeito do futuro do próprio tão alardeado modelo industrial da China.

Um olhar para trás

Verdade, os eventos do fim do verão na capital da China não terão permissão para esvaírem-se, sem mais aquela, no ralo da memória - ao contrário de tantos outros eventos da moderna história da China. O Presidente Hu Jintao não é um homem expressivo; entanto, mesmo seu sempre-presente enigmático sorriso pareceu adquirir reflexos sinceros na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Beijing em 24 de agosto de 2008. Não é de admirar: O gasto da China, de $44 biliões de dólares, teve sua recompensa no recorde de cinquenta e uma medalhas de ouro que a China reivindicou. O entusiasmo esportivo de dezesseis dias de competição, e dos Jogos Paraolímpicos de exaltação da vida de 6-17 de setembro que se seguiram, fizeram com que os problemas de um ano difícil - do Tibete à poluição do ar, do protesto social à corrupção - parecessem distantes (mesmo com o desassossego em Xinjiang, a mais problemática de todas as regiões indóceis da China, tendo sido sentido mesmo durante os jogos).

O próprio povo chinês pareceu ficar à altura da ocasião, na sua apreciação das esplêndidas diversões do esporte (ver Li Daton, "Os Jogos Olímpicos de Beijing: o último prêmio", 29 de agosto de 2008). Agora, porém, tanto para o governo quanto para os cidadãos, é a volta à realidade - como os problemas financeiros globais e a escalada do escândalo do leite em pó revelam de maneira clara até demais.

Nada obstante, mesmo em meio a esses novos testes econômicos e sociais, os membros do politburo da China ainda se sentirão obsequiados quando se reunirem da próxima vez para fazer uma avaliação de todo o transcurso dos Jogos Olímpicos. Não se pode negar a eles, sem incorrer em injustiça, uns poucos momentos de autocongratulações pela hospedagem do estado àquilo que foi sem dúvida um evento extraordinário. Talvez eles façam uma pausa por alguns momentos, também, para marcar o falecimento, durante os jogos, do homem responsável pela China quando o processo de reforma começou em 1978.

Hua Guofeng - o homem esquecido da política chinesa, embora tenha sido o sucessor pessoalmente escolhido por Mao Zedong - morreu em 20 de agosto de 2008, com a idade de 87 anos. Para seu rival político Deng Xiaoping vai toda a glória pelo que aconteceu durante as liberalizações iniciais nos anos 1980; mas Hua merece crédito pelo rápido desafio à liderança radical da "gangue dos quatro" e por ter tornado a transição para a era reformista tão serena quanto enfim foi. É fácil, hoje, esquecer o quanto a China era potencialmente instável naqueles sinistros primeiros anos seguintes à morte do "grande timoneiro". Não aconteceu, mas talvez os Jogos Olímpicos devessem ter sido interrompidos por apenas um minuto para registrar o passamento de um homem que foi servo tão fiel do partido.

De qualquer modo, o perfil dos novos obstáculos a serem enfrentados pelo partido e pelo estado estão-se já mostrando visíveis, agora que os jogos acabaram. A Exposição Mundial em Shanghai em 2010 - o próximo "grande evento" - gerará grande entusiasmo e orgulho, mas não alcança o mesmo nível do maior evento esportivo do mundo. Muitos chineses já sentem como que um despertamento com sensação de ressaca, que a controvérsia do leite em pó - que já reclamou tanto vidas quanto baixas políticas - só intensificará. Ademais, as aflições econômicas consumindo grande parte do mundo estão fustigando com um vento gelado a usina de força econômica chinesa. Nessas circunstâncias, o espaço do politburo para silenciosa satisfação - se chegar a existir - será pequeno.

O preço da reforma

É aqui que há um estado de coisas do qual os Jogos Olímpicos, com seu comercialismo de fio a pavio, representam um grande e simbólico final. James Kynge, ex-correspondente do Financial Times em Beijing e autor de A China Sacode o Mundo (Orion, 2007), delineou, em termos precisos, as aflições da liderança, numa excelente análise recente.

O resto do mundo vem sendo beneficiado, há dez anos, pelos benefícios da exportação da deflação pela China. As exportações chinesas, assentadas em trabalho barato e baixos custos de manufatura, fez os preços dos bens de consumo despencarem. Grande parte do mundo cozinha em grelhas para churrasco que custam menos do que a carne que é nelas preparada. Entretanto, como destaca, há uma grande falsidade em tudo isso: pois os preços dos elementos chineses envolvidos no processo - terra, capital, custos do trablaho, transporte - foram, todos eles, estabelecidos pelo estado, e mantidos muito abaixo do preço adequado de mercado.

 
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