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O arrastão dos boatos

16.06.2005 | Fonte de informações:

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O famoso “arrastão” na Praia de Carcavelos no final de semana passada deixa a nu o espírito leviano corrente em Portugal, país no cruzamento colocado por uma crise profunda económica e a procura de valores sociais, depois do tecido social ter sido esticado ao ponto de rompimento pela coligação PSD/PP, herdeiros de Cavaco Silva.

Para quem passou o final de semana entre 10 e 13 de Junho fora de Portugal, que foi meu caso, e chegou a Lisboa no dia 14, pedindo uma síntese dos principais eventos, há duas reacções: tristeza pela morte de três indivíduos que traziam cor à sociedade portuguesa e não só (Álvaro Cunhal, Vasco Gonçalves e Eugénio de Andrade) e uma mistura de consternação e incredulidade relativamente à maneira em que é contado a história dos vários distúrbios ocorridos entre o Dia de Portugal e Dia de Lisboa.

Portugal há muito tempo é país dos boatos, a sociedade tendo a capacidade de enviar à praça pública histórias só depois contadas pela imprensa, ou então nunca contadas pela imprensa, vejam por exemplo o caso das Amoreiras e os videotapes, um certo arquitecto e certas meninas e senhoras e o Ministro das Finanças, no então governo do Professor Doutor Cavaco Silva.

Para quem quiser saber o que aconteceu, nem vale a pena pesquisar nos arquivos da imprensa, basta perguntar a qualquer cidadão e depois saberá a história dum jogo perverso de cadeiras e câmeras de filmar.

Passados dez anos, temos agora outro caso, o do Arrastão da Praia de Carcavelos. O quê? A primeira notícia via-se nas páginas da imprensa nacional, com títulos do calibre “Pânico na Praia”, com textos que aludiram a 500 pessoas de raça negra que se juntaram na praia de Carcavelos perto de Lisboa, e fizeram um arrastão, agredindo as pessoas e roubando tudo que apareceu à frente.

Durante os dias que seguiram, o número baixou de 500 para 400, 300, 200, 100 e agora, 50 e a “cor da pele” mudou de “negro” para “mulato”, a etnia/nacionalidade oscilando entre o “africano”, “português” e “brasileiro”, sendo os perpetradores guiados por africanos, portugueses, brasileiros e de acordo com uma fonte, a máfia russa.

Se não fosse tão grave, seria engraçado. Imaginem, entre 50 e 500 negros/brancos/mulatos, de etnia/nacionalidade africano/português/brasileiro, comandados pela máfia russa a tirar meia dúzia de tostões dos frequentadores da praia de Carcavelos, antigamente chamada Praia da Póia.

Ou será que foram poucas dezenas de pessoas oriundas das favelas à volta de Lisboa, que decidiram marcar o Dia de Portugal por afirmarem sua presença, reclamando contra a exclusão social que sentem e contra o alegado fecho duma fonte de água que servia uma parte substancial da população dum desses bairros?

Será que a grande maioria foram menores que só apareceram porque parecia uma boa ideia porque não tinham mais nada a fazer e senão, por quê não? Será que a grande maioria estiveram na praia por causa de pressões exercidas por pares mais velhos?

Quem sabe? De qualquer forma, é inaceitável que uma pessoa não possa gozar a praia no final de semana por medo de ser assaltado mas também é inaceitável a reacção que grassa na praça pública.

A primeira reacção foi de comparar o arrastão de Carcavelos a aquilo que acontece de vez em quando no Brasil. Uma palavra amiga e de conselho aos portugueses: não se comparem ao Brasil, senão correm o risco de entrar em psicose profunda com complexo de inferioridade. Se vão comparar-se ao pior que acontece no Brasil, então se comparem ao melhor e depois façam uma análise mais profunda. E se lembrem que o monstro de Fortaleza é português.

A segunda reacção foi culpabilizar os africanos ou filhos destes pelo acontecido. Para indivíduos que proferem esse tipo de argumento, basta dizer-lhes que são ignorantes, imbecis e incapazes de formar uma opinião que presta. Bastaria levar essas almas para uma faculdade onde estudam estudantes dos PALOPs para ver o empenho, o amor e a dedicação com que se entregam aos estudos e depois comparar com alguns dos alunos europeus, que mandam arrotos nas aulas e se recusam a fazer os trabalhos.

Culpabilizar o europeu para tais actos seria um absurdo, como é culpabilizar o africano, brasileiro ou seja quem for para os actos perpetrados por uma minoria. Responder com manifestações de skinheads, como é pretendido por alguns em Portugal, é uma estupidez, pois nem os portugueses gostam de racistas, nem os racistas têm algo a ver com os portugueses, pois Portugal é um país pluri-cultural e o português é um povo multi-étnico.

Conselho: Deixem lá isso. Em 26 anos em Portugal tive problemas duas vezes na rua e cada uma das vezes foi com portugueses, brancos. Dei a volta nas duas situações, saindo delas a bem, pela capacidade de conversar.

Sem mais palavras.

Timothy BANCROFT-HINCHEY PRAVDA.Ru

 
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