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Galeano e Saramago

11.02.2005 | Fonte de informações:

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O PT e o governo Lula possuem uma semelhança muito grande com outros governos de esquerda com vontade de mudança. Para Eduardo Galeano, que falou à imprensa neste sábado, durante o V Fórum Social Mundial, essa vontade gerou uma grande expectativa nos movimentos sociais e no povo de uma forma geral. O escritor uruguaio autor de “As Veias Abertas da América Latina” lembrou pesquisa recente que demonstra que muitos jovens não crêem na democracia.

“Não se pode culpá-los. A democracia não tem feito muito”, disse Galeano, que espera que este regime de governo volte a ser - com a ajuda do Fórum Social - um “espaço de encontro” dos povos. Mas não se deve ter ilusões: o próprio Território Social Mundial – área onde ocorre o Fórum de 2005 – é muito mais um reflexo deste mundo que queremos mudar do que propriamente um outro mundo. “Estamos em um mundo que possui uma estrutura de poder que não é democrática”, avalia. “Mas a democracia é exatamente este espaço de encontro”.

O escritor português José Saramago concordou: “É um desafio. Estes governos de esquerda pretendem implementar algumas propostas que não foram realizadas em nenhum lugar do mundo. De qualquer maneira, estes problemas que o Fórum Social propõe resolver não são apenas do Brasil, são do mundo. E o Brasil deve decidir se quer usar estas experiências”.

Universidade e ignorância

Dizendo-se “filho dos cafés de Montevidéu”, Galeano lembrou que nunca passou formalmente pela universidade. O mesmo ocorre com o português. “Apesar disso, trabalhei por alguns anos na biblioteca. Mas foi nos cafés de Montevidéo que aprendi muita coisa, no tempo que a gente tinha tempo para perder tempo, que era na verdade uma forma de ganhar tempo. E lá também aprendi uma coisa muito importante. Aprendi a contar histórias, principalmente nas conversas de futebol”, disse o uruguaio.

Galeano acredita que o fenômeno da especialização, que ele considera uma tendência mundial, é um dos maiores males das universidades. “Tenho pânico de especialização. É incrível a infinita capacidade de ignorância que podem ter os sábios”. Saramago concordou, lembrando o caso de um prêmio Nobel - que o português encontrara recentemente – que, mesmo tendo o respeito da comunidade científica mundial, acreditava que a teoria do Criacionismo possuia algumas verdades históricas e científicas.

Futebol e ditadura

A pedido de um dos jornalistas, Galeano e Saramago falaram sobre futebol, um dos esportes mais populares em todo o mundo, e as possibilidades que surgem dessa atividade. “Há que se distinguir entre o futebol profissional e as peladas [jogos informais de bola]. É preciso também não confundir ascensão social com ascensão à riqueza. Quando falamos de futebol profissional, você deve analisar o universo de todos os jogadores de futebol, e não apenas de alguns Ronaldos ou Ronaldinhos”, disse Saramago.

“É bom lembrar que os jogadores são empregados. Não possuem qualquer liberdade. Na ditadura do futebol profisional, há um nível de impunidade tão grande que os jogadores, como empregados, não possuem direitos trabalhistas assegurados. Eles não têm a menor possibilidade de decidir as coisas”, reafirmou Galeano.

O uruguaio argumentou que algumas das experiências poderiam servir de exemplo para um outro mundo possível. “Veja o caso da Finlândia. No futebol, temos o cartão vermelho, que é a morte, e o amarelo, uma espécie de purgatório. Na Finlândia, inventaram o cartão verde, que é uma recompensa para os jogadores que joguem limpo ou que façam algum tipo de boa ação no campo. É uma idéia”, concluiu. (GB, 29/1)

+++++ A Revolução em curso no Fórum Social Mundial

Confusão na programação, palestras com pouco espaço físico, hospedagens alternativas um pouco precárias e distância entre alguns eventos. Tudo isso poderá ser falado pelos críticos destrutivos – entre eles todos os grandes jornais, rádios e tevês -, mas nada se compara à revolução silenciosa que está em curso. Ou, melhor dizendo, não tão silenciosa assim.

Ocorre que há muito sociólogos e analistas deste outro mundo que queremos que já vem apontando qual é um dos nossos principais desafios: fazer com que as pessoas saibam que as outras pessoas também não estão contentes.

O escritor Noam Chomsky já alertou diversas vezes que esta é um das funções, por exemplo, da TV. Quando o cara vê uma daquelas reportagens absurdas que exalam publicidade descarada, ele começa a se questionar. Minimamente a se questionar. Só que, como está sozinho, acaba achando que está maluco e fica com aquela impressão de que não ouviu, de fato, aquela informação.

Pois bem. É isso o que o Fórum – e cada vez mais – está fazendo. Há uma enorme diferença entre (I) povos que lutam contra a agenda conservadora do FMI e do Banco Mundial e (II) estes mesmos povos, com as mesmas lutas, só que conscientes de que em todos os lugares essa luta existe.

Seja em relação à questão da água, da terra ou dos direitos econômicos. Da educação à saúde, do meio ambiente à espiritualidade. É fato – como pode se observar neste Fórum – que há uma agenda minimamente comum contra as explorações cada vez mais evidenciadas e denunciadas. Essa agenda começa a se transformar rapidamente em ações mais consistentes.

Minimamente comum, eu digo, mas que tem um poder sem precedentes na História do planeta. O nome deste poder foi vislumbrado por muitos autores como uma nova “cidadania universal”. Eu prefiro chamar de povo mesmo. (GB, 29/1)

Notas

A gestão federal do PT está decepcionando muita gente – e com razão -, mas o programa de orçamento participativo continua a servir de exemplo para muitos países do mundo. Um representante da Noruega declarou que o modelo já está sendo implementado em Oslo, capital do país, e que em breve chegará a outros municípios noruegueses. (GB, 29/1)

Balanço e manifestações culturais encerram quinta edição

Segunda-feira (31/01), a partir das 8h30, ocorre a solenidade de encerramento do Fórum Social Mundial 2005. O ato ocorre na orla do lago Guaíba, próximo à Usina do Gasômetro. Será apresentado um balanço com os números do Fórum e as definições do Conselho Internacional para 2006 e 2007. Logo após estão previstas diferentes manifestações culturais, mostrando a diversidade presente nesta quinta edição.

Gustavo Barreto 29/01/2005

 
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