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A semana revista

04.01.2004 | Fonte de informações:

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Esta semana viu voos comerciais a serem escoltados à chegada nos EUA por caças militares, enquanto Washington e Londres activaram a “alerta laranja”, o segundo mais alto estado de alerta. Estes dois países por qualquer razão se sentem nervosos, sendo estes os países que decidiram unilateralmente desrespeitar a carta da ONU e as Convenções de Genebra, perpetrando um acto de chacina no Iraque, um acto de guerra que viu morrer dezenas de milhares de pessoas e as infra-estruturas do Iraque destruídas, sem qualquer base legal ou fundo moral. Por qualquer razão Washington e Londres estão de alerta e por essa razão hão-de continuar em alerta, pois foram cometidos crimes de guerra e assassínio em grande escala.

A noção de que os Estados Unidos da América são e sempre foram associados com o terrorismo internacional é reforçado com a abertura dos arquivos de 1973 em Londres, onde se pode ler a documentação relativamente ao plano de Washington de invadir a Arábia Saudita em 1973 como consequência do aumento em flecha dos preços de petróleo. Os Estados Unidos da América consideraram que as suas forças armadas tinham o direito de intervir militarmente num país soberano simplesmente porque Riyade não seguia uma política favorecida por Washington. Na altura, a única razão que impediu a invasão era porque havia uma União Soviética. Já que não há, vejam como se comporta um Washington sem freios.

No seu discurso do início do ano, o Papa João Paulo II apelou para uma nova ordem mundial em que há mais respeito pela lei e em que o papel da ONU é realçado. Neste discurso, o Papa repetiu as palavras e sentimentos expressos pela maioria da humanidade e seus líderes durante o ano de 2003 – revulsão, repugnância, choque e pavor contra a política de Washington, fielmente seguido pelos seus lacaios, Londres, Madrid, Lisboa e Roma, entre outros sicofantas, numa demonstração duma falta de carácter colectiva jamais visto.

No Reino Unido, o tema do final do ano para os telespectadores foi o filme Air Force One, em que Harrison Ford, Presidente dos EUA, é raptado no seu avião oficial por nacionalistas russos e no dia seguinte, dia 1 de Janeiro, o BBC mostrou um documentário sobre a Rússia de hoje, indicando os problemas e as lacunas e ignorando os grandes avanços feitos por Vladimir Putin. A imprensa ocidental é russófobo. Onde não existe ameaças, têm de as inventar, o que se vê agora cada vez mais claramente a cada dia que passa.

No plano internacional, o Iraque continua a ser um país totalmente desestabilizado pelas forças militares anglo-americanas. Caminha cada vez mais perto do precipício que é a implantação dum regime favorável a Washington, que a seguir será deposto num banho de sangue, com dezenas de facções a lutarem entre si, enquanto entre a população começa a ganhar forma a noção que o tipo de regime mais favorecida seria um estado islâmico fundamentalista, regida pela Sharia – um belo epitáfio para a política externa desastrosa dos protagonistas Bush e Blair.

Na época festiva, as bombas e os ataques contra os militares invasores não pararam, a resistência iraquiana agora é ajudada frequentemente por grupos terroristas que só entraram no país como reacção às acções dos EUA e Reino Unido, cujo Primeiro Ministro Tony Blair visitou Basra este final de semana, louvando as suas tropas e falando outra vez no terrorismo internacional, como se o Iraque de Saddam Hussein tivesse qualquer ligação com esses grupos.

Em Portugal, o tema do fecho do ano passado foi o mesmo no início de 2004 – pedofilia, com o caso Casa Pia ainda a adornar as primeiras páginas da imprensa. No dia 1 de Janeiro os portugueses aprenderam que tinha havido acusações anónimas feitas contra o Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, e outras figuras políticas ligadas ao Partido Socialista.

Se bem que Portugal e os portugueses adoram ficar na lamúria, numa êxtase de auto-criticismo e teimam em fazer play-backs repetidas e contínuas das cenas mais negativas que os rodeiam, este caso Casa Pia, que já entrou no circo internacional, é um bom exemplo da mania de inferioridade que tem este povo e este país.

Por lamentável que seja a prática de actos pedófilos, ainda por cima com crianças desprotegidas ou em risco de exclusão social, há que ver que não está em causa a moralidade do povo português mas sim, a mão-cheia de pessoas envolvidas. Ainda por cima, Portugal em geral esqueceu-se que até ser provado ao contrário no devido foro de lei, uma pessoa é inocente de qualquer crime.

Esqueceram-se que noutros países, há registos policiais com dezenas de milhares de pedófilos – cem mil no Reino Unido – mas em nenhum desses países param durante um ano a vasculhar o lixo, a cometer um acto colectivo de auto-flagelação.

Portugal é um país que sofre de falta de liderança política. A coligação PSD/PP se demonstrou rotunda e completamente incapaz de gerir o país e de instilar na sociedade portuguesa alguma esperança no futuro, alguma confiança, que é preciso para que a economia cresça.

Não vale a frase “a crise é mundial”, pois em muitos países, essa “crise” nem se sente. Portugal é um país que tem um governo e uma governação desumana, incapaz, incompetente e inteiramente responsável pela onda de negativismo que grassa no país. Não há qualquer justificação pelo facto que há um crescente número de desempregados que só irão receber o primeiro subsídio seis ou sete meses depois de perderem os empregos.

Não se justifica que pessoas da dita classe média se vêm a braços com uma situação em que são esforçados a pedir auxílio financeiro dos amigos e familiares para não passarem fome, porque o estado português (aquele estado que é tão rigoroso na exigência dos pagamentos dos seus cidadãos em impostos ou coimas, aquele estado que é o maior calão no pagamento de subsídios que, a priori, são dados adquiridos e não favores) não tenha uma gestão financeira que permita aos serviços pagarem o que devem a quem tem direito a receber.

Não se justifica que em Portugal não se noticia o excelente trabalho pelo ICEP na divulgação do Euro 2004, nos quatro cantos do mundo, não se justifica que em Portugal o governo nem tenta criar um clima de optimismo, favorecendo, aliás, um clima em que aparece uma onda de boatos, envolvendo o Partido Socialista, o maior partido da oposição, num caso Casa Pia, quando ainda nem começou o caso nos tribunais da lei. Conforme a coligação PSD/PP apoia o acto de chacina perpetrado pelo aliado Bush, violando a lei internacional, parece que também nem por isso tem muito respeito pelas instituições nacionais, porque boatos não são factos, coscuvilhice não tem substância e o país simplesmente não pode continuar assim, gerido por uma cambada de pangaios que são incapazes de zelar pelos interesses do povo que os elegeu. O caso Casa Pia veio criar uma manta, protegendo as incapacidades deste governo cripto-fascista do PSD/PP. Quão conveniente seriam os boatos envolvendo o maior partido da oposição…enquanto que se abrir o armário, cai o esqueleto de Catherine Deneuve. Numa nota mais internacionalista e positiva, há que apontar o levantamento das sanções dos EUA sobre Irão, para dar a oportunidade das agências humanitárias terem acesso ao país, que perdeu 30,000 almas em Bam. Há que esperar que a “cauda” que irá seguir este apoio tão altruísta não seja demasiado intrusiva. A ajuda humanitária é um dado inegável, não uma dádiva.

Finalmente, Professor Colin Pillinger, mentor da missão Beagle 2 britânica a Marte (que desapareceu no dia 25 de Dezembro) deu os parabéns à NASA pelo sucesso da missão iniciada hoje, de fazer aterrar (amartar?) um veículo que irá ao encontro das nossas questões mais básicas: Quem somos? De onde viemos? Estamos sozinhos?

Timothy BANCROFT-HINCHEY PRAVDA.Ru

 
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