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Brizola e a história

29.06.2004 | Fonte de informações:

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Nós, do PT, aprendemos a admirá-lo nas alianças e a respeitá-lo nas divergências. Se em determinadas conjunturas estivemos em lugares diferentes, do ponto de vista das questões históricas relativas ao Brasil estivemos do mesmo lado. Nos últimos anos divergimos sobre o papel do Estado, do mercado e do capital estrangeiro. Historicamente estivemos juntos no combate às injustiças, na busca de uma sociedade eqüitativa e na defesa dos interesses do Brasil e do povo mais humilde.

A julgar pelas análises que estão sendo feitas acerca do significado político de Brizola, os livros de história certamente apresentarão versões contraditórias. Alguns dos papéis que as páginas já escritas pela historiografia lhe reservam precisarão ser revistos. Por exemplo: é inaceitável que alguns historiadores apresentem Brizola e seu suposto radicalismo como responsáveis pelo golpe militar de 1964. Cada sujeito deve ser julgado pelos seus atos, pelas suas intencionalidades e pelos objetivos de suas ações. Atribuir a responsabilidade a alguém pelas ações dos outros se trata de um arbítrio interpretativo inaceitável.

A historiografia criteriosa haverá de apresentar Brizola como aquele que adiou o golpe em 1961 e resistiu a ele em 1964. A Rede da Legalidade constituiu uma das mais belas páginas de civismo e de coragem da política brasileira do século XX. Junto com ela, a resistência que opôs ao golpe inscreve Brizola no rol dos grandes democratas. Sugerir que Brizola não era democrata por conta de críticas que fazia ao caráter conservador do Congresso e porque propunha a convocação de uma Constituinte, no contexto pré-1964, é uma análise que não resiste à confrontação com os fatos e com as posturas práticas que Brizola adotou ao longo de sua vida política.

A historiografia precisa rever também a qualificação de “caudilho” que atribui a Brizola. O escritor Moacir Scliar tem razão quanto sustenta que nem Brizola e nem Getúlio Vargas eram caudilhos assemelhados ao tipo de liderança que surgiu no século XIX nos países do Rio da Prata. Herdeiros das tradições políticas de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, Vargas e Brizola representavam lideranças fortes, defensoras de um viés preeminentemente estatizante e paternalista da ação política, derivado da ideologia do positivismo. Foi dessa fonte, inclusive, que nasceu o trabalhismo de Vargas e Brizola e do velho PTB.

A grande lacuna na vida política de Brizola consistiu em não chegar à presidência da República. Não por falta de méritos seus, mas devido às injunções do regime militar e do exílio. Ao voltar para sua pátria com a anistia, o Brasil já era outro. Como governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, por duas vezes, o seu principal feito administrativo, sem dúvida, foi a educação. No Rio Grande do Sul semeou o Estado com milhares de escolas públicas, fator decisivo para o elevado nível educacional e cultural dos gaúchos.

No Rio de Janeiro criou os CIEPs, modelo avançado de educação integral que ainda haverá de ser resgatado pelos governantes e administradores do presente e do futuro. Talvez nenhum outro governante tenha dado tanta ênfase prática à educação como Brizola deu. Neste sentido, Brizola projetava uma perspectiva de futuro modernizante, orientada para o desenvolvimento e para a sociedade de informação, como são os países que se desenvolveram nas últimas décadas. Esta tarefa ainda tem grandes lacunas e precisa ser concluída com urgência pelos governantes atuais e futuros. Com tudo isso, em que pesem alguns equívocos que Brizola possa ter cometido, o lugar que ele ocupará na história política brasileira será dos mais significativos.

José Genoino é Presidente do PT

 
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