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A difícil escolha entre purê e batata frita

28.02.2005 | Fonte de informações:

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Josué não sabe o que o termo significa. Aos 69 anos, só teve chance de chegar à quarta série. Mas logo viu o resultado: emprego para todos os parentes, dez no total, e muitos festejos no fim de semana. Os arranjos produtivos são cidades que se especializaram na produção de determinados produtos e, para continuar se expandido e ganhando mercados, fazem parcerias com o setor público e estimulam a geração de conhecimento.

Para reconhecer isso, uma emissora de televisão foi às ruas para saber como anda o orgulho das pessoas na cidade de Josué, por conta do baixíssimo nível de desemprego que, por conseqüência, diminuiu a quase zero a violência que assolava os cidadãos. O prefeito havia decidido fazer uma séria de ações que custavam pouquíssimo dinheiro, mas que procurava valorizar a atividade profissional local, conectando-a ao aumento do orgulho das famílias. As pessoas voltaram a se falar umas com as outras, afastando aquela mania doentia de cidade grande de só olhar para frente.

Seria um Brasil novo, que projeta uma Nação para o futuro. Mas não é, porque eu estou mentindo.

Em meus delírios cotidianos, comecei a imaginar que essa realidade fosse perfeitamente possível. Afinal, algo muito parecido já acontece. Só que o tema é outro, quase sempre o mesmo: o futebol.

O Volta Redonda, time de futebol que dá nome à "cidade do aço", no interior sul do Rio de Janeiro, foi o grande campeão da Taça Rio, uma espécie de primeira fase do campeonato estadual. Por conta do jogo que ocorreu hoje (27/2), com nova e belíssima vitória sobre o Flamengo, a REDE GLOBO foi às ruas da cidade durante a semana para medir a animação do povo em relação à equipe.

A idéia passada era de que "a cidade estava em festa". Na verdade, nem tudo era festa: os vereadores locais, em um ato de absoluta mediocridade, aumentaram a verba para a Câmara Municipal, mesmo que o número de parlamentares tenha caído de 21 para 14. Um absurdo, certamente, mas ninguém se preocupou em saber o que pensam os moradores.

A matéria contou com dois jogadores do time local, que recebiam elogios e abraços das pessoas. "É um reconhecimento do nosso trabalho, então vamos continuar trabalhando", disse o goleiro Lugão, uma das estrelas do "Voltaço", como é carinhosamente conhecido o Volta Redonda. O que aconteceria se a cena se repetisse com dois vereadores que propuseram o aumento da verba da Câmara?

Cada um faz o que tem de melhor

São muitos os arranjos produtivos no Brasil. Franca (calçados), São José dos Campos (aviação), Santa Rita do Sapucaí (telecomunicações) e, aqui pertinho, Nova Friburgo (moda íntima). São dezenas de cidades em que sociedade e governo andam lado a lado, unindo cooperação, empreendedorismo e inovação. Em Santa Rita (sul de Minas), segundo o jornalista Gilberto Dimenstein, "falta trabalhador".

Ir para essas cidades e medir o ânimo das pessoas certamente não é uma idéia utópica. Utópico é achar que uma rede de televisão que exibe o quadro "Se vira nos 30" vá fazê-lo. Mas continua sendo uma boa idéia.

Para a REDE GLOBO, a grande qualidade do brasileiro são as "coisas diferentes"

Para aqueles que felizmente desconhecem o "Se vira nos 30", trata-se de um quadro passa todo domingo no programa de auditório FAUSTÃO, da REDE GLOBO. O apresentador resume a idéia: "Cada um faz o que tem de melhor". E o que é este "melhor"? Opinar sobre o aumento da verba na Câmara de Volta Redonda pode? Porque tem gente que faz isso muito bem. É o que muitos têm de melhor.

Mas tudo bem, é um quadro "cultural", ou ainda "artístico". E o que seria essa "arte"? O apresentador também explica, com muita transparência: "Se você sabe fazer uma coisa diferente, compareça aos locais onde estará nossa produção". Ou seja, um eufemismo para bizarrices. Se você é bizarro, então é um exemplo. Além disso, é o que você sabe fazer melhor: ser bizarro. Se trabalha 50 horas por semana, é honesto, trata bem sua mulher e seus filhos e paga seus impostos, então está dispensando. Cai fora, você nunca será alguém na vida. Seja bizarro em 30 segundos e quem sabe um dia você aparece na TV.

Uma das "apresentações" foi de uma mulher que sabia dançar com uma garrafa na cabeça. Isso foi às 18h30 da noite de domingo. Uma mulher mulata, de barriga de fora, tinha que dançar aos olhos do Brasil com uma garrafa na cabeça. Isso, segundo o próprio apresentador, era o que ela sabia fazer de melhor. Se conseguisse convencer os anestesiados telespectadores de FAUSTÃO, ganharia mais segundos e dinheiro. Se não conseguisse, ficaria apenas com a humilhação pública mesmo.

Se uma dessas pessoas se prostituir ou matar alguém no sinal, haverá um escândalo público. Um animal matou a minha filha. A minha filha! Aquela que via FAUSTÃO, que por sua vez trabalha para a REDE GLOBO, que vem a ser um dos canais de TV aberta, que por sinal tratam os telespectadores como animais.

A falsa politização

A reação é rápida: "você precisa ser politizado". Mas o que é exatamente ser politizado? Responder essa pergunta antes de qualquer outra ideologia foi decisivo para o sucesso do neoliberalismo. Ao contrário do que muitos pensam, o modelo imposto não foi somente o da despolitização das pessoas. É claro que há muita alienação, não há dúvidas quanto a isso. Mas mesmo que apenas um grupo pequeno de pessoas conscientes resolvesse se envolver de fato na política, muita coisa já poderia ser mudada.

Arnold Toynbee, historiador inglês que viveu no século passado, tem uma frase muito conhecida de todos. Ele diz: "O maior castigo para quem não gosta de política é ser governado pelos que gostam". Muitos outros pensamentos exaltam a política. James Clarke (1810-1888), teólogo americano, também deixou sua contribuição e tem outro famoso pensamento, onde coloca os pingos nos 'is': "Um político pensa na próxima eleição. Um estadista, na próxima geração".

Sabendo disso, as tevês e meios de grande circulação trataram de "politizar" a população da primeira forma - seja ela pobre, rica, negra ou branca. Pensa apenas na próxima eleição. A "denúncia" de que os políticos são conservadores deixaria o noticiário conservador, se defendem. Culpa dos políticos, dizem, pos estamos apenas fazendo a mediação. Trata-se de um eterno porém falso ciclo, pois há a vontade explícita dos meios de comunicação - que poderiam fazer a diferença - de continuar a transmitir a política menor, feita de birras, bravatas e sandices.

Progressistas alienados

Nesse contexto, bem no meio do FAUSTÃO, não faltará quem traga "temas polêmicos", que são necessariamente os mesmos temas da novela das oito, onde estão os principais patrocinadores. São temas que poderão te tornar "progressista" e até "de esquerda", sem necessariamente torná-lo, de fato, politizado. Você não precisa fazer absoulamente nada pelo País, desde que seja "a favor" do aborto e do homossexualismo. Não visite lugares humildes e abandonados pelo poder público: basta falar mal da Rosinha - com bastante raiva, ok? - para ganhar a carteirinha do clube dos bons.

Quando alguém contar uma piada humilhando gays ou negros, não deixe de rir. Afinal, ninguém gosta de parecer "chato", não é mesmo? Hipócrita pode, mas chato nunca.

Dessa forma, os meios ficam livres para "permitir" que o telespectador se "politize". Não pensamos num projeto de Nação, num mundo melhor ou numa utopia a abraçar. Agora, com a permissão deles, podemos escolher se o Lula é bêbado ou não; Se será re-eleito ou não; Se queremos o FHC ou não de volta; Se o presidente da Câmara é safado ou sincero.

Ou, por fim, se queremos purê ou batata frita no almoço.

Gustavo Barreto BRASIL

 
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