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Vitória a Minas, caminho natural

27.06.2005 | Fonte de informações:

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Primeiro ela tem que acontecer dentro da gente, depois, fora, quando estivermos deslocando de um lugar para outro. Assim foi minha viagem de Belo Horizonte para Belo Oriente (saindo do belo e aportando no belo), no trem de passageiros da Estrada de Ferro Vitória Minas.

O embarque, feito na Estação Central de Belo Horizonte, acontece todos os dias às 7h 30 mim. da manhã, com destino final na capital do Espírito Santo, a litorânea Vitória. Na hora prevista sai o trem de ferro e aço saltando “fogo pelas ventas”, anunciando sua partida. Passamos por debaixo do arco do Viaduto Santa Tereza, vejo-o por um ângulo que nunca antes vira, ele lá, intacto, me olhando, me olhando, e eu indo, indo, no galeio do trem... e o trem afundando pelas Gerais, nos guiando nesta viagem até dentro de nós mesmos, pelos caminhos esquecidos, perdidos dentro da gente.

De Minas a Vitória, o trem passa pelas estações: Dois Irmãos, Rio Piracicaba, João Monlevade, Desembargador Drummond, Antônio Dias, Mário Carvalho, Intendente Câmara, Frederico Sellow, Pedra Corrida, Governador Valadares, Tumiritinga, São Tomé do Rio Doce, Barra do Cuieté, Conselheiro Pena, Resplendor, Ituêta, Aimorés, Baixo Guandu, Itapina, Colatina, Piraqueaçu, Aricanga, Fundão, Flexal e Pedro Nolasco. Sendo que a parada em Itapina só acontece às sextas-feiras, sábados e domingos. Assim vai a viagem pautada em seus 640 km de trilhos desiguais, de sonhos vividos, compartilhados.

Já à saída de Belo Horizonte o Chefe de Trem, Sr. Deodoro de Souza, anuncia: “a nossa parada final é em Pedro Nolasco, com previsão de chegada às 20h e 17 min.”. Que Deus nos acompanhe!

As tarifas são tabeladas com base de cálculo sobre o ICMS do Estado. Em Minas, como a taxa é de 18%, fica sendo cobrado para cada 50km rodado, o valor R$ 6,30 na classe executiva e R$ 3,10 na econômica.

No Espírito Santo a taxa é de 12%, sendo o cálculo de R$ 5,90 na classe executiva e R$2,90 na econômica. Para meu destino, fica o valor do bilhete econômico sendo R$ 10,20, com distância estimada entre 250 a 300 km de distância.

Da estação central de Belo Horizonte até a sub-estação de Pedreira Ida, em General Carneiro, o trem segue o rio Arrudas, que o acompanha pela margem direita, formando entre BH e Sabará pequenas cachoeiras, com a água esbranquiçada, cheia de espumas de sabão. É o último sinal da cidade grande.

Bato um pouco da poeira levantada pelos vagões e vou até a lanchonete do trem, que fica bem na divisa entre a classe executiva e econômica. A lanchonete além de servir almoço, serve também lanches rápidos, como mistos, hambúrgueres, pastéis, entre outros.

Peço um cafezinho quente, enquanto o trem passa por mais um viaduto, faz-se uma escuridão danada e o pensamento viaja na badalada do trem...

Depois de Pedreira Ida, a próxima estação e a Dois Irmãos, estação criada para substituir as de Barão de Cocais e Santa Bárbara, que tinha uma linha com um traçado original precário, com o trem subindo e serpenteando toda a serra, com uma velocidade média de 20km/h, o que atrasava, e muito, a viagem. Antes, passamos pelo túnel Marimbá, que, devido ao lençol freático, mina água em chuva o ano inteiro.

Com a construção da Dois Irmãos, nome dado em alusão às duas cidades, que disputavam o nome da nova estação, economizou-se aproximadamente 50 minutos na viagem. Da nova estação até a cidade de Barão de Cocais, são aproximadamente 3 km, feitos por ônibus, que ficam à espera da chegada do trem. A partir daí, sigo a viagem de dentro da cabine da locomotiva, com o coração batendo forte e os olhos atentos para nada perder. Agora, a viagem fica mais bela, ampliada pela visão frontal, onde se pode precisar todo aquele universo de belezas escondidas.

Entre Caeté e Barão de Cocais fica também a Mina do Samitri, uma nova descoberta de minério feita pela Vale, que começou sua exploração recentemente, bem na cabeceira de um viaduto em curva de 400 metros de altitude, construído no ano de 2000. Lá embaixo, bem no meio do vale, avistamos a fazenda do lendário Barão de Cocais, dos tempos áureos da Minas do ouro.

Assim vai a viagem acontecendo dentro e fora da gente. É mesmo uma viagem pelo interior do Brasil, para dentro de nós mesmos. Vamos nesta toada até o pátio de manobra Costa Lacerda, que é a parte mais curvilínea da viagem, antes da estação de Rio Piracicaba.

Este trecho, BH-Costa Lacerda é descida, sendo o trajeto que exige mais atenção dos maquinistas em toda viagem. Em Costa Lacerda vê-se o pátio de manobras, um amontoado de trilhos e linhas, onde muitos caminhos se fundem... “Passa uma cachoeira na janela, foge o pensamento e lá vai o trem”...

Até Costa Lacerda a viagem é toda comandada pelo CCO – Centro de Controle Operacional de Belo Horizonte, que tem sua comunicação feita por meio do Auto Trác, ligado a Belo Horizonte via satélite. O Auto Trac é uma espécie de rádio, em que o maquinista faz pedido de liberação da linha para o Centro de Controle e recebe a liberação para o tráfego em códigos.

Dentro da locomotiva estavam dois maquinistas, Ildeu Lott e João Carlos, e o operador do Auto Trac, Maurício Luis. Depois de Costa Lacerda a viagem é toda comandada por Vitória, pelo Aparelho de Tráfego Centralizado que emite seu sinal à central de operação da locomotiva pela linha férrea. A viagem é feita quase que totalmente por computação, sendo que o sinal de Vitória é que determina as evoluções da locomotiva, não cabendo ao maquinista esta decisão.

Margeando a estrada do trem temos as houses, aquela casinhas numeradas que ficam à beira da linha. Elas são a CTC – Controle de Tráfego Centralizado. Como o próprio nome diz, controla todo o tráfego da linha férrea.

Depois da Dois Irmãos e antes da bela represa do Peti, que transpassamos por um longo e alto viaduto, cruzamos com um carregamento de carvão mineral vindo da Romênia. Olhava assustado a poeira levantada pelo trem quando o maquinista Ildeu explicou: na frente da locomotiva, bem junto às rodas, tem um compartimento em que se coloca areia, e quando é preciso aumentar o atrito nas linhas de trem, esta areia é despejada para que a locomotiva consiga puxar a carga com maior firmeza.

Este trem vem de Vitória com 160 vagões, sendo 80 cheios e 80 vazios, quando chega em Itabira, ele volta com os 160 vagões cheios, levando sabe-se lá para onde, o resto do Pico do Cauê. Cada vagão de carga tem a capacidade para carregar até 78 toneladas.

Entre os trens de carga do mundo, o Brasil tem hoje o maior deles, que é o Locotrol. Ele tem 320 vagões, sendo dividido da seguinte maneira: primeira locomotiva, 160 vagões, outra locomotiva, 80 vagões, uma terceira locomotiva e mais 80 vagões de carga, sendo ele todo operado por um só maquinista, que fica na primeira locomotiva e as outras sendo operadas pelo comando da primeira. As três locomotivas existem para dividir o peso da carga puxada. Todo o trem tem 3 km de vagões. O maior trem do mundo leva nossa Minas para longe, bem longe.

Cruzamos pela primeira vez o Rio Piracicaba, passamos por cima dele. Chegamos à cidade do Rio, sendo o trem saudado pelos meninos que saem nesta mesma hora da escola. Próxima parada: João Monlevade.

Passamos debaixo da rodovia 381, chegamos a represa da Belgo Mineira e paramos na estação da cidade, bem abaixo da siderúrgica. Chegando em Nova Era, passamos por um túnel de 4.000 metros, cravado em plena rocha e inaugurado em 2001, ainda sem nome.

A velocidade média do trem de passageiros é de 65km/h, sendo consumido por cada quilômetro rodado de seis a oito litros de óleo diesel. O tanque daquela locomotiva tem capacidade para até 3.600 litros.

Passamos pela bandeirante cidade de Antônio Dias, paramos na estação de Mário Carvalho - homenagem a um grande engenheiro da Vale, seguindo até Intendente Câmara, o homem que vislumbrou toda esta história, em Ipatinga, onde nos despedimos do Rio Piracicaba para seguirmos o Rio Doce até desaguar no mar. Lá vai o trem de ferro varrendo o Vale do Aço.

Ficarei na próxima parada, na estação Fredrico Sellow, em Belo Oriente, homenagem a um alemão originário que morreu às margens da ferrovia, por volta de 1830, quando, a pedido de Dom Pedro I, veio para o Brasil pesquisar a fauna e flora brasileira. Frederico von Sellow, que navegava pelo Rio Doce, teve sua canoa arremessada contra as pedras da Cachoeira Escura, que está próxima daquela estação, bem detrás da Cenibra .

Ali, a construção da estrada de ferro ficou parada por algum tempo, durante a segunda década do século passado. Eram os anos terríveis da 1º guerra, da febre amarela e da gripe espanhola, que vitimou muitos aqui no Brasil, uma das piores epidemias da nossa história. De toda aquela equipe de bordo que até ali acompanhei, em Governador Valadares ela será toda substituída, seguindo para Vitória uma nova tripulação. Depois de um dia de folga, eles retornarão todos para Belo Horizonte.

O trem pára, é chegada a hora da descida, mas aquela viagem não para ali, ela fica dentro da gente. O trem se despede com um longo e preguiçoso apito e vai passando, vagão por vagão, eu contando, um, dois, três, até que penso; queria começar tudo outra vez...

Petrônio Souza Gonçalves escritor e jornalista, e-mail: petronio@cidademais.com.br

 
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