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Domingo Negro

16.08.2003 | Fonte de informações:

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Desde a manhã de hoje estivemos no acampamento. A região estava cercada pela polícia. Eu mesmo, ironia da vida, apenas consegui romper a barreira da polícia porque entrei como assessor do Pastor Levi, da Igreja Batista de Santo André, porque como membro do Partido Comunista não colou muito.

Resumidamente, apontamos os fatos abaixo.

A tropa de choque chegou ao local logo cedo e sem disposição de negociar.

Nem mesmo aceitaram o argumento de que o Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente iria fazer, com estava marcado, o cadastramento das crianças. Nem mesmo respeitaram a necessidade de termos representantes deste órgão para acompanhar a reintegração.

Após um primeiro momento de tensão, que a tropa chegou a forçar a entrada do acampamento, devidamente fechada, o prazo dado pelo comandante da tropa foi de meia hora para que as famílias saíssem, do contrário haveria a invasão.

Houve uma assembléia e o encaminhamento de deixarmos o local pacificamente, encaminhando os pertences aos vários ônibus e mais ou menos seis caminhões, destes que transportam areia e, fatalmente estragaria tudo.

Alguns fatos fazia-nos acreditar que a polícia ( e eu nunca vi tanta reunida), estava ali provocativamente disposta à violência. O principal deles é que nenhum dos soldados da tropa de choque tinham a identificação no peito.

Vimos que a disposição de agir violentamente logo se revelaria: o segundo momento maior de tensão iniciou-se justamente no momento em que, terminada a assembléia, com os dois portões ainda fechados, muita gente aglomerada próximo a eles, chegam companheiros correndo, vindos do outro lado do acampamento e anunciando que a polícia havia entrado daquele lado, estavam batendo no povo, inclusive engatilhando suas AR15 ameaçando quem estava por ali.

Alguns barracos foram queimados e até agora não sabemos quem começou a atear fogo. O fato que a multidão aglomerada nos portões, apavorada, começou a se espremer. Conseguimos finalmente abrir os portões e evitar maiores conseqüências. Um botijão de gás explodiu e houve muita confusão nestes momentos, mas logo tranqüilizado. O que nos causa nojo é que havíamos acabado de fazer a assembléia e mesmo assim os policiais procuravam agir violentamente. Outro dado, que é mais comum acontecer: todos os que auxiliavam de alguma forma o andamento da retirada eram filmadas por um soldado do GATE.

No início da tarde, os acampados dirigiram-se, nos ônibus, para uma igreja católica da região, que iria acolhê-los. Não sabemos ainda bem por qual motivo, mas ao começarem a descarregar os objetos que estavam nos ônibus, o padre desistiu da idéia e fomos informados de que não poderíamos ficar ali. Aí começou uma grande confusão de informações, com resultados graves, como veremos abaixo. Um dos líderes do MTST informou que iríamos para uma colônia de férias dos Metalúrgicos do ABC.

Porém, a informação estava errada, não havia colônia nenhuma, e o pessoal voltou a carregar os ônibus com seus pertences. O restante da liderança, que vinha com outros acampados numa marcha nada sabiam do que ocorria na Igreja.

Houve uma grande dispersão, fora o sofrimento de mais ato de humilhação sofrido por todos. Decidiu-se então ir para o Paço Municipal, cujo maldito prefeito não recebeu novamente o movimento. Aí ocorreu o fato mais grave: nesta confusão de informações, os caminhões que faziam um contorno pelas ruas próximas foram parados pela polícia. Em cima e dentro deles estavam muitos acampados, além de boa parte dos pertences de todos. A polícia informou que eles não iriam mais para a Igreja e que era para segui-los até o novo local, sendo que ainda não havia novo local. Circularam com os caminhões por algumas ruas da cidade, até entrarem numa rua meio de deserta e pasmem: fizeram com que o povo descesse e passaram a espanca-los e jogar bombas de gás. Neste ato de covardia, muitos ficaram bastante machucados, um rapaz queimou o pé numa bomba e sofreu vários ferimentos pelos estilhaços. Testemunhas do fato disseram que os policias bateram numa mulher com uma criança no colo, que viajava dentro do caminhão!

Mandaram que o povo corresse e levaram os caminhões embora, de forma que até agora ninguém soube informar ao certo que fim levaram os pertences dos acampados.

Até poucos instantes estávamos no Paço Municipal, onde numa assembléia, com cerca de quatrocentas pessoas, contando com os apoios, decidiu-se acampar por ali mesmo. Consideramos um equívoco, visto que tínhamos uma outra proposta de encaminhar os remanescente para três locais diferentes, fazendo com que saíssem da guarda da polícia, permitindo maior mobilidade para uma rearticulação do movimento. Porém, foi a decisão da maioria que ali estava.

São estes os detalhes que queríamos passar a todos os que se interessam pelo assunto. Embora tenha sido um dia de cão, nossa indignação faz com que de nossos pulmões saia, mais forte do que nunca, A LUTA CONTINUA!

CESAR MANGOLIN PCdoB - São Bernardo

 
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