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TERMINOLOGIAS DA MATA ATLÂNTICA

12.03.2004 | Fonte de informações:

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Os primeiros trabalhos científicos sobre a vegetação brasileira foram realizados pelo astrônomo e naturalista alemão Georg Marcgrave e pelo médico naturalista holandês Wilhem Piso, publicados em 1648, em documento intitulado “Historia naturalis brasiliae”.

Para a reconstrução da fisionomia da região sudeste do Brasil, existem documentos de inestimável valor botânico e histórico, elaborados por naturalistas que percorreram o Brasil no século XIX, como Maximillian Prinz zu Wied-Neuwied (Reise nach Brasilien in den Jahren 1815 bis 1817, publicado em Frankfurt, em 1821), Johann Baptist von Spix (Avium Brasiliensium species novae, publicado em Munique, em 1824), Ferdinand Dénis (Brésil, publicado em Paris, em 1837), Johann Emanuel Pohl (Reise in Innen von Brasilien, publicado em Viena, em 1837), George Gardner (Travels in the interior of Brazil, principally through the northern provinces and the gold and diamond districts, during the years 1836-1841, publicado em Londes, em 1846), Auguste de Saint-Hilaire (Voyage dans les Provinces de Saint-Paul et de Sainte-Catherine, publicado em Paris, em 1851), Robert Avé-Lallemant (Reise Durch Süd-Brasilien in Jahre 1858), Louis Agassiz (Viagem ao Brasil: 1865-1866), Alberto Löfgren (Ensaio para uma distribuição dos vegetais nos diversos grupos florísticos do estado de São Paulo, publicado como boletim da Comissão Geográfica e Geológica do estado de São Paulo, em 1896).

Karl Friedrich Philipp von Martius, naturalista alemão, foi quem deu a maior contribuição para a botânica sistemática brasileira. Chegou ao Rio de Janeiro em 15 de julho de 1817, e junto com Johann Baptist von Spix, começou a explorar as matas do Rio de Janeiro, e depois o interior de São Paulo, Minas Gerais, Bahia e de todo o nordeste brasileiro, até a floresta amazônica, em quase três anos de viagens.

Martius publicou, em colaboração com Spix, "Reise in Brasilien", em três volumes (Munique, em 1823, 1828 e 1831), e também muitas outras obras de imensa importância: "Nova genera et species plantarum brasiliensis", em três volumes (Munique, em 1823 e 1832), e que conta com 300 pranchas coloridas, quase todas feitas com observação de material vivo e acompanhadas das análises de flores e frutos; "Historia naturalis palmarum", em três volumes (Leipzig, entre 1823 e 1850), contendo 245 estampas coloridas; “Herbarium florae brasiliensis”, publicado em Munique, em 1837. Martius não se limitou à taxonomia e nem mesmo à botânica. Escreveu sobre as plantas medicinais brasileiras, observações fitogeográficas, questões etnográficas, assuntos lingüísticos e costumes de nossos indígenas.

A maior contribuição de Martius foi sem dúvida a obra "Flora Brasiliensis: enumeration plantarum in Brasilia", base de toda a Botânica Sistemática Brasileira, que exigiu para seu término 66 anos (1840 a 1906), tendo contado com a colaboração de 65 botânicos de diversos países. Consta de 130 fascículos reunidos em 40 volumes, onde são descritas 22 mil espécies botânicas, das quais, na ocasião, seis mil eram desconhecidas.

Em 1840, Martius apresenta o primeiro mapa fitogeográfico do Brasil, contendo a ”Tabulae physiognomicae”, onde estabeleceu para a geografia botânica brasileira as seguintes divisões dos grupos florísticos: Napaeae, Dryades, Oreades, Hamadryades e Naiades. As Naiades orrespondem à flora amazônica; as Hamadryades à região das caatingas; as Dryades às florestas atlânticas; as Oreades à região onde dominam os cerrados e as Napaeae à região de matas de araucária e campos sul-rio-grandenses. O estado de São Paulo está incluído em dois grupos, Oreades e Dryades, sendo que neste último encontram-se as regiões das serras e das montanhas cobertas com florestas virgens, compreendendo a faixa litoral de São Paulo. Em sua essência, este mapa não difere muito dos melhores mapas fitogeográficos atuais.

Adolf Engler, em “Syllabus der Pflanzenfamilien”, publicado em Berlin, em 1889, e Alberto José Sampaio, em “Phytogeographia do Brasil”, publicado em São Paulo, em 1938, remanejaram o sistema de Martius, permitindo a Frederico Carlos Hoehne, em “O litoral do Brasil meridional”, publicado em São Paulo, em 1940, inserir toda a região da Serra do Mar dentro das Formações Higrófilas, que são constituídas de florestas muito viçosas, onde há grande concentração de plantas epífitas e atmosfera saturada de umidade.

O naturalista alemão Hermann Burmeister introduziu o termo Floresta Atlântica, quando dividiu a vegetação brasileira em três grandes zonas: Amazônia, Brasil Central e Floresta Atlântica (Reise nach Brasilien, durch die Provinzen von Rio de Janeiro und Minas Geraes, publicado em Berlin, em 1853). O termo Floresta Atlântica seria utilizado por August von Pelzeln, do Naturhistoriches Museum de Viena, que classificou muitas espécies da avifauna existente neste rico bioma brasileiro, através das coleções do zoólogo Johann Natterer, que chegou ao Brasil junto com Spix e Martius, onde passou 18 anos realizando suas pesquisas, entre 1817 e 1835, onde boa parte dos resultados foram publicados em Viena, em 1871, no “Zur Ornithologie Brasiliens: resultate von Johann Natterer reisen in den Jahren 1817 bis 1835”.

Alguns autores defendem os termos Floresta Atlântica ou Mata Atlântica como sendo referentes às áreas de domínio da Floresta Pluvial Tropical ou Floresta Latifoliada Tropical Úmida de Encosta. O termo Floresta Pluvial Tropical foi citado pela primeira vez por Andreas Franz Wilhelm Schimper, em “Plant-geography upon physiological basis”, publicado em Oxford, em 1903. Este termo foi utilizado por Paul Westmacott Richards, em “The tropical rain forest: an ecological study”, publicado em Cambridge, em 1952. Leopoldo Magno Coutinho adotou o nome Mata Pluvial Tropical (Contribuição ao conhecimento da ecologia da Mata Pluvial Tropical, publicado no boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, em 1962), proposto por Richard von Wettstein, na obra “Vegetationsbilder aus Südbrasilien”, publicada em Leipzig, em 1904.

Segundo Carlos Toledo Rizzini (Nota prévia sobre a divisão fitogeográfica (florístico-sociológica) do Brasil, publicada na Revista Brasileira de Geografia, em 1963), a Floresta Atlântica é constituída pela Floresta Pluvial Baixo Montana e Montana, com o primeiro tipo ocorrendo nas porções mais baixas das serras e o segundo nas partes de mediana altitude. Para Alceo Magnanini (Geografia do Brasil: grande região leste, 1965), esta vegetação encontra-se inserida na Formação da Encosta Atlântica.

Ellemberg e Dieter Mueller-Dombois, em “Tentative physionomic ecological classification of plant formations of the earth”, publicado pelo Geobotanic Institute, de Zurich, em 1966, apresentaram o termo Floresta Ombrófila Densa, com as subdivisões Montana e Submontana, substituindo Pluvial (de origem latina) por Ombrófila (de origem grega), ambos com o mesmo significado, "amigo das chuvas", empregando pela primeira vez os termos Densa e Aberta, como divisão das florestas dentro do espaço intertropical, pois apresenta as duas fisionomias ecológicas, tanto na Amazônia como nas áreas costeiras.

Dardano de Andrade-Lima, em “A vegetação: atlas nacional do Brasil”, de 1966, utiliza o termo Floresta Perenifólia Latifoliada Higrófila Costeira. Aziz Ab’Saber, em “Domínio dos mares de morros no Brasil”, de 1966, insere a Mata Atlântica no Domínio Morfoclimático Tropical Úmido do Brasil de Sudeste, simbolicamente reconhecido como Domínio dos Mares de Morros, que Dora Romariz (A vegetação, 1968) denomina Floresta Latifoliada Tropical Úmida de Encosta.

George Eiten (A vegetação do Estado de São Paulo, 1970), criou o termo Floresta Costeira Atlântica, subdividida em Floresta Alta do Litoral, Floresta da Encosta da Serra do Mar, Floresta da Crista da Serra do Mar, Floresta Sempre Verde do Planalto, Floresta Semidecídua do Planalto e Floresta Mista Latifoliada de Araucária, todas inseridas na subsérie florestal.

Kurt Hueck e Paul Seibert (Vegetationskarte von Südamerika, 1972), adotaram a terminologia Floresta Pluvial Atlântica, denominando o primeiro tipo descrito por Rizzini, de Floresta Litorânea ou Costeira e o segundo, de Floresta de Montanhas, apresentados junto ao Mapa de Vegetação da América do Sul.

A Mata Atlântica, um dos principais biomas brasileiros, é formada por densas florestas e ecossistemas associados, que originalmente havia uma área de aproximadamente 100 milhões de hectares, correspondendo a 15% do território brasileiro, ou seja, pouco mais de 10 vezes a área territorial de Portugal.

De toda a terminologia usada, Mata Atlântica é o que tem sido mais utilizado nos últimos anos, em trabalhos que descrevem principalmente sua estrutura e composição. A Mata Atlântica estendia-se, originalmente, ao longo da costa do oceano Atlântico, desde o paralelo 5 graus e 30 minutos Sul até 30 graus Sul, entre os estados do Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul, numa faixa cuja largura máxima seria de 200 km e atingindo altitudes superiores a dois mil metros. Na região do rio Doce, ultrapassava a Serra do Mar, encontrando seu limite na borda da Serra do Espinhaço. Nos estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, a Mata Atlântica estendia-se por toda a extensão, até o rio Paraná.

O Decreto 750 de 10 de fevereiro de 1993, no artigo 3, considera Mata Atlântica as formações florestais e ecossistemas associados inseridos no domínio Mata Atlântica, com as respectivas delimitações estabelecidas pelo Mapa de Vegetação do Brasil (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1988): Floresta Ombrófila Densa Atlântica, Floresta Ombrófila Mista, Floresta Ombrófila Aberta, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Estacional Decidual, Manguezais, Restingas, Campos de Altitude, Brejos Interioranos e Encraves Florestais do Nordeste.

A Mata Atlântica está situada, no estado de São Paulo, nas encostas da Serra do Mar, com penetrações mais para o interior, particularmente no sul do estado. É a formação florestal mais antiga do Brasil, estabelecida há cerca de 70 milhões de anos. Localizada sobre um embasamento cristalino pré-cambriano, que já estava plenamente estabelecido no início do Terciário, a Mata Atlântica tem seu posicionamento ligado ao relevo, umidade e precipitação atmosférica, o que propicia uma formação de árvores altas, com sub-bosque sombrio e úmido, onde vegetam inúmeras ervas e epífitas.

A composição florística da Mata Atlântica varia continuamente de norte a sul, com o índice pluviométrico, drenagem e situação topográfica. A face de inclinação das montanhas voltada para o oceano recebe mais chuva, que aumenta com a altitude. A precipitação varia em média 1.000 a 1.500 mm/ano ao nível do mar, ocorrendo de 850 mm/ano no município de Cabo Frio, no estado do Rio de Janeiro até 4.500 mm/ano nos topos dos morros.

Este rico bioma é composto por mais de 20 mil espécies vegetais, das quais 8 mil são endêmicas; cerca de um milhão de espécies de insetos; 200 espécies de répteis (60 endêmicas), 280 espécies de anfíbios (253 endêmicas); 620 espécies de aves (181 endêmicas); 261 espécies de mamíferos (73 endêmicas); e milhares de espécies de fungos e microorganismos. O montante de endemicidade na Mata Atlântica indica que este bioma é um centro de evolução.

Cerca de 100 milhões de brasileiros vivem hoje na área de domínio da Mata Atlântica, e cidades como Rio de Janeiro e São Paulo são abastecidas por suas nascentes e cursos d’água. Infelizmente é o bioma mais ameaçado de extinção do mundo, junto com as quase extintas florestas da ilha de Madagascar, na costa da África. Das 202 espécies da lista de animais ameaçados de extinção no Brasil, 171 são de ocorrência natural da Mata Atlântica.

Hoje restam apenas 7% da vegetação original da Mata Atlântica, que encontra-se muito perturbada, e a sua fragmentação e destruição tem levado à extinção um grande número de espécies, populações e comunidades da fauna e flora. Mesmo com a devastação acentuada, este bioma ainda abriga uma parcela significativa da diversidade biológica do nosso planeta, e por isso é considerada uma das áreas de mais alta prioridade para a conservação em todo o mundo.

Fábio Rossano Dário Pisa - Italia

 
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