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EVO MORALES E A NOVA ONDA VERMELHA

11.01.2006 | Fonte de informações:

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A Bolívia tem sido, através da História, um país martirizado.

No período colonial, viu suas riquezas em prata e ouro saqueadas pela Coroa espanhola. A prata era em tão grandes proporções, que Potosi – onde se localizavam as minas – se transformou na maior e mais rica cidade das Américas, entre fins do século XVI e a primeira metade do século XVII.

Depois de independente, a partir de 1825, foi alvo da cobiça de seus vizinhos. Na chamada Guerra do Pacífico, entre 1879 e 1881, perdeu para o Chile a província de Atacama, riquíssima em nitrato (salitre) e o porto de Antofagasta, sua única saída para o mar. Em 1903, foi obrigada a ceder para o Brasil, por um preço irrisório, o que é hoje o estado do Acre. Na Guerra do Chaco, de 1932 a 1935, teve que entregar ao Paraguai mais um pedaço do país, com importantes reservas petrolíferas.

Em menos de 60 anos, a Bolívia perdeu metade do seu território.

A pilhagem internacional e a ação predatória de uma das mais vorazes e insensíveis oligarquias nacionais fizeram da Bolívia um dos três países mais atrasados da América Latina.

A eleição do socialista Evo Morales conduz ao poder um representante da imensa maioria pobre e marginalizada, secularmente explorada por interesses nacionais e estrangeiros. É o primeiro índio na história boliviana a ser eleito presidente da República, em uma nação com 80% de população indígena. Ele concentra as esperanças de seu povo por efetivas mudanças sociais, desenvolvimento e condições mais dignas de vida.

O receio, difícil de ocultar, é de que repita a experiência de outros líderes populares, como Lula, que no governo desertaram de seus compromissos, o que, se acontecer, acrescentará um novo capítulo à tragédia boliviana. O povo, muito mobilizado como está, responderá nas ruas, possivelmente de armas na mão.

A ONDA VERMELHA (OU ROSA)

Por outro lado, a eleição de Evo Morales confirma a tendência da América Latina em favor de governos progressistas ou assumidamente de esquerda, agravando o isolamento político dos EUA, que sempre se consideraram os donos do continente. Esse cordão dissidente vai de Cuba à Argentina, passando pela Venezuela, Brasil e Uruguai, ao qual se junta agora a Bolívia. A vitória de Michelle Bachelet pode, igualmente, representar uma inclinação do Chile para posições mais independentes. E, ainda neste ano, teremos eleições em três outros países com possibilidade de vitória de candidatos esquerdistas ou nacionalistas: México, com Lopez Obrador, prefeito da capital e que aparece em primeiro lugar nas pesquisas; Nicarágua, com o sandinista e ex-presidente da República Daniel Ortega, e Peru, com o coronel nacionalista Ollanta Humala. Todos eles, em graus diferentes, constituem motivo de preocupação para os EUA, pois não comungam das posições políticas do governo americano.

O coronel Ollanta, que está em segundo lugar nas pesquisas, terá um papel importante na política peruana, qualquer que seja o resultado eleitoral. Defende posições ultranacionalistas, propondo inclusive a criação de uma grande nação indígena, reunindo o Peru, a Bolívia, o Equador, parte do Chile e o noroeste da Argentina. No plano internacional, defende uma linha de total independência com relação aos EUA. Aproxima-se, em muitos aspectos, da orientação nacionalista do general Velasco Alvarado, que governou o Peru de 1968 a 1975, promovendo profundas mudanças sociais, até que foi derrubado por um golpe militar de direita.

A América Latina vive assim um momento particularmente rico para a tomada de decisões que vão definir seu destino nos próximos anos ou décadas.

AS PESQUISAS ELEITORAIS

Foi escandalosa a manipulação das pesquisas contra a candidatura de Evo Morales. Elas lhe atribuíam apenas 34% das intenções de voto, já na véspera da eleição, o que transferiria a decisão para o Congresso na disputa com o segundo candidato, que tinha as simpatias dos EUA. Na Bolívia, para se eleger diretamente, o candidato precisa conquistar mais de 50% da votação.

Abertas as urnas, Morales recebeu 54% dos sufrágios, 20% a mais do que indicavam as pesquisas. Isso dá uma idéia dos obstáculos que irá enfrentar.

*José Maria Rabêlojornalista, anoticiacomoelae@uol.com.br

 
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